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Lembro-me como se fosse ontem. Ía de mão dada com a minha avó em Fátima, não longe da minha escola, o Externato das Dominicanas, mais exactamente na rua que passa à frente da Consulata, da qual não me lembro o nome. Era de Inverno, frio mas com sol. Havia por ali umas lojas de "lembranças", as primeiras de muitas, suponho, e que entre muita bugiganga, quinquilharia, santos e outros cangalhos (sem ofensa ao valoroso serviço prestado durante milénios pelo objecto) tinham dentro dum cesto de verga com outras coisas, uma locomotiva de plástico rasca, azul turquesa, com uns para-choques amarelo-flash (se essa cor existe, ou melhor, cor StabiloBoss). Um modelo foleiro e grosseiro da famosa locomotiva "Maria Fumaça" mas em versão horrível. Enfim, vi-a, puxei a mão da minha avó e disse "Quero aquela locomotiva !". Iniciou-se uma discussão em que era mais uma argumentação do lado da minha avó e uma teimosia do meu lado.
- Olha que isso não presta e é caro!
- Mas eu quero.
- Ó filho, mas olha que não vale um tostão.
- Mas eu quero !
- Tu não tens mais brinquedos ?
- Igual aquele, não !
- Olha Pedro, a avó não tem dinheiro para gastar num brinquedo daqueles.
- Mas eu quero !!!
- Bom, então está bem. A avó compra-to. (grande sorriso do meu lado) Mas, o dinheiro que vamos gastar no teu brinquedo (foi aí que o sorriso começou a desaparecer, aquele "vamos" incluiu-me na responsabilidade do gasto pronto a acontecer), não vamos gastar em comida! Depois, se tiveres fome, olhas para o teu brinquedo, está bem?
- … !?
Voltei a olhar para a locomotiva que de repente me pareceu muito menos atraente sobretudo se de facto tivesse de barriga vazia e disse:
- Eu não preciso da locomotiva, avó… eu peço ao avô para fazermos uma.
- De certeza ?
- Sim !
"Meu Deus, que violência, tratar assim um puto, não se faz, traumatiza a criança para o resto da vida, que mal tem uma criança querer um brinquedo…" é… pois é… é um pouco como um teste na escola. Este era sobre dar valor às coisas, relativizar e separar entre o essencial e o acessório. Se calhar passei-o, se calhar não, em todo o caso a lição ficou sabida. Mas agora que leio este escrito talvez tivesse sido melhor ter dado uma gargalhada ! Iria para casa com a alma leve e suave e continuaria a pensar que o mundo era tudo o que quisesse, ali, bem pertinho, mesmo à volta do meu umbigo.
Sorrisos, risos, gargalhadas, papoilas e borboletas. Só me apetece dizer "porra". Então é assim que se cria gente? A verdadeira, claro porque parece que a outra cresceu errada e errada continua, coitada. Coitado de mim que estou no grupo dos "errados". Ainda bem que há neste mundo gentes iluminadas, ou, neste caso, "iluminada", para nos virem (finalmente) acender as nossas paupérrimas candeias. Ao fim de milénios de evolução apareceu uma geração que percebeu como tudo funciona e que sabe explicar tudo o que correu mal até agora e porque é que correu mal, ou pelo menos porque não foi tão bom quanto poderia ter sido. Mas de certeza se fosse segundo a "iluminação" teria sido muito melhor.
A partir de agora já sabemos, há que gargalhar!
Da próxima vez que houver um gestor que tem como objectivo crescer a área de negócio da empresa, não percamos tempo a ver se "falhou" ou "passou", gargalhemos.
Quando o objectivo dessa empresa não for o esperado e empregados tiverem de ser despedidos, não nos lamentemos, gargalhemos.
Quando o padeiro nos pedir dinheiro pelo pão, a nós despedidos da empresa e tesos como carapaus, gargalhemos.
E mais.
Quando entrarmos em veículos de transporte e notarmos um barulho estranho, não perguntemos se foi devidamente testado, gargalhemos.
Quando vacinarmos os nossos filhos não questionemos a sua eficácia ou quem a fez, gargalhemos.
Quando pusermos a vida dos nossos filhos nas mãos dum desconhecido a quem chamam "Doutor" sem saber se é bom ou mau, gargalhemos.
Como diz a Sra.D.Catarina Martins - exijamos a gargalhada !
Quando deixarmos o mundo feliz da escola e entrarmos com um monumental sorriso na vida de adultos e olharmos para o que queríamos ter e não podermos, quando nos sintamos perdidos e mesmo abandonados, quando nos dermos finalmente conta que os exames se calhar ensinavam qualquer coisica, quanto mais não fosse a perguntar o mesmo das lições mas de maneira diferente, quando chumbarmos na vida e estivermos desesperados vamos todos dar uma grande gargalhada…
Mas… não… esperem… a minha candeia afinal acabou de se iluminar… não, afinal estava errado! A minha avó estava errada! Claro! Como podemos ser todos tão parvos? É esta senhora que está correcta! A solução é tão óbvia e aqui mesmo à frente do nariz que eu não via como ela é simples.
A solução é lutar para ter uma sociedade onde todos podem falhar porque o falhar não existe! O falhar é ser fatalista. Falhemos mas sem desistir.
Ter uma sociedade onde o indivíduo integra plenamente a massa homogénea da comunidade, onde a sociedade o porta, onde os indivíduos se entre-ajudam, onde se é feliz e onde se sabe tudo, porque é um direito do indivíduo saber tanto como o vizinho. Vai ser tão bom ! E que acontecerá aqueles que começarem a falhar demais ? Ei, tenho uma ideia, a sociedade porá à disposição um sistema de senhas, para que os não-falhados não tenham mais regalias que os falhados. E, obviamente, manterá uma contabilidade equitativa dos haveres de cada um para que todos possam ser iguais. E claro, vai de si que os cidadãos que contestarem terão de ser integrados em "centros de formação" onde aprendam a ver o "bem"… demore o tempo que demorar. Não quer dizer que falharam na compreensão das virtudes do sistema, porque, como disse, o falhar não existe, apenas que demoram mais tempo que os outros para a integrar as virtudes do sistema e, claro, precisam para isso dum bocadinho de ajuda. Para isso haverá um grupo entre a população que identificará os indivíduos com dificuldades de compreensão de forma a que estes possam ser… ehh ajudados.
E esta será uma sociedade justa onde todos seremos iguais e viveremos em harmonia.
Aí sim, verei finalmente as papoilas e as borboletas.
Aí sim, seremos todos realmente felizes.
Aí sim, gargalharei !