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Zimbabué: repressão após revolta contra preços dos combustíveis

Aumento dos preços dos combustíveis para mais do dobro desencadeou protestos violentos no Zimbabué. Repressão pelo governo de Emmerson Mnangagwa lança sombra sobre situação do país após a queda de Robert Mugabe.
Harare, 2003. Foto de Gary Bembridge/Flickr.

Uma vaga de protestos em janeiro no Zimbabué contra o aumento dos preços de combustíveis e a resposta repressiva das autoridades marcam um novo agravamento da situação no país, após a queda de Robert Mugabe em 2017.

O Zimbabué ultrapassou há pouco tempo o longo consulado de Robert Mugabe. Presidente do país durante 37 anos, Mugabe foi deposto em novembro de 2017 num golpe interno do seu partido ZANU-PF (Zimbabwe African National Union - Popular Front), substituído interinamente pelo vice-presidente Emmerson Mnangagwa. Em julho de 2018, novas eleições confirmaram Mnangawa como presidente com 51% dos votos, mantendo o ZANU-PF maioria nas duas câmaras parlamentares embora perdendo mandatos.

Mnangagwa prometeu várias mudanças políticas visando superar a grave crise económica que marcou o período final da presidência de Mugabe e precipitou a sua queda: medidas de modernização administrativa e combate à corrupção, reabertura da economia e recuperação de investimento estrangeiro, compensações para os fazendeiros desapossados na reforma agrária de Mugabe, reaproximação aos países ocidentais.

Mas as tentativas de reequilibrar as contas públicas através várias de medidas de austeridade foram infrutíferas: no final de 2018 o país era acossado por falta de divisas, falências de várias empresas, escassez de produtos e de combustíveis.

A 12 de janeiro deste ano, o governo anunciou aumentos abruptos do preço dos combustíveis: a gasolina deveria passar de 1,37 para 3,31 dólares, o gasóleo de 1,38 para 3,11 dólares. Um aumento para mais do dobro que faria do Zimbabué o país com os combustíveis mais caros do mundo.

O mal estar foi imediato. O Zimbabwe Congress of Trade Unions, principal central sindical, convocou uma greve de 3 dias em protesto. Entre 14 e 16 de janeiro, os protestos contra os aumentos foram reprimidos com grande violência: há relatos de detenções arbitrárias, espancamentos, violações e raptos cometidos por forças policiais e militares. A 15 de janeiro o acesso da população à internet foi limitado por intervenção do governo. A Comissão de Direitos Humanos do Zimbabué criticou as autoridades por recorrem às forças militares, a quem acusou cometer tortura sistemática. O governo contabilizou 3 mortos nos tumultos. Fontes não governamentais, segundo o Guardian, falavam em pelo menos 12 mortos, dezenas de feridos, entre 700 e 1500 pessoas detidas arbitrariamente, e muitas centenas de manifestantes e oposicionistas escondidos ou em fuga. O Economist refere entre os detidos 11 deputados da oposição e os líderes das 3 maiores centrais sindicais.

O presidente Mnangagwa, ausente do país em viagem que deveria terminar no Fórum Económico Mundial de Davos, interrompeu a agenda e regressou ao país. Em declarações no Twitter, demarcou-se da violência das autoridades: “A violência e a má conduta das nossas forças de segurança são inaceitáveis e uma traição ao novo Zimbabué”, “O caos e a insubordinação não serão tolerados. A má conduta será investigada. Se necessário, vão rolar cabeças”, afirmou.

Mas o papel do presidente e as razões para a resposta particularmente violenta das autoridades não são claros. Para o Economist, a explicação poderá passar por jogos de poder entre Mnangagwa e o vice-presidente Constantino Chiwenga: é possível que Chiwenga tenha aproveitado a ausência do presidente para lhe causar embaraços políticos, mas é igualmente possível que os dois estejam a agir em concerto numa estratégia de endurecimento do governo.

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