You are here

Afeganistão: O bombardeamento de Kunduz-Desenvolvimentos

Ferido no bombardeamento de Kunduz, que matou quase 100 pessoasConforme já noticiámos (aqui  e aqui), foi levado a cabo um bombardeamento por ordem das forças alemãs incorporadas no ISAF na passada noite de 3 para 4 de Setembro em Kunduz, no Afeganistão, do qual resultou a morte de um número indeterminado de pessoas, segundo as últimas informações, 99, entre vítimas civis e combatentes talibã.

Por João Alexandrino Fernandes, de Tübingen, Alemanha, para o Esquerda.net

Resumidamente: em resposta ao desvio pelos talibã de dois camiões de gasolina, que se destinavam às forças alemãs, e que posteriormente tinham ficado atolados a cerca de 6 Km da base alemã, o comando da base requisitou uma intervenção aérea ao comando da ISAF, fornecendo as coordenadas exactas do lugar em que se encontravam os camiões atolados. Por ordem do comandante alemão, os aviões da ISAF lançaram duas bombas contra os camiões e todos os que se encontravam à volta deles, matando, segundo os últimos números, 69 combatentes talibã e 30 civis. Os civis mortos eram camponeses de uma aldeia próxima, que os talibã tinham ido buscar para virem com os tractores ajudar a desatolar os camiões.

As últimas informações, dadas pelo Der Spiegel*, confirmam que esta verdadeira chacina resultou de erros graves cometidos pelo comando alemão.

Desde logo, a inspecção ordenada pela própria NATO imediatamente a seguir à ocorrência tinha já apurado que o comando das forças alemãs violara pelo menos uma regra fundamental: ordenara o bombardeamento com base em informações de apenas uma fonte - um informador no terreno teria dito telefonicamente à base alemã que à volta dos camiões só se encontravam talibã. Ora, segundo a NATO, existe a regra de que, justamente para evitar casos como este, não se ordenem bombardeamentos com base em informações de apenas uma fonte, regra esta que o comando alemão desrespeitou.

De acordo com a informação do Der Spiegel, sabe-se agora também que os pilotos dos dois aviões americanos requisitados pelo comandante alemão para bombardear os camiões-tanque lhe perguntaram, antes de proceder ao bombardeamento, se não queria, primeiro, que os aviões, antes de bombardear, procedessem a um voo a baixa altitude por cima dos camiões, como forma de aviso de que um bombardeamento estava iminente e para, com o estrondo, assustarem os presentes no local. Esta demonstração de força, denominada na terminologia militar "Show of Force", teria possivelmente dado aos combatentes talibã uma possibilidade de fuga, mas, e é o que aqui está em causa, teria também permitido a fuga dos civis presentes. Ora, o comandante alemão recusou este procedimento.

De igual forma, sabe-se agora que os pilotos, antes de bombardearem, perguntaram ainda ao comandante alemão se se tratava de uma situação de ameaça iminente, "imminent theat", e se as tropas alemãs estavam envolvidas em contacto com o inimigo, "troops in contact". A ambas as perguntas o comandante alemão respondeu afirmativamente, usando apenas a expressão "confirmed", sem outros esclarecimentos, e levantando assim todos os possíveis obstáculos ao bombardeamento

No entanto, segundo o conhecimento actual, nenhuma das informações dadas pelo comando alemão correspondia à verdadeira situação do terreno. Nem a base alemã estava sob ataque, ou iminentemente sujeita a ataque, pelo simples facto do desvio de dois camiões de gasolina; e muito menos havia, ou tinha havido, qualquer contacto que fosse entre as tropas alemãs e os talibã. Os camiões encontravam-se já há horas atolados a cerca de 6 Km da base alemã e nenhum contingente alemão tinha deixado a base para os tentar recuperar ou verificar o que se passava.

Desta forma, através das notícias que surgem pouco a pouco na comunicação social, vai-se desenhando uma situação muito grave, no sentido da censurabilidade da actuação do comando alemão.

Desde logo, pelo desrespeito de uma regra básica, por ter ordenado o ataque apenas com base numa fonte de informação, e, portanto, não ter verificado, como era a sua obrigação, se poderia um ataque deste género vir a ter como consequência a morte de civis.

Segundo, porque da forma como o caso vai sendo conhecido, resulta claro que, com a sua actuação, o objectivo do comando alemão não era recuperar os camiões de gasolina, mas sim bombardear tantos talibã quantos lhe fosse possível, aproveitando a circunstância de encontrarem a céu aberto à volta dos camiões. O que significa porém, consumar um verdadeiro acto de guerra.

Ora, esta actuação não corresponde à caracterização, pelo menos formal, da intervenção alemã no Afeganistão, que se vê a si própria como uma força de estabilização e de apoio ao desenvolvimento. É útil que se esclareça que o governo alemão recusa a palavra "guerra" para classificar a sua intervenção no Afeganistão. Pelo que, para além da barbaridade do acto em si mesmo, o sucedido coloca o governo alemão em grandes dificuldades no sentido de continuar a sustentar a sua perspectiva de que não está no Afeganistão a fazer a guerra, mas sim a apoiar o povo afegão.

Insólita também foi a tentativa de banalização do caso pelo próprio ministro da defesa alemão, Franz Josef Jung, da CDU, começando por defender a legalidade e a correcção da actuação do comando alemão, depois indicando um número de vítimas muito inferior ao verdadeiro e ao mesmo tempo negando, até acabar por ser obrigado publicamente a admitir, a existência de vítimas civis.

No entanto, a desagradável e sempre incómoda verdade sobre aquilo que aqui se passou vai lentamente surgindo. E é importante que surja, porque, de acordo com o progressivo conhecimento das circunstâncias, de facto existem neste caso indícios próprios de um crime de guerra.

É que não é possível ignorar que foram atingidos civis, numa proporção tal que, em relação ao número de mortos, não pode de maneira nenhuma ser justificada, nem sequer pela já de si tenebrosa expressão "danos colaterais"- ninguém pode considerar como "dano colateral" que os civis mortos sejam um terço das vítimas totais. E muito menos o pode ser, se se considerar a gigantesca desproporção entre o propósito de reacção a um roubo de dois camiões e os meios empregues para reagir.

Estamos a falar de 30 camponeses afegãos, a quem foram à noite buscar a casa, para ajudar a desatolar dois camiões de gasolina, envolvidos numa guerra que não era a deles, e que agora estão mortos.

João Alexandrino Fernandes

* "Luftangriff in Afhganistan-Deutscher Oberst beging offenbar schwere Fehler", de 19.09.09, em www.spiegel.de.

Termos relacionados Internacional