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Zika pode provocar mais doenças neurológicas

Pacientes com Zika desenvolveram duas doenças neurológicas pós infecciosas, a síndrome de Guillain-Barré e encefalomielite disseminada aguda. A segunda foi pela primeira vez relacionada a um surto do vírus. É possível a ocorrência de outras doenças auto-imunes provocadas pelo Zika.
Células neurais (a cinzento) infetadas por Zika (a verde), foto de NIH Image Gallery/Flickr.

Um estudo brasileiro divulgado hoje e que será apresentado no encontro anual da Academia Americana de Neurologia, relaciona o vírus Zika com uma doença autoimune que ataca a mielina dos neurónios de forma semelhante à esclerose múltipla.

A mielina é a substância que, nos vertebrados, rodeia os neurónios, permitindo que a condução elétrica dos impulsos nervosos seja mais rápida. A sua destruição ou degeneração pode levar à redução, ou mesmo à falha de transmissão dos impulsos nervosos. Isso provoca sintomas muito diferentes, desde uma reduzida sensibilidade dos órgãos (como a visão), à perda de coordenação motora ou perda de controle de determinadas funções (como o controlo da bexiga).

O estudo foi feito com poucos casos e, por isso, requer mais investigação para confirmar as hipóteses, mas a principal autora da pesquisa, Maria Lúcia Brito Ferreira, médica no Hospital da Restauração, no Recife (Brasil), afirma que o trabalho demonstra que o vírus tem efeitos diferentes no cérebro humano do que o que foi descrito até ao momento.

Os investigadores seguiram um grupo de 151 pacientes com sintomas compatíveis com arbovírus (a família de vírus que inclui o Zika, a dengue ou a chikungunya) no Hospital em Recife entre dezembro de 2014 e junho de 2015. Todos foram testados e foi confirmado que tinham Zika. Seis dessas pessoas desenvolveram sintomas neurológicos de doenças autoimunes e foram-lhes feitos mais testes e exames médicos.

Destas seis pessoas, duas delas desenvolveram encefalomielite disseminada aguda (ADEM), isto é, um inchaço súbito do cérebro e espinal medula que ataca a mielina das células nervosas. Em ambos os casos houve danos na substância branca do cérebro. Num caso de ADEM, ao contrário do que sucede em pacientes com esclerose múltipla, a maioria das pessoas recupera num prazo de seis meses. Em alguns casos, pode haver uma reincidência da doença.

Os outros quatro pacientes desenvolveram síndroma de Guillain-Barré, uma doença neurológica pós infecciosa que já tinha sido relacionada com o surto de Zika de 2014 na Polinésia Francesa. Neste surto, também já se tinha começado a descrever uma complicação de fenómenos autoimunes mais elevada, mas a relação com a ADEM ainda não tinha sido estabelecida.

Este trabalho não indica que casos de ADEM possam vir a ocorrer com a mesma frequência com que se registam casos de síndroma de Guillain-Barré, mas é um aviso aos médicos de zonas com surtos de Zika, que devem ficar atentos à sua ocorrência, bem como de outras doenças auto-imunes que afetem o sistema nervoso central. O mecanismo usado pelo vírus para atuar ainda não é totalmente claro, mas a investigação que está a ser feita na área deve contribuir para o seu esclarecimento.

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