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A zombificação do setor bancário europeu

Os balanços dos bancos da Europa estão em más condições. O crédito malparado atinge níveis muito altos em muitas regiões da Europa. A situação é crítica. Por Alejandro Nadal
“As lições da crise dos bancos na Europa são claras. Esta atividade tão rentável e pró-cíclica não pode estar em mãos privadas”, Alejandro Nadal – Foto do Deutsche Bank
“As lições da crise dos bancos na Europa são claras. Esta atividade tão rentável e pró-cíclica não pode estar em mãos privadas”, Alejandro Nadal – Foto do Deutsche Bank

Hoje os balanços dos bancos da Europa estão em más condições. O crédito malparado que aflige o setor bancário atinge níveis muito altos em muitas regiões da Europa. Outro componente é um monumental montante de derivados cujo preço nem sequer se pode determinar. E a rentabilidade no setor continua muito castigada e ameaça os baixos níveis de capitalização. A situação é crítica.

O setor bancário em alguns países europeus está saturado e muitos bancos nem sequer operam com um modelo de negócios eficiente. Por isso nem sequer puderam passar de maneira decorosa os testes de stress (que não são muito estritos). O mais grave é o volume do crédito mal-parado, resultado em boa medida da irresponsabilidade dos bancos e da incapacidade de pagamento dos devedores, que continuam pressionados pela crise macroeconómica, pela austeridade e pelo desemprego.

Os bancos afetados estão distribuídos por toda a União Europeia. Desde o Commerzbank alemão e o holandês ING, até ao emblemático Deutsche Bank, grandes, médios e pequenos, são muitos os bancos europeus que se encontram em dificuldades por muitas razões.

O mais grave é o volume do crédito mal-parado, resultado em boa medida da irresponsabilidade dos bancos e da incapacidade de pagamento dos devedores, que continuam pressionados pela crise macroeconómica, pela austeridade e pelo desemprego

No caso do Deutsche Bank destaca-se a multa de 14 mil milhões de dólares que lhe impôs o Departamento de Justiça norte-americano pelo seu papel na venda de títulos suportados por hipotecas de má qualidade antes da eclosão da crise. A multa provocou uma queda de 42 por cento no valor das acções do Deutsche Bank. E como o seu balanço inclui uma montanha de derivados cujo preço é um enigma, não tem bons incentivos para atrair investidores.

Talvez a situação mais grave se encontre na Itália, onde o crédito malparado atinge os 17 por cento do crédito total (o seu valor real reduz-se até 22 por cento do valor nominal). Até o banco mais velho da Europa, o Banco Monte dei Paschi di Siena (fundado em 1472) se encontra numa situação muito difícil, com mais de 46 mil milhões de euros de empréstimos maus.

As dificuldades dos bancos italianos são bem conhecidas. O montante de créditos com problemas é de 360 mil milhões de euros e continua a crescer. Muitos bancos têm descontado parte do crédito malparado até 44 por cento, mas muitos analistas de mercado consideram que o valor real se aproxima mais a 25 por cento (o que reduz esses créditos à categoria de carteira incobrável).

Para o caso de muitos bancos italianos pequenos, os acionistas são pequenos investidores que verão as suas poupanças evaporar-se se o governo não os resgatar. Por isso Roma está a procurar a maneira de dar a volta às estritas regras impostas pela Comissão Europeia em Bruxelas, que impedem o emprego de recursos públicos para recapitalizar um banco com problemas. Hoje fala-se até de um confronto iminente entre Roma e Bruxelas.

Desde 2007 a União Europeia (UE) injetou quantidades astronómicas para reforçar os bancos. Essa é uma das razões por que a crise financeira se transformou tão rapidamente numa crise fiscal e depois numa crise de dívida soberana. No total, o apoio ao setor bancário na UE já derreteu uns colossais 2 biliões (milhões de milhões) de euros entre ajudas à capitalização, créditos em condições muito favoráveis e garantias. Tudo isto não só não pôde servir para reativar a economia, como nem sequer foi suficiente para estabilizar e tirar de perigo os bancos europeus. Atualmente, a tão celebrada (em determinado momento) União Bancária Europeia não deu frutos, provocou inação e converteu-se numa fonte de instabilidade.

As lições da crise dos bancos na Europa são claras. A ajuda com recursos públicos pode manter como zombies os bancos com problemas para proteger os banqueiros ricos. Mas isso não ajuda a ninguém na economia

Uma parte do problema é que o setor bancário em vários países da Europa (especialmente na Alemanha) está saturado de prestamistas, o que dificulta o acesso a economias de escala e faz com que a rentabilidade se pulverize. Mas a consolidação excessiva leva ao gigantismo e ao risco sistémico quando há ameaça de falência.

A resposta de política macroeconómica à crise na Europa agravou a situação dos bancos. Primeiro a austeridade fiscal intensificou a recessão, com as suas sequelas em matéria de desemprego. As repercussões sobre o crédito malparado dos bancos não se fizeram esperar. Depois a postura de política monetária, com taxas de juro próximas de zero e até negativas, castigou ainda mais a já atingida rentabilidade dos bancos. Claro, o Banco central europeu (BCE) nega este dano colateral, cada vez que que o assunto vem à tona. Mas o FMI considera que os bancos europeus não poderão gerar suficiente rentabilidade mesmo que a economia europeia tivesse um crescimento robusto, o que não parece nada provável nos próximos anos.

As lições da crise dos bancos na Europa são claras. A ajuda com recursos públicos pode manter como zombies os bancos com problemas para proteger os banqueiros ricos. Mas isso não ajuda a ninguém na economia. A conclusão é imediata. Esta atividade tão rentável e pró-cíclica não pode estar em mãos privadas.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em “La Jornada” a 19 de outubro de 2016. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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