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Caro José Gusmão,
Vou fazer alguns comentários e no fim colocar algumas questões que gostaria que respondesse.

Começa por admitir que o governo do Syriza faz "uma concessão enorme e até arriscada" ao reconhecer e dispor-se a pagar a totalidade da divida (talvez com a excepção da pequena parte que ficaria como divida perpétua). Ao mesmo tempo qualifica esta concessão como razoável o que, quanto a mim, choca um pouco com a "enormidade" e o "risco" da mesma.

Por outro lado o José Gusmão escrevia em 26 de Janeiro:

"Sem uma restruturação da dívida que imponha perdas substanciais aos credores, incluindo os credores institucionais que detêm, de longe, a maior fatia da dívida grega, qualquer discurso sobre o fim da austeridade é conversa."

Agora admite como "razoável" o que há 12 dias qualificava como "conversa".

José Gusmão congratula-se aqui os apoios políticos à postura negocial do Siryza que se têm multiplicado, refere-se a quem? Aos governos e instituições europeias visitados durante a semana?

Se sim, creio que, em primeiro lugar, se ilude e, em segundo lugar, creio que, se esse apoio existisse, diria realmente muito (mas, negativamente) sobre o plano do Syriza. Aliás o próprio José Gusmão avisava em 26 de Janeiro:

"Defender a restruturação dívida não é achar que era uma óptima ideia se toda a gente se pusesse de acordo sobre o assunto: Merkel, Tsipras, Juncker, Draghi, etc."

Mas, Varoufakis comenta:

"A minha mensagem para os nossos amigos alemães e para todos os europeus é que não vamos forçar ninguém a aceitar um acordo, pois não estamos numa posição de confrontação."

e logo a seguir:

"Estamos perante uma situação em que governos europeus distintos têm um objetivo comum, o de chegar a um acordo que beneficie toda a gente e que minimize os custos da crise para todos os Europeus"

O governo do Syriza tem pois, infelizmente, dado sinais claros de recuo e de procura de um acordo com todos aqueles que José Gusmão cita.

O problema é que, mesmo mostrando tanta (razoabilidade?) vontade de compromisso, se o Syriza tentar cumprir o seu programa, se aumentar o salário mínimo e os outros salários, se reintegrar os funcionários públicos, se providenciar acesso à saúde e a meios de subsistência aos trabalhadores e desempregados que têm esses acessos cortados entrará inevitavelmente em choque com as instituições europeias e até, nesta época de crise, com os limites do próprio capitalismo.

Os únicos apoios que o Syriza poderá mobilizar serão so dos trabalhadores gregos e europeus incluindo os alemães.
Por isto mesmo é totalmente equivocado pôr as questões em termos nacionais e patrioteiros. Os inimigos dos trabalhadores gregos não são os alemães, mas, sim e em primeiro lugar a sua própria burguesia aliada e cúmplice da burguesia alemã e europeia.

Por isso também é um erro grave reivindicar indemnizações pela ocupação nazi.

Pergunto:

1. Independentemente da forma de uma possível reestruturação da divida, como acha que surgirão os capitais para os grandes investimentos necessários a uma retoma séria da economia grega?

1a. Se esses capitais forem públicos de onde virão sem criar ainda mais divida em algum ponto da cadeia?
1b. Se forem privados (em primeiro lugar esses capitais existem e têm liberdade de movimento, por alguma razão não estão sendo investidos; em segundo lugar o Syriza pretende aumentar os salários dos mais pobres e a carga fiscal dos mais ricos, ora isto não é exactamente a receita para atrair capitais privados) que benefícios teriam de ser dados para
os atrair?

2. Caso por algum milagre, que não antevejo, se desse uma recuperação económica forte na Grécia, com melhoria significativa das condições de vida dos trabalhadores e com a Grécia no quadro do Euro e da União Europeia, isso seria ainda uma recuperação da economia capitalista (com as necessárias vantagens para os detentores de capital).

É isto que o José Gusmão (dirigente do bloco de esquerda) defende/pretende?

Crê o José Gusmão que é possível, dentro do quadro do capitalismo e sem romper com as instituições europeias, retirar o garrote da divida do pescoço do povo grego e aumentar significativamente as condições de vida dos seus trabalhadores, jovens e reformados?

Se crê que isso é possível (as tais famosas alternativas) não se colocaria o José Gusmão como gestor do capitalismo?
Não é exactamente isto que a social-democracia pretende fazer?

Onde entrará então e para que serve alternativa socialista?