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Gosto de maneira geral do artigo, excepto naquilo que é exatamente a base do seu desenvolvimento. Não penso que o Papa Francisco ao utilizar a frase: “não se pode provocar nem insultar a fé das outras pessoas”, tenha intenção de marcar um tratamento diferenciado para críticas às religiões. Simplesmente ele é um religioso, “fé” deve ser uma das palavras e conceitos que mais utiliza.
Dir-me-ão que a liberdade de expressão é direito e que tudo e todos têm que se aguentar à bronca. Não penso assim! Paralelamente a este e a outros direitos existe o direito de se sentir ofendido, e as pessoas não se sentem ofendidas todas da mesma maneira. Existem famílias inteiras a praticar nudismo e no entanto se um despido se passeia pela rua o primeiro que se ri é o primeiro a reagir violentamente quando se apercebe que pega a filha pela mão esquerda. Isto quer dizer que a reação não é igual para todas as pessoas, nem sequer é igual para as mesmas pessoas em relação ao mesmo facto, se em condições diferentes.
A arte provoca normalmente nas pessoas, reações de admiração e prazer, mas também por vezes de crítica e é geradora de polémica. No cinema e noutras artes performativas determinados conteúdos são classificados, limitando assim o público que lhe pode aceder. Dizendo-se o cartoonismo uma forma de expressão artística, e neste caso acessível sem limitações de qualquer espécie, sem deixar de ser crítico pode muito bem ser filtrado a nível editorial. Se eu tivesse jeito para desenhar e quisesse criticar a pedofilia na igreja católica, mostrava ser mais inteligente desenhando uma figura do clero a levantar uma ponta da batina enquanto piscava o olho a um rapazinho, do que desenhando cristo e outro rapazinho numa qualquer posição sexual explícita. O Zé-Povinho de Bordalo Pinheiro não precisa de aparecer enrabado para mostrar o que a tróica e este governo nos têm feito.
Milhões de exemplares depois e muitos euros em caixa, o semanário Charlie vai continuar a fazer caricaturas polémicas e os terroristas vão continuar a ter cada vez mais apoio dos muçulmanos não jihadistas.
Quanto ao Papa vai continuar a falar de fé mas neste caso, a importância das suas palavras deve ser transferido para o verbo “insultar”.