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Alterações climáticas: roteiro em marcha atrás

Efeitos das alterações climáticasO minúsculo passo dado na conferência sobre alterações climáticas na ilha de Bali, na Indonésia, foi, praticamente, para trás, pois o diálogo quase entrou em colapso quando os Estados Unidos se negaram a aderir ao consenso global.

Por Stephen Leahy, da IPS

 

Quando Kevin Conrad, representante de Papua-Nova Guiné, pediu, por favor, aos delegados norte-americanos que se afastassem do caminho caso se negassem a liderar um processo obtido por consenso, Washington deu meia-volta e aceitou o "roteiro" de Bali.

Diante deste roteiro político, que direcção indica o mapa cientifico? Há um mês, o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre as Alterações Climáticas (IPCC), premiado com o Nobel da Paz, alertou que as emissões de gases causadores do efeito estufa deveriam chegar a um tecto e começar a decair no prazo de 10 a 15 anos. muitos dos cientistas mais reconhecidos na matéria consideram que não fazê-lo não é uma opção, porque desestabilizaria irreversivelmente o sistema climático do planeta.

Os milhões de pessoas já afectadas pelas alterações climáticas vão rapidamente converter-se em centenas de milhões, se não houver uma grande redução de emissões. E há um alto risco de que entrem em colapso ecossistemas únicos que sustentam numerosas espécies de vida, como os recifes de coral. A ciência insiste em que o primeiro passo importante para impedir que se concretizem as hipóteses mais alarmantes é que os países industrializados reduzam entre 25% e 40% as suas emissões até 2020, em relação aos níveis de 1990.

Representantes dos países industrializados coincidiram com os cientistas numa reunião da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, realizada em Agosto, em Viena. E ao longo das duas semanas que durou a XIII Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em Bali, Yvo de Boer, secretário-executivo do tratado, frequentemente reiterou que este era o caminho exposto pela ciência claramente.

Para onde leva então o roteiro de Bali?

Não há nenhuma menção à redução entre 25% e 40% das emissões até 2020. Canadá, Estados Unidos e Japão opuseram-se categoricamente a qualquer objectivo especifico em matéria de reduções para as nações industrializadas. Na linha de frente ficaram a União Europeia e muitos países em desenvolvimento. Para alcançar um acordo, europeus e países do sul acabaram por conceder. No acordo final não existem objectivos específicos de redução de emissões. Reconhece - isso sim - que "são necessárias profundas reduções nas emissões globais para conseguir o objectivo principal" de travar as alterações climáticas.

O roteiro de Bali é, essencialmente, um acordo para abrir um processo de negociações de dois anos, desenhado para uma nova série de objectivos de redução de emissões para substituir os do Protocolo de Quioto, assinado em 1997 e em vigor desde 2005. Embora isto possa não parecer um grande avanço, houve um sério debate sobre um período mais extenso de negociações, que adiaria as acções para um futuro distante.

E até ao último momento os Estados Unidos - que respondem por cerca de um quarto das emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa - foram contra incluir na declaração a necessidade de "profundas reduções nas emissões mundiais", dizendo que a ciência é incerta. "O governo de George W. Bush tem atrapalhado não tem tido escrúpulos de impedir as acções sobre alterações climáticas que a ciência exige', disse Gerd Leipold, director-executivo da organização ambientalista Greenpeace Internacional. "Eles relegaram a ciência a uma nota de rodapé de pagina", acrescentou.

Sem objectivos de redução, o que se conseguiu em Bali?

"Criamos incentivos para tornar atraente para os países agirem sobre a alterações climáticas. Estamos a criar ‘cenouras' aqui e, talvez, se houver necessidade, depois faremos 'paus' para incentivar as pessoas", disse De Boer à imprensa após a reunião. A "cenoura" maior consiste em permitir que os países ricos comprem créditos de carbono das nações que preservam as suas selvas tropicais. O desmatamento responde por 20% a 25% das emissões globais de dióxido de carbono. Esses incentivos deixaram algumas organizações não-governamentais irritadas.

Não se trata de como obter ganhos a partir da crise climática", disse à IPS desde Nusa Dua (Bali), Simone Lovera, da ONG Coligação Mundial pelas Florestas, com sede no Paraguai. "Os interesses corporativos estão a dominar esta conferência", acrescentou Lovera. Mais do que comprar créditos para contaminar, os países ricos deveriam reduzir as suas próprias emissões, ressaltou. As partes da Convenção cometeram um grande erro ao incentivar o sector empresarial a envolver-se com força no processo. Está em jogo a sobrevivência de nações inteiras e é absolutamente impossível que participem, destacou Lovera, que esteve em muitas conferências sobre alterações climáticas.

Embora os princípios do desenvolvimento sustentável fossem amplamente ignorados em Bali, Lovera disse que ainda havia sinais de esperança, como o acordo holandês para deixar de subsidiar a palma para elaboração de biodiesel e o compromisso de US$ 2,8 mil milhões da Noruega para ajudar os países em desenvolvimento a preservar as suas florestas. Além disso, a Alemanha anunciou que vai reduzir em 40% as suas emissões até 2020. A maioria das ONGs felicitaram os delegados por conseguirem um acordo, porém, dizendo que o roteiro de Bali é vago e pouco ambicioso. E todos esperam que o governo Bush chegue ao fim, depositando enormes expectativas no novo presidente norte-americano.

"Os políticos já não podem dizer que não sabem que as alterações climáticas são um assunto sério e urgente", disse há um mês Hans Verolme, diretor do Programa Global de Mudança Climática do não-governamental Fundo Mundial para a Natureza (WWF), na apresentação formal do Relatório de Síntese do IPCC. "Bali mostrará ao mundo o que está pronto para fazer", disse Verolme à IPS. No momento, isto é apenas um passo à frente. (IPS/Envolverde)

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