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O artigo contém demasiados erros científicos, e demasiadas afirmações tão taxativas quanto infundadas, para estar a esmiuçar tudo ponto por ponto. A autora parece acreditar que uma língua é um artefacto, ou que foi um artefacto num passado mítico em que as palavras correspondiam ao real - em que o género gramatical, por exemplo, correspondia não só ao sexo biológico, mas às representações que os nossos distantes antepassados faziam dos papéis de homens e mulheres. Temos assim que dizer "homens" para designar homens e mulheres reflecte, ou reflectiu, a subordinação destas àqueles. Seria curial perguntar se também estamos a falar de relações sociais de dominação quando dizemos "gatos" para designar gatos e gatas.

As línguas humanas são objectos naturais. Resultam de uma evolução e contêm, tal como os organismos vivos, vestígios de estádios anteriores. Têm também uma economia que lhes é própria: se a palavra "professores" serve a sua função de designar professores e professoras - independentemente de isto poder reflectir um período histórico em que quase todos os professores eram homens - a língua não vai por si própria criar mecanismos mais complexos para obter o mesmo resultado. Mesmo admitindo - e, na ausência de provas, é admitir muito - que a economia de uma língua copia fielmente estruturas sociais passadas ou presentes, declarar que um uso presente da língua perpetua um uso social passado faz tanto sentido como dizer que um fóssil de dinossauro é a mesma coisa que um dinossauro vivo.

(Provavelmente não é o género gramatical que reflecte a representação do sexo biológico, mas a representação do sexo biológico que reflecte o género gramatical. Veja-se o que acontece com certas representações antropomórficas de conceitos abstractos, como a Morte. Em português, espanhol e francês é do género feminino, e nas histórias em que entra como personagem comporta-se como uma mulher. Em alemão é do género masculino e comporta-se como um homem; como se comporta em inglês, onde é actualmente do género neutro mas já foi do masculino. Para um português, o Sol, masculino, persegue a Lua, feminina, no firmamento. Mas para um alemão "der Mond", masculino, persegue "die Sonne", feminina. Não se atribuiu o género em função do mito: criou-se o mito a partir do género.)

Nada do que se escreve neste artigo seria grave - apenas uma inocente ignorância e ingénuo simplismo em matérias de linguística, antropologia e história, somada a uma adesão acrítica a modismos conjunturais - se não viesse no contexto de uma visão identitária dos direitos humanos. E isto, sim, é grave. Pode mesmo ser monstruoso.

Para a autora, é ilegítima qualquer opinião que minimize ou desvalorize "o direito à representação linguística da identidade e o direito a uma igualdade entre mulheres e homens real e efetiva (sic)". O direito à representação linguística da identidade pressupõe um direito à identidade - no caso, à identidade fundada no sexo. E pelos vistos a representação linguística da identidade sexual é condição necessária para tornar real e efectiva a igualdade entre homens e mulheres.

Nenhuma política identitária torna efectiva, e muito menos real, a igualdade de seja quem for com seja quem for. As políticas identitárias, todas elas, o que criam é tribos: dentro da tribo todos têm direitos (e mesmo assim variáveis conforme a hierarquia); fora da tribo ninguém tem direitos nenhuns. É bem possível imaginar uma sociedade tribal que usasse o masculino genérico; mas fora desse masculino - porque fora do próprio conceito de pessoa humana - ficavam todos aqueles, de um sexo ou de outro, que não pertencessem à tribo.

Em bom rigor, todas as políticas identitárias são fascistas. Isto tanto nos casos em que o factor identificador é o sexo, como naqueles em que é a "raça", a etnia, a religião, o clube de futebol ou a nacionalidade. A fonte dos nossos direitos é a nossa humanidade comum e só a nossa humanidade comum. Não podemos, se quisermos ser entidades morais e políticas, ter outra tribo que não seja a humanidade. Se esta comunidade da condição humana se exprime, na economia de uma dada língua, pelo masculino genérico ("os homens", em português); ou pelo feminino genérico ("a criança", também em português); ou pelo neutro genérico ("das Kind", em alemão), o que interessa é que se exprime. Deitar fora esta maravilhosa capacidade que têm as línguas humanas de exprimir o máximo de sentido com a máxima elegância e o mínimo de recursos é deitar fora o bebé (masculino em português, neutro em alemão) com a água do banho.