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A história da Academia de Coimbra revista por Elísio Estanque.

Recentemente editado pela conceituada Fundação Francisco Manuel dos Santos, o livro “Praxe e Tradições Académicas”, da autoria do não menos conceituado investigador universitário Elísio Estanque contém, para além da exposição de uma predeterminada tese sobre as tradições académicas, que o seu autor tem naturalmente todo o direito de defender, certas afirmações fácticas que merecem registo, por implicarem uma revisão drástica de toda a história da academia de Coimbra.

Lê-se a pp. 72-73:

“Igualmente digno de registo é a popularidade de alguns nomes ligados ao imaginário académico, EMBORA NÃO ESTUDANTES, que povoaram a cidade em épocas distintas, e o papel que desempenharam no universo das representações intelectuais e estudantis. Personagens como o AGOSTINHO ANTUNES, o PANTALEÃO, o PAD ZÉ, o CASTELÃO DE ALMEIDA, entre outros, fazem parte da história da academia de Coimbra, sendo de certo modo apropriados por essa espécie de «ACADEMIA PARALELA» que animava os ambientes boémios e contestatários de Coimbra do passado (Duarte, 2000). Algumas dessas figuras, supõe-se que depois de CONVENIENTEMENTE DOMESTICADAS, e uma vez garantido o seu LUGAR SUBALTERNO na comunidade, sendo ALIMENTADAS e até MERECEDORAS DE VESTIMENTA própria (o traje académico) tornaram-se ícones de uma cultura onde a irreverência e o excesso eram condimentados com a ATITUDE PATERNAL EM RELAÇÃO A ESSES (DÓCEIS) ANIMADORES DA ALGAZARRA ESTUDANTIL. É o caso do Taxeira (cujo verdadeiro nome é Raul dos Santos Carvalheira) …” [maiúsculas da minha responsabilidade].

Temos, assim, que, para Elísio Estanque, as quatro personagens expressamente referidas nunca foram estudantes de Coimbra, pertencendo à “academia paralela”, ao nível do “Taxeira”, que, convenientemente domesticadas, garantido o seu lugar subalterno, alimentados e vestidos pelos estudantes, eram por estes paternalmente utilizados como “bobos da corte”.

Até ler o livro de Elísio Estanque, estava eu convencido que Alberto Costa (o Pad’Zé), Agostinho Antunes (médico em Lagares da Beira), Henrique Pereira da Mota (“Pantaleão”) e Augusto Castelão de Almeida tinham sido estudantes de Coimbra, os três últimos membros da “Real República Ribatejana”.

ALBERTO COSTA (o Pad’Zé) entrou para Direito em 1895, foi colega de Afonso Lopes de Vieira, membro da Comissão das Comemorações do Centenário da Sebenta de 1899 (que Elísio Estanque diz, a p. 234, terem ocorrido 10 anos mais cedo, em 1889), expulso por dois anos da Universidade e da Cidade de Coimbra, por ter mandado à merda um lente de Filosofia (Ciências), em vésperas dos exames do seu 4.º ano, em 1899, por decisão do célebre Doutor Avelino Calisto (ou Avelisto Calino, decano de Direito, que fazia as vezes de Reitor), foi para S. Tomé, onde conheceu António José de Almeida, aí então a exercer Medicina. Concluído o curso de Direito em 1904, veio para Lisboa exercer advocacia com Alexandre Braga, pertenceu à Maçonaria (e mesmo, segundo algumas versões, à Carbonária, com actividade revolucionária e alegada intervenção na preparação do Regicídio) e foi jornalista do jornal republicano “O Mundo” (dirigido por França Borges), em cuja redacção, na Rua da Misericórdia, se terá suicidado (segundo versão não confirmada, o suicídio terá sido encenação para ocultar execução pela Carbonária). No seu funeral, discursou Bernardino Machado, lente de Coimbra, então Grão-Mestre da Maçonaria e futuro Presidente da República, que recordou (ainda não tinha lido o livro de Elísio Estanque…) os tempos de Alberto Costa (ex-Pad’Zé) como estudante de Coimbra.

HENRIQUE PEREIRA DA MOTA (“PANTALEÃO”), licenciado em Medicina com 14 valores (sem nunca ter sido estudante de Coimbra, segundo assevera Elísio Estanque), foi o promotor, ainda estudante, no âmbito do “Curso dos Cocos”, a que pertenceu (assim designado por ter instituído, em 1931/32, a praxe de os quintanistas usarem chapéus de coco, que depois evoluiu para cartola, e fumarem charuto), da venda das pastas em benefício do Asilo da Infância Desvalida do Doutor Elysio de Moura (seu professor) e, depois de formado, um verdadeiro “João Semana” na sua região natal (Porto da Lage / Tomar). Foi pai do Prof. Doutor Henrique Carmona da Mota, pediatra, do Eng. Augusto Carmona da Mota, e do meu saudoso colega da Faculdade de Direito de Coimbra e da magistratura (até ao Supremo Tribunal de Justiça) José António Carmona da Mota.

AUGUSTO CASTELÃO DE ALMEIDA, depois de formado em Direito, exerceu advocacia em Alpiarça, sendo destacada a sua intervenção, contra as forças dominantes do Estado Novo, na acção por ele intentada em 1941 em defesa dos seareiros ameaçados de expulsão, acção que obteve sucesso em 1944, poucos dias após o seu falecimento. Em reconhecimento, foi colocada, na Adega Cooperativa da Grouxa, uma placa alusiva a esse momento da luta dos camponeses pela terra.

São estes, em traços breves, os motivos por que sempre julguei, até ler o livro de Elísio Estanque, que estas figuras tinham sido estudantes de Coimbra. Afinal estava enganado. Pertenciam à “academia paralela”, ao nível do “Taxeira”.

Também fiquei a saber, graças a Elísio Estanque, p. 234 da sua obra, que os animais que puxavam os carros do desfile do “Enterro do Grau” (1905), que eu pensava que eram bois, afinal eram cavalos.