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Caro Francisco Louçã, reconheço-lhe uma superior inteligência e conhecimento, bem como um património de acção política de grande relevância na Esquerda portuguesa. Tudo isso justifica a minha admiração e apreço. Dito isso, como cidadão esquerda, confesso que muito me desagrada a acção nociva que vem desempenhando quer no BE, quer no campo à esquerda do PS.

Vejo-o comportar-se como um guardador, disciplinador e/ou castigador das almas que pertencendo ou tendo pertencido ao BE não podem escapar à sua tutela. O senhor deveria ter-se afastado e deixado que as coisas seguissem o seu livre curso depois da sua saída das funções de coordenador do BE, mas mostra não ser capaz de o fazer. Tem o seu rebanho sempre sobre vigilância, pronto a aplicar-lhe os seus correctivos. E deixe-me que lhe diga, os seus correctivos não são meras diferenças de opinião; são comentários acintosos, num tom de inimizade e ridicularização dos adversários.

Foi assim com Rui Tavares, de quem o senhor disse na SIC com expressão carregada, ter criado "o partido de um homem só ao serviço de um só homem". E neste texto não perde o ensejo de novamente tentar atingi-lo por via do elogio a Ana Drago pelo seu abandono da Assembleia Municipal de Lisboa.

No caso em apreço, mais uma vez o senhor desqualifica as intenções dos que divergem de si: "a sua prudência é simplesmente a desistência de resolver os problemas de Portugal". Por que não poderão Ana Drago e Daniel Oliveira ter genuínas preocupações com os problemas de Portugal? Desvirtuar as intenções dos outros, imputando-lhes propósitos que de boa-fé não se podem depreender dos seus actos, sendo antes acusações que nos dão jeito para chamar a razão para o nosso lado, não é uma forma leal de debate de ideias.

Sobre as intenções de Daniel Oliveira e Ana Drago a minha discordância consigo é total. Sinceramente eu acho que os move um sentido de urgência de fazer algo diferente face à gravidade dos problemas do país.

Também não é leal adulterar o pensamento de quem criticamos para mais uma vez puxar a razão para o nosso lado. O pensamento de Daniel Oliveira é claramente deturpado no seu texto. Nenhum putativo acordo com o PS é dado como adquirido, bem pelo contrário, todo o processo que possa levar a alguma negociação consequente com o PS é apresentado como complexo, duro e difícil. Por outro lado, não faz qualquer sentido ridicularizar a proposta de renegociação do Tratado Orçamental ou das suas metas. Entre o tratado tal como existe e a sua simples abolição há diferentes graus/nuances que podem ser justamente novas metas mais consentâneas com os interesses do país. Oliveira é claro: "Quem promete proteger o Estado Social e combater o desemprego, pagar a dívida tal como está e cumprir as metas do Tratado Orçamental está a mentir às pessoas".

Onde estão os fundamentos para colocar em causa uma genuína preocupação com os problemas de Portugal? Acaso o entrincheiramento de isolacionismo e definhamento do BE, falando dos "problemas de Portugal" vai contribuir, mais do que até agora, para a solução dos mesmos?

Finalmente uma nota para dizer que o seu texto enferma de uma vício de base. Toma como adquirido que o futuro não poderá ser outra coisa que não uma reprodução do status quo actual. Muita coisa está em mudança na Europa e até a sua visão do PS quanto ao Tratado Orçamental não é exacta. António Costa tem assumido que o Tratado Orçamental é um problema para o País e a actual perspectiva oficial do PS pode mudar e para isso é necessário que se crie uma dinâmica política e social favorável a essa mudança.