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Expressão orwelliana

O termo "linguagem inclusiva" é um bom exemplo de manipulação semântica ao estilo de "Nineteen Eighty-Four". A linguagem dita inclusiva não inclui, exclui. Quando usamos o masculino genérico para designar os professores e as professoras, estamos a representar um só grupo. Mas se nos sentimos na obrigação de especificar o que a economia e a lógica da língua não obrigam a que se especifique, e dizemos por sistema "os professores e as professoras" estamos a justapor dois grupos que presumimos reciprocamente exclusivos. É como se acreditássemos que por dizermos "os professores" (género masculino) quem nos ouvisse ia entender "os professores" (sexo masculino). Então especificamos "as professoras", conferindo-lhes assim precisamente o estatuto de "outro" que supostamente queremos evitar.

Isto é profundamente estúpido e estupidamente literal. Mas o que se subentende não é a estupidez do emissor, mas sim, injustificadamente, a estupidez do receptor. Dividimos o mundo em "nós", que somos inteligentes e explicamos tudo muito bem explicadinho, e "eles", que não entendem nada e precisam dessa explicação. Primeira ofensa.

A segunda ofensa é à linguagem, que é a faculdade humana de comunicar por meio da língua. A linguagem é intrinseca e inevitavelmente ambígua, mas sujeitá-la a tratos de polé para sobre-compensar esta ambiguidade não leva a nada e produz formulações desajeitadas, deselegantes, prolixas, obtusas, que ferem de forma tão violenta a sensibilidade auditiva de alguns ouvintes, entre os quais me incluo, que podem deixá-los incapazes ou sem vontade de atender à substância do discurso.

Mas a ofensa principal da "linguagem inclusiva" (que é na realidade exclusiva) é à liberdade humana, porque exige obediência a regras desnecessárias, e por conseguinte arbitrárias.