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É com alguma tristeza que, pela primeira vez, leio no site do Bloco um texto com conteúdo tendencioso. No entanto, creio que como votante do Bloco e fã da referida saga me cabe a mim fornecer algumas explicações.

As Crónicas de Gelo e Fogo são uma obra literária de fantasia, mas (e é um grande "mas"), contêm uma forte influência histórica do período da Guerra das Rosas em Inglaterra no séc.XV. Aliás, basta pesquisar um bocadinho sobre esse tema para percebermos de onde George R. R. Martin retirou algumas das suas ideias. Dito isto, creio que é um pouco ridículo que se exija a representação de uma sociedade justa numa obra que vai buscar aspetos sociais e políticos de há mais de 500 anos atrás.

Quanto ao que é dito sobre a representação das mulheres neste texto, vamos por partes:

- A autora refere, em relação à personagem de Tyrion Lannister, que "não só nos é pedido que racionalizemos a escolha de Tyrion para maltratar fisicamente a sua parceira, como nos é pedido que acreditemos que ele o fez por «amor»". Esta é uma frase muito engraçada, porque parece partir do princípio que Tyrion Lannister não esteve a meras horas de ser executado por um crime que não cometeu, e cujo único depoimento realmente credível contra si pertenceu exatamente à sua "parceira". Mas há muito mais para além disso.
O próprio pai da personagem, bem como a irmã, culpam-no desde nascença pela morte da mãe, chegando ambos a referir-se a ele como um "monstro". No primeiro livro da saga, Tyrion é enviado pelo próprio pai para uma batalha em que havia claramente a intenção de que o matar (não esqueçamos que ele é um anão). No segundo, é atingido na cara por um machado que lhe arranca metade do nariz, e o atacante não pertence ao inimigo (é implícito que o atacante foi pago pela irmã). Depois do ataque, fica semanas fechado num quarto para combater a infeção e não é visitado pelo pai uma única vez. Estão a ver como o "background" das personagens é importante?
Finalmente chegando à situação referida, é irrelevante se a "parceira" alguma vez o amou, é uma questão deixada em aberto nos próprios livros, e não nos é pedido que "racionalizemos" nada, trata-se de um assassínio por vingança, o que me desperta uma questão: Porque é que a autora nunca menciona Arya Stark? É outra personagem que mata (e deixa morrer) vários homens apenas por vingança, e aliás, mata um rapazinho inocente no primeiro livro. Será por ser do sexo feminino e as vítimas serem do sexo masculino? É "só" uma incoerência...

- Avançando para uma parte que me incomoda bastante, que é a seguinte: "Além do mais, no filme o papel de Daenerys é feito por uma atriz adulta e não somos forçados (como acontece nos livros) a confrontar-nos com o facto de que um homem adulto escolheu escrever com um erotismo palpável e visível sobre os mamilos «rígidos» e «doridos» e a copiosa «humidade» vaginal de uma criança de 13 anos". - Curiosamente, o que me incomoda aqui não é o que o autor escreveu, mas o facto da autora do texto (mais uma vez) ser tendenciosa ao ponto de se "esquecer" de Jon Snow, uma personagem de 14 anos no livro, e que foi manifestamente seduzido por Ygritte, uma mulher que tem cerca de 20 anos e que a certa altura fricciona a parte traseira do seu corpo contra o pénis do rapaz, que incialmente (tal como Daenerys) também não está preparado para ter relações sexuais.
Gostava também de saber que opinião tem a pessoa que escreveu este texto (e que só se parece insurgir contra a violência em que as vítimas são mulheres) sobre os imaculados, um exército de 1000 homens cujos genitais foram mutilados e arrancados enquanto estes eram ainda crianças, e que são fruto apenas da imaginação de George R. R. Martin, sem qualquer base histórica.

Por fim, revolto-me contra uma ideia muito perigosa manifestada pela autora, quando começa a referir estatísticas sobre a violência doméstica ou refere que a série "ensina os seus espetadores a partilhar uma visão nublada", em que parece não saber distinguir ficção de realidade. Queria assim mencionar mais três coisas:

Em primeiro lugar, gostava que Sady Doyle escrevesse outro artigo em que tentasse explicar em que local do universo é que existe qualquer relação entre os espetadores da Guerra dos Tronos (ou de qualquer outra série ou filme) e a violência contra as mulheres, porque nunca ouvi falar de tal estatística. Aliás, há mais violência contra as mulheres em países onde nao passa a Guerra dos Tronos, e sabem porquê? Não ha liberdade de expressão.

Segundo, se é suposto este ser um texto feminista, falha redondamente a todos os níveis pelas razões que enumerei acima. Não é a igualdade o objetivo do feminismo? Eu considero-me uma pessoa feminista e achei que era, mas com textos tendenciosos destes...

E finalmente, queria deixar aqui claro que qualquer autor de qualquer obra (literária ou não), tem TODO o direito de escrever ou representar O QUE QUER QUE SEJA, ou não é esse o mais importante princípio da liberdade? Acho, mas secalhar é só a minha opínião, que é esse o motivo pelo qual chamamos FICÇÃO a filmes, livros séries de televisão...

Um bom resto de dia.