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Working Class Hero

O candidato presidencial americano Bernie Sanders fez História na corrida presidencial à Casa Branca desde o seu lançamento em abril de 2015 até agora. Texto de Rafael Boulair.
Foto Phil Roeder/Flickr

Comecemos por ser claros no que ao esqueleto ideológico do candidato diz respeito: Bernie Sanders nada tem de socialista, é antes um social-democrata que manifesta interesse pelo modelo nórdico e defende posições reformistas que durante muito tempo eram consensuais na Europa: um salário digno, um sistema de saúde e de educação públicos e um sistema de segurança social sólido e solidário.

As suas posições, contudo, são consideradas demasiado à esquerda para um país como os Estados Unidos. Deve-se-lhe o mérito de ter quebrado um gigantesco tabu ao autodenominar-se democratic socialist, defendendo que a palavra Socialismo não é uma palavra suja. Simultaneamente, virou o seu país à esquerda, fazendo acordar uma América profundamente progressista, que é o resultado da evolução demográfica recente (crescimento da população negra, latina e dos jovens – os chamados millennials – e que criou um quadro político que já não se via desde os anos 60 – na luta contra a Guerra do Vietname, pela paz e contra o racismo, tempo marcado por figuras como Martin Luther King e pelo candidato democrata pacifista George McGovern, derrotado em 1972 face ao republicano Richard Nixon.

Encontramos semelhanças e diferenças relativamente a este período. A guerra do Iraque reavivou a chama da luta contra a guerra; porém, ao contrário desses tempos volvidos, os Estados Unidos e o mundo ainda não recuperaram da crise de 2008, comparável ao crash de vinte e nove: o desemprego, a destruição de capital e as suas nefastas consequências ainda hoje se fazem sentir. Além disso, Wall Street, apesar das suas pesadas responsabilidades na eclosão da crise, não foi devidamente regulada e a desigualdade não parou de aumentar.

O aparecimento de um espaço e de um movimento progressista deve-se igualmente à inapelável farsa em que rapidamente se transformaram as promessas de mudança apregoadas por Obama em 2008. O número de pobres passou de 40 milhões para 47 milhões em oito anos. O elevado preço da crise do capitalismo foi inteiramente pago pela classe trabalhadora que, desiludida com Obama, se organizou, permitindo o nascimento de um grande movimento social – O Occupy Wall Street – que tomou forma em 2010 com a promessa de lutar contra os desmandos da finança e da banca. Tratou-se de um movimento com raízes bastante radicais, a que se juntaram partidos socialistas, organizações estudantis e largos setores da nova classe média proletarizada que é filha da crise.

A falta de organização e de perspetiva política acabou por marginalizar o movimento, mas a cólera social e a vontade de rutura e de revolta com os causadores da crise não deixou de crescer, como foram demonstrando vários sinais: a eleição da primeira vereadora socialista em Seattle em quase cem anos – Kshama Sawant – e a eleição do progressista Bill de Blasio para a câmara de Nova Iorque. Reunidas as condições objetivas para a nacionalização da luta política, faltava criar um movimento político e uma figura para o encabeçar. É justamente aí que surge Bernie Sanders, que se apresenta como um candidato anti-establishment, defensor de uma Revolução Política contra a classe dos bilionários, contra Wall Street e a indústria da guerra. Falou de um governo dos 99% contra os 1%, recuperando parte da retórica do Occupy e conseguiu galvanizar as massas descontentes, passando de uns risíveis 3% (com 60% de diferença face a Hillary Clinton) a uma situação de empate técnico nas sondagens.

Correr por dentro ou correr por fora

Sanders fez uma opção arriscada ao levar por diante uma candidatura antissistema num partido que dele faz parte, sobretudo conhecendo o histórico do Partido Democrata em encurralar candidaturas da esquerda (George McGovern, Jessie Jackson). Mas, sendo a situação social e económica muito grave que nos anos 80, Bernie fez muito melhor do que Jackson: conquistou 22 estados, sabendo nós da falta de transparência e das graves irregularidades ocorridas e denunciadas em vários estados, da Califórnia a Nova Iorque, passando pelo Arizona e pelo Illinois. Fez História ao ultrapassar os 10 milhões de votos nas primárias e, assim, tornar-se o primeiro autodenominado socialista a obter 46% dos delegados de um grande partido. Há, no entanto, quem defenda, como Jill Stein, a candidata dos verdes, que é impossível fazer a Revolução dentro de um partido contrarrevolucionário. 

Beyond Bernie

A derrota de Filadélfia era mais que previsível ao ponto do próprio candidato ter decidido apoiar Hillary antes da Convenção. Ao fazê-lo, deixou órfã e desorientada a grande maioria do seu eleitorado, profundamente desapontada pelo duelo Clinton-Trump que se impôs. Face a tão desastrosa escolha, a criação de um verdadeiro partidos dos 99% surge como tarefa primordial de todos os que se recusam a deixar morrer um movimento popular que alcançou tão importantes dimensões. Embora derrotado face ao establishment, a campanha de Sanders deixou marcas indeléveis que engrossarão o caudal das lutas trabalhistas nos Estados Unidos e pode ser a antecâmara de uma nova e definitiva vitória para a esquerda, daqui a quatro anos. Para que tenhamos a possibilidade de, mais do que mudar de presidente, mudar a vida.
 

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