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“A força da esquerda está na pluralidade e na convergência”

Manuel Alegre no encerramento do Fórum sobre Serviços Públicos e Democracia. Foto de André BejaNo discurso de encerramento do Fórum sobre Democracia e Serviços Públicos, Manuel Alegre sublinhou que a força da esquerda é a sua pluralidade, mas também a "capacidade de construir convergências", procurando uma "perspectiva alternativa de poder". O militante histórico do Partido Socialista acusou o governo de falta de coragem para ajudar os desempregados, enquanto corre para acudir os banqueiros.

Veja fotogaleria do Fórum, fotos de André Beja.

Neste novo encontro das esquerdas, as alternativas às políticas neoliberais foram debatidas em cinco painéis temáticos que precederam os discursos de encerramento de Alegre, Ana Drago e Rosário Gama.

Manuel Alegre elogiou a realização do Fórum das Esquerdas, criticando quem encarou esta iniciativa como um perigo. "Debater ideias sem sectarismos e demagogia é perigoso para quem não gosta de fazê-lo", afirmou, arrancando os primeiros aplausos.

Alegre acusou o governo de falta de coragem para ajudar os desempregados, sobrando por seu turno coragem "para salvar bancos privados". Isto num país que é recordista em desigualdades sociais na União Europeia e com "18% da população no limiar da pobreza". E foi mais longe: "há qualquer coisa de errado quando o Código do Trabalho é elogiado pelo Presidente da CIP" (Francisco Van Zeller).

No seu discurso, o militante histórico do Partido Socialista frisou que "a submissão dos serviços públicos às regras da concorrência tem que acabar", dado que eles não são "mercadorias". "É inaceitável a entrega sistemática ao privado de sectores rentáveis como a energia", sublinhou.

Manuel Alegre enunciou algumas das prioridades de uma esquerda que "tem uma perspectiva alternativa de poder", nomeadamente: "substituição da agenda da flexisegurança pela do pleno emprego; o combate à especulação financeira e imobiliária; a distribuição mais equitativa dos rendimentos; políticas contra a pobreza; defesa dos direitos dos imigrantes; a defesa do direito à água como direito humano; o comprometimento com políticas ambientais e a defesa e reforço da escola pública, do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social".

O ex-candidato presidencial sublinhou que "ninguém é proprietário da esquerda, ninguém é proprietário da verdade, ninguém é dono do futuro". Deixou recados à esquerda de governo que "quando lá chega deixa de ser praticante" mas também avisos "à esquerda que é apenas contrapoder". Mas lembrou também que "a esquerda não se pode virar contra as outras esquerdas", esclarecendo que "não queremos impedir que outros cresçam mas sim que toda a esquerda possa crescer".

Alegre finalizou o discurso dirigindo-se aos "militantes e camaradas socialistas", sem os quais não será possível fazer a "reconfiguração das esquerdas". "Saúdo os camaradas socialistas desempregados, os camaradas socialistas professores que lutam contra este modelo de avaliação absurdo, bem como os que se manifestam contra o novo código do trabalho, que é um retrocesso civilizacional", concluiu Alegre.

A primeira geração que sabe que vai viver pior que os seus pais

Ana Drago discursou antes de Alegre, sublinhando que "quem aqui veio hoje quer uma nova política para o país". A dirigente do Bloco de Esquerda lembrou que a crise "não é uma virose criada por alguns excessos de gestores" mais sim o resultado de "uma política de décadas que alienou o controlo democrático dos mercados e que rapinou os direitos sociais uns atrás dos outros".

Ana Drago referiu-se aos confrontos na Grécia, lembrando que a geração de jovens que veio manifestar-se nas ruas é a mesma geração dos jovens portugueses , condenados à precariedade e "acossados pelo medo do desemprego", a primeira geração desde o o pós-guerra que "sabe que vai viver pior que os seus pais".

A multa que o Ministério das Finanças decidiu aplicar aos trabalhadores a recibo verde, "só porque não entregaram declarações que reproduzem informações já prestadas por estes trabalhadores trimestralmente", mereceu duras críticas de Ana Drago. "É chocante, até porque muitos deles são falsos recibos verdes. Este governo dá milhões para a banca e nada faz no combate aos falsos recibos verdes, antes prefere penalizar estes trabalhadores".

Ana Drago frisou ainda que este governo entende que "o progresso só se faz com domesticação". E deu o exemplo da educação: "ao criar hierarquias e directores nas escolas, este governo quer quebrar a espinha aos professores". E deixou um aviso: "mata-se a democracia na escola e assim se compromete a democracia no futuro".

A finalizar, Ana Drago criticou os que estão "habituados às desigualdades e a falar baixinho" para quem este encontro das esquerdas "é um perigo". "Para nós [este encontro] é um capital de esperança", rematou.

Governo estimula culto perigoso da autoridade

Maria do Rosário Gama, Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Infanta Dona Maria, foi a primeira a usar da palavra na sessão de encerramento. A militante do Partido Socialista afirmou-se desiludida com a política deste governo, que se vem afastando dos "ideiais de esquerda". "Se é verdade que não se pode suspender a democracia, também é verdade que não se podem suspender os ideais e os valores que nos deviam nortear", atirou Rosário Gama.

Após criticar "um governo que estimula o culto perigoso da autoridade", a professora leu a seguinte frase do programa do Partido Socialista sobre educação: "promover políticas que aumentem a motivação e a auto-estima dos professores". Da assistência vieram risos imediatos e Rosário Gama logo enumerou as medidas que em tudo contrariam aquela frase: "aumento da carga horária dos professores, congelamento da progressão na carreira, a divisão artificial e arbitrária entre professores tiulares e não titulares que apenas tem objectivos economicistas, um modelo de avaliação de professores injusto, e o ataque à gestão democrática das escolas através da imposição de Directores cuja missão será silenciar e domesticar os professores".

Rosário Gama lembrou ainda as palavras de Licínio Lima, no debate da manhã sobre educação: infelizmente, a palavra "pedagogia" foi substituída por "economia". E concluiu com palavras de Manuel Alegre: "O pensamento é livre como o vento".

O Fórum sobre Serviços Públicos e Democracia contou ainda com cinco painéis de debate (Educação, Trabalho, Economia, Cidades e Saúde) que se realizaram de manhã e a seguir ao almoço. O secretário Geral da CGTP e militante comunista Carvalho da Silva moderou o painel sobre Trabalho, e acusou Sócrates de ter "um pressuposto de que os sindicatos são uma coisa velha, uma coisa do passado". "Assim não dá", desabafou perante a plateia que encheu um dos auditórios da Faculdade de Letras.

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