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"Uma última coisa, há um cliché quando falamos de pessoas trans, que é dizer “coitadinha, ela nasceu com o corpo errado”. Pode ser uma vantagem, algumas pessoas preconceituosas ficam comovidas com essa noção e querem ajudar. Mas o problema é que não acredito nisso. Acho que nascemos com o nosso corpo e o que é errado é o olhar que as pessoas têm sobre o nosso corpo, a interpretação que fazem do nosso corpo, que por ter um pénis é um homem, não é!
As pessoas crescem odiando o seu corpo, pensando que há algo errado com ele. Muitas vezes, não há nada de errado com o seu corpo, pode ser muito funcional, pode dar muito prazer, pode ser muito bonito, mas as pessoas não aprendem a vê-lo bonito, porque a sociedade diz sempre que vêm uma coisa que não são. As pessoas olham para mim, muitas vezes vêm uma mulher, eu poderia odiar o meu corpo por causa disso, mas em vez disso, fico muito decepcionado pelo olhar das pessoas e da sociedade (risos). Porque eu, pessoalmente, não tenho nenhum problema com o meu corpo, acho-o bastante bonito, dá-me bastante prazer. E acho triste essa pressão que sinto para modificar o meu corpo para aliviar um pouco da discriminação que eu sofro."

Não sei se consigo ter palavras para lhe responder, mas vou tentar. Como alguém que, aparentemente ao contrário de si, nasceu no corpo errado, e tem disforia de género.
É natural que consiga resistir a ‘pressões’ para modificar o seu corpo. Não tem disforia de género e não é transsexual. Claro que não compreende o que são essas coisas, porque não as experiencia. Mas podia tentar ter um pouco de empatia, em vez de supôr que a sua identidade, percurso e experiências são iguais ou semelhantes aos de um homem transsexual, e o qualificam para poder pronunciar-se sobre coisas que nunca viveu. Os homens transsexuais não sucumbem a uma mera pressão exterior para modificarem os seus corpos, por, ao contrário do Sacha, que é vivido, sábio e seguro de si mesmo, serem coisas fraquinhas e amorfas. Também não é para ficarmos ‘bonitos’ ou termos ‘muito prazer’ que fazemos a transição. Obrigada por reforçar o preconceito sexualizador e narcisístico da transição. É apenas um dos mais torpes e abjectos.
Na verdade, não me recordo da sociedade me ensinar que o meu corpo era ‘feio’ ou não me ‘dava prazer’. Todas as pressões foram contra a transição, e a ‘recompensa’ quando a iniciei foi a transfobia diária.

Infelizmente, este tipo de discurso transfóbico não é novo. Iniciou-se com algum do activismo LGB e feminista (incluíndo as TERFs) nos anos 50. Viam os conceitos de transsexualidade e identidade de género como fenómenos conformistas, uma ameaça à desconstrução dos papéis de género, e invasão dos espaços feministas pelas mulheres transsexuais. Os homens transsexuais eram ‘mulheres’ confusas que, oprimidas pela misoginia e papéis de género, tomavam a opção mais fácil para acabar com o seu disprivilégio. A solução não era fazer a transição, mas sim permanecer no género e corpo de origem, de forma a combater genuinamente toda a opressão. Seria uma ideia fantástica, não fosse o facto de ser completamente falsa e estúpida. As identidades não se escolhem, e não são expressão de uma posição política. São. Existem. Ponto. A manipulação e pressão contra-normativas são tão torpes e inúteis como as da sociedade; talvez mais graves ainda por partirem de quem devia ter mais consciência. Ver uma pessoa que se apresenta como tendo a mesma identidade que nós, a reproduzir um discurso cissexista e transfóbico é... irreal. A sério, Sacha?

“Acho que as pessoas me respeitam mais aqui, mas às vezes tenho a sensação que é porque os portugueses são muito bem educados”
“ninguém me agride, me maltrata nem verbalmente nem fisicamente”
“para mim, é bastante tranquilo”
“Temos de ter cuidado com o ativismos burguês, às vezes é fácil lá cair.”

Sem comentários.

“ Todas as organizações agora são despatologizantes , denunciam a transfobia dos média, insistem nas formas certas de nos tratar, denunciam os média que insistem na transição, sempre a transição, e no miserabilismo, o sensacionalismo, sobre como somos tristes, como é um grande sofrimento ser trans. Muitas organizações trans lutam contra isso, o que não me parece muito generalizado em Portugal. Há organizações que fazem isso, mas muitas ainda são amigas dos média e acham perfeitamente normal serem exotizados em troca de um pouco de visibilidade. Fazer um pouco de exibicionismo para agradar ao público sem por isso em causa. Não é o caso de todo o ativismo português, mas ainda existe e parece-me muito mais raro em França.”

Lamento imenso que os nossos percursos identitários e de vida sejam difíceis. Que fazer-se uma transição (no sentido original, não-apropriado da expressão) que implica intervenções clínicas sérias e irreversíveis, transição social e legal (novamente no sentido não-apropriado), não seja uma volta no parque. Que sejamos a população mais discriminada a nível mundial. Que precisemos de cuidados de saúde específicos. Mas não lamento que o Sacha ache isso incómodo para a sua imagem. Que tenha o desplante de ficar ofendido com a nossa existência e as nossas vidas.

Isto tudo enquanto, ao mesmo tempo, fala da taxa de homicídios, violência, suicídios, da vida e morte da “pobre e miserável” Gisberta, etc. etc. - e onde faz questão de realçar que a sua situação é (naturalmente) muito melhor. Não admira. Não lhe desejo as mesmas dificuldades, mas acho que talvez fosse a única forma de lhe despertar alguma empatia.

E, já agora, mostrar a dificuldade (real) de se fazer uma transição e fazer-se parte da população mais discriminada do mundo inteiro – os homens e mulheres transsexuais – é exibicionismo exótico, feito gratuitamente e só para ter atenção. Ao contrário de algo como isto, certo? http://dezanove.pt/nao-nasci-no-corpo-errado-nasci-na-803162

“o preconceito de algumas pessoas trans, que não querem que nós façamos parte da comunidade, há muito trabalho de educação para fazer.”
É natural que as pessoas transsexuais se ressintam da invasão dos seus espaços por parte de quem, não tendo experiências em comum, queira dizer-lhes quem elas são, o que precisam, e o que devem fazer. Ou até fazer-lhes alguma terapia reparativa, desconvencendo-as de fazer a transição. É preciso desfaçatez para dizer que é isso o preconceito, e não as suas noções alienadas de superioridade face às pessoas transsexuais. Há mais coisas entre o céu e a terra do que aquelas que a sua filosofia contempla, Sacha. Tem todo o direito para falar de si. Mas não de falar sobre aquilo que não vive, não experimenta, não conhece, não sabe e não é.