You are here

Add new comment

Sejam quem forem os signatários formais, este documento tem a assinatura estilística do Bloco de Esquerda. Aquele "desempregadas e desempregados" não engana. O Bloco está no seu pleno direito de apelar a uma união das esquerdas, e até tem razão em fazê-lo, mas devia ser em seu próprio nome e não por interpostas pessoas.

Em todo o caso: quer o documento tenha sido redigido por dirigentes do Bloco, quer por algum ou alguns ou todos os signatários, quer pelos signatários e militantes do Bloco em colaboração, uma coisa é para mim clara: nenhuma união de esquerda é possível em torno de uma agenda pormenorizada porque é exactamente nos pormenores que estão as divergências entre as esquerdas. Cito:

«Quando são urgentes programas detalhados para responder a cada problema, notamos superficialidade e palavras gastas.»

Esta contradição é falsa. A superficialidade e as palavras gastas não são o contrário de um programa detalhado. Uma agenda pode ser detalhada sem deixar de ser superficial e gasta, e pode ser geral sem deixar de ser radical e inovadora.

A união das esquerdas nunca pode ser feita com base num programa detalhado, que demoraria anos a negociar e levaria, no caso altamente improvável de ter êxito, não a uma união mas a uma unicidade. Mas pode e deve ser feita com base num programa mínimo que represente a zona de intersecção entre os programas existentes. Este programa, e fosse mínimo e apresentado como tal ao eleitorados, permitiria obter grandes ganhos. Em primeiro lugar, seria facilmente compreensível e memorizável. Em segundo, seria irredutível: tanto as organizações participantes como os eleitores compreenderiam que não fossem contempladas cedências quanto a ele. Em terceiro, deixaria pouca margem a divergências futuras entre os participantes. "The devil is in the details"; pois se assim é, eliminem-se os detalhes.

O conteúdo de um tal programa mínimo resumir-se-ia aos seguintes pontos:

a) soberania nacional como condição da soberania popular e da democracia,
b) revogação ou denúncia unilateral dos tratados que esvaziam a soberania nacional, designadamente o Tratado Orçamental Europeu,
c) revisão dos os tratados e normativos para-constitucionais europeus tendo em vista expurgá-los do seu viés ideológico neoliberal.

Quanto aos pormenores, cada partido, movimento de cidadãos, grupo de reflexão, etc. que participasse no projecto continuaria livre de defender o seu programa particular, desde que se comprometesse a dar prioridade ao programa mínimo comum em períodos eleitorais, de modo a não criar ruído que interferisse com a comunicação da mensagem.