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Alemanha: SPD foi o grande derrotado nas eleições em Hessen

Rolad Koch, líder da CDU de Hessen. Foto de Nils Bremer, FlickRO Partido Social Democrata Alemão (SPD) foi o grande derrotado das eleições no estado federado de Hessen, que se realizaram no domingo passado e foram ganhas pela União Cristã Democrática (CDU). Os sociais-democratas perderam 13% em relação às últimas eleições, realizadas apenas há um ano. O nosso correspondente na Alemanha explica porquê.

Por João Alexandrino Fernandes, de Tübingen, Alemanha, para o Esquerda.net

Realizaram-se no domingo 18 de Janeiro eleições no estado federado de Hessen, cuja capital é Wiesbaden, mas cuja cidade mais importante é o centro da finança alemã, Frankfurt-am-Main.

Os resultados apurados deram a vitória à União Cristã Democrática (CDU) com 37,2%, que formará governo em coligação com o Partido Democrático Livre (FDP), 16,2%, de orientação liberal. Em termos de números absolutos, em segundo lugar ficou o Partido Social Democrata Alemão (SPD), com 23,7%, em quarto lugar, depois do FDP, os Verdes, (Bündnis90/Die Grüne) com 13,7,% e em quinto lugar o Die Linke, (a Esquerda) com 5,4%. Serão estes partidos que vão estar representados no parlamento de Wiesbaden.

Em resumo, a direita formada pela CDU e FDP governará, o grande derrotado é o SPD, que perdeu 13% dos votantes que tivera há um ano, os Verdes obtiveram um excelente resultado, subindo 6,2%, o Die Linke subiu também ligeiramente a votação do ano passado, com um crescimento de 0,3%. O grande vencedor destas eleições foi o partido da direita-liberal, o FDP, que possivelmente recolheu os votos dos descontentes do SPD, aumentando cerca de 6,8% a sua votação e tornando-o no parceiro de coligação da CDU, a qual também subiu 0,4%. Segundo estes resultados, no parlamento de Wiesbaden a CDU ficará com 46 lugares, o SPD com 29, o FDP com 20, os Verdes com 17 e o Die Linke com 6.

Auto-destruição do SPD de Hessen

O facto político que dominou estas eleições foi o processo de auto-destruição do SPD de Hessen. É bom recordar que o SPD está no governo federal, em Berlim, em coligação com a CDU. Porém, os responsáveis do SPD de Hessen tinham decidido há cerca de um ano traçar outro caminho. O seu objectivo era impedir que o então ministro-presidente, nomeado pela CDU, Roland Koch, voltasse a assumir funções. É preciso recapitular um pouco.

Estas eleições, que ontem se realizaram, resultaram da dissolução do parlamento de Hessen,devido à impossibilidade de formar governo em consequência dos resultados ocorridos o ano passado, nas eleições de Janeiro de 2008. Nestas eleições, realizadas em 27/1/2008, o SPD e a CDU tinham ficado empatados. Ora, contrariamente ao que acontece no governo federal em Berlim, em Hessen o SPD queria fazer governo e ainda nomear o ministro-presidente. Esse facto impedia-o de se coligar com a CDU (que é o seu parceiro em Berlim), porque então a CDU imporia como ministro-presidente Roland Koch e o SPD não aceitava em caso algum essa possibilidade. Assim, para ultrapassar a oposição conjunta da CDU e do FDP, a única alternativa do SPD era, neste contexto, aliar-se aos Verdes e ao Die Linke. A diferença entre SPD+Verdes+Die Linke e CDU+FDP seria então de 4 deputados, suficiente para governar. Mas o problema que se punha é que os responsáveis pelo SPD de Hessen tinham afirmado, durante a campanha eleitoral, que, caso vencessem, nunca se aliariam ao Die Linke para fazer governo - naturalmente, porque contavam não precisar. Este foi, como se veio depois a mostrar, um acto irreflectido, excluindo de forma categórica e com base em meras expectativas um potencial aliado futuro.

O dito por não dito

Depois das eleições de 27/01/2008, perante os resultados concretos - o empate com a CDU -, os responsáveis do SPD de Hessen, chefiados pela sra. Andrea Ypsilanti, tiveram que se desdizer! Se queriam fazer governo sem Roland Koch, precisavam mesmo dos votos do Die Linke, quanto mais não fosse na forma de uma simples tolerância parlamentar. Perante os factos, a sra. Ypsilanti teve que assumir que afinal não poderia manter a palavra dada na campanha eleitoral. E foi o fim do SPD. A falta de respeito pela palavra dada na campanha eleitoral, no sentido de que nunca se coligaria com o Die Linke - que, repete-se foi um acto absolutamente despropositado - criou para o SPD uma situação de enorme fraqueza política, implacavelmente utilizada pelos partidos da direita, portanto, CDU e FDP, e ainda pela ala direita do próprio SPD! A direcção do SPD de Hessen quis ainda assim concretizar o seu projecto, chegou até a celebrar o contrato de coligação com os Verdes e a assegurar a tolerância parlamentar do Die Linke a um governo SPD+Verdes. Mas não contou foi com a oposição interna. E assim, primeiro uma deputada, e, inclusivamente já depois de assinado o contrato de coligação com os Verdes, mais duas deputadas e um deputado vieram juntar-se à deputada já dissidente, formando um grupo de 4 deputados, que se recusaria no parlamento a eleger a sra. Ypsilanti para ministra-presidente, inviabilizando dessa forma, que o próprio partido viesse a formar governo.

Perante isto, ficou sem efeito a coligação do SPD com os Verdes, assegurada pela tolerância parlamentar do Die Linke. Roland Koch, da CDU, continuou durante todo este espaço a governar à frente de um governo de gestão e a única forma de sair do impasse foi a marcação de novas eleições, que se realizaram domingo, com um resultado desastroso para o SPD, que perdeu 13% dos votos relativamente a Janeiro de 2008 e que, de partido que queria formar governo, passou a partido da oposição, vendo agora, impotente, a CDU e o FDP formarem governo com uma confortável maioria...sob a chefia de Roland Koch!

Motivos do desastre do SPD

Este processo é um verdadeiro "case-study" da política alemã, pela sua complexidade e pela evolução que teve. Quanto ao desastre do SPD, a forma de explicação mais corrente tem sido atribuí-lo à tentativa de fazer governo com a tolerância do Die Linke. Mas também aqui as opiniões se dividem. Há quem pense que foi a falta de cumprimento da palavra dada no período de campanha para as eleições de 2008 - se o SPD tinha dito que nunca faria acordos com o Die Linke, não o poderia vir a fazer depois, como quis fazer. Fazendo-o, perdeu a confiança do próprio eleitorado.

E há quem pense que o pior de tudo não foi o facto de o SPD não ter cumprido a promessa da campanha eleitoral, o pior de tudo foi não ter conseguido depois concretizar o objectivo, ou seja, não ter conseguido fazer governo, mesmo com a tolerância do Die Linke e sendo, inclusivamente, derrotado dentro das suas próprias fileiras. Esta situação teria irritado o eleitorado: se o SPD se mostrava incapaz de resolver os seus próprios problemas internos, como é que iria resolver os problemas de Hessen? Esta situação teria então originado a transferência de votos para o FDP e para os Verdes.

Bom resultado para o Die Linke

No meio de toda esta situação, o Die Linke tem todas as razões para estar satisfeito. O Die Linke foi, e continua a ser, demonizado pelos restantes partidos e pela comunicação social. Tentou-se criar a ideia de que o partido estava em risco de nem sequer conseguir atingir o mínimo de 5%, necessários para voltar a ter um grupo parlamentar. O Die Linke conseguiu, apesar de tudo isto, ter até uma votação ligeiramente superior à que tinha tido em Janeiro de 2008 e, acima de tudo, conseguiu manter o seu grupo parlamentar.

O simples facto de não ter sido arrastado no desastre do SPD já foi um bom resultado. É preciso não esquecer que o Die Linke entrou pela primeira vez no parlamento de Hessen nas eleições passadas, que geraram todo este problema e que, agora, decorrido um ano, conseguiu reafirmar-se. Em Hessen, o simples facto de ter conseguido um grupo parlamentar nas duas primeiras eleições a que concorreu, já é muito bom. Noutros estados federados, o Die Linke luta por objectivos diferentes, que vão muito para além dos 5% ou da simples constituição ou manutenção de um grupo parlamentar.

João Alexandrino Fernandes

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