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O dia mais longo de uma então simpatizante do MRPP que nunca almejou ser mais do que “uma mulher do povo na revolução”, parafraseando Roger Vailland.

Este é o relato sucinto dos factos históricos do dia 25 de Abril de 1974, de António Louçã, que partilho por ter vivido esse dia, na rua, e ter estado nos momentos mais decisivos desse mesmo dia.
A sua descrição e interpretação é concordante com o que vivi e pensei e penso até hoje.

Para mim, tudo começou às 12,30h, do dia 25 de Abril de 1974, na estação de Metro de Sete Rios, onde uma camarada nos informou do que estava a acontecer — as forças armadas estavam na rua…
Este encontro serviria para ir largar propaganda do 1º de Maio à Sorefame, ali para os lados da Venda Nova/Amadora. Claro está que fizemos marcha atrás e viemos para o centro da cidade.
Fiquei expectante e indecisa quanto ao verdadeiro sentido do que estava a acontecer, pois as forças armadas portuguesas não eram de todo de fiar, bem pelo contrário.
Há muito que pertencia a uma minoria activa, como soldado raso, que lutava contra a guerra colonial e apoiava os movimentos de libertação que nas diferentes colónias davam luta aguerrida contra essas mesmas forças armadas, pela independência dos seus territórios do domínio colonial português.
Por outro lado, era também minha convicção e luta que os destinos da Humanidade só tinham um caminho a percorrer: pôr fim ao sistema capitalista e impor uma sociedade justa e livre - o socialismo.
Ainda permaneço neste patamar…
Assim, o dia foi-me correndo, literalmente, entre as ruas de Lisboa, ora cheias de gente alvoraçada, com os transistores colados aos ouvidos (ouvindo os comunicados do movimento), ora em frente às televisões das lojas comerciais, ora em manifestações de alegria e festejos, ora ainda a deslocar-me a locais, onde, eventualmente, encontraria camaradas que me pudessem informar melhor sobre o que estava efectivamente a acontecer.
Estive no Carmo durante algumas horas, esperando como todos o resultado do cerco e da saída ou não do ditador. Devo esclarecer que quando o carro com o Spínola apareceu os meus receios adensaram-se. Mas que raio, era este traste quem vinha buscar o ditador, para quê? Susbstitui-lo?
Arranquei do Carmo com mais uns camaradas e cheguei ao Terreiro do Paço, cheio de gente. Chaimites, soldados com armas apontadas para o céu, tudo numa alegria e confraternização inesperada e desconcertante, mas tão facilmente explicável.
De um momento para o outro o exército estava na rua não para carregar sobre o povo, mas em conjunto com esse povo, que lhe lançava cravos atrás de cravos, e o rodeava com palavras de ordem de toda a espécie: Liberdade, Liberdade, morte ao fascismo, não à guerra colonial… tanta utopias de ontem e que agora pareciam estar à mão de semear.
Uma alegria, uma comoção imensa invadiu-me. Sim, estava a acontecer algo de muito importante e decisivo para este povo.
Foi naquele Terreiro do Paço que o seu povo o transformou em Terreiro do Povo e nesta reviravolta, zás, arranca em manifestação gritando, e eu com ele, palavras de ordem, entre elas, morte à pide! morte à pide! E quando chegou a meio da Rua do Alecrim, as palavras de ordem transformaram-se numa única: à Pide! à Pide!
É necessário recordar que na Rua do Alecrim existia e existiu durante largos anos, um enorme vazio entre prédios, de onde se vislumbrava a Rua António Maria Cardoso, sede da Pide.
Ninguém foi o autor desta vontade, apenas e somente o povo. O mesmo povo que engrossou nesse dia todas as manifestações e concentrações que já tinham decorrido ou ainda estavam a decorrer.
A manifestação chegou à Rua António Maria Cardoso e nela entrou até ficar em frente à Pide.
Mãos vazias mas com um ódio tão entranhado, durante tantos anos, que não havia temor algum que os pudesse calar ou parar. As pedras voavam contra as paredes odiadas. De repente, o som da metralha paralisou momentaneamente a multidão. Depois foram gritos, gemidos, correrias, mergulhos e rastejar pelo chão, o que o meu instinto também me impôs, e a debandada geral.
Daí, corremos muitos até ao Carmo, onde ainda se encontravam tropas, pedindo ajuda, aos gritos de: a pide está matar! a pide está a matar!
Sinto um grande orgulho por ter feito parte deste povo todo que se ofereceu destemidamente para transformar um golpe numa Revolução. Já agora, imparável até ao 25 de Novembro de 1975.
O meu dia acabou de madrugada, já 26 de Abril, no hospital de São José. Um pandemónio. Ambulâncias a chegar, médicos, enfermeiros, pessoal dos mais variados sectores da saúde, corriam de um lado para o outro para acudir à chegada de feridos e desgraçadamente de quatro mortos.
Sim, morreram quatro jovens portugueses no dia 25 de Abril de 1974. Não puderam gozar a satisfação de terem estado no local certo da História certa desse dia.
Estive no Hospital porque o pai dos meus filhos, aí se encontrava, um entre os quarenta feridos com balas da Pide, nesse fim de tarde de 25 de Abril de 1974.
Na minha modesta opinião, a História deve ater-se ao factos para assim poder avaliar, o mais honestamente possível, as forças determinantes que levam às transformações políticas e sociais.
O 25 de Abril, promovido pelo MFA, era coxo e contraditório, o que não é de espantar….era um movimento que pertencia a uma estrutura que há 13 anos combatia a justa luta dos povos coloniais. E só esta foi o acicate do golpe. Para mim está tudo dito.
Foi uma golpe de estado que felizmente se transformou numa revolução devido ao profundo e exaurido cansaço de um povo, durante anos injustiçado, amordaçado e obrigado a uma guerra fratricida, de tal modo que em vez de ficar em casa resolveu tomar a RUA para Si.