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Vistos Gold: Marques Mendes sabia do esquema de favorecimentos

Antigo sócio de Miguel Macedo garantiu que o então ministro daria “cobertura política” à empresa que pretendia encaminhar feridos líbios para tratamento em Portugal. Já Marques Mendes, ex líder do PSD, foi apanhado nas escutas a referir-se ao perdão das Finanças a esta empresa investigada nos Vistos Gold.
Foto de Mário Cruz, Lusa.

Segundo avança a revista Visão, a Polícia Judiciária intercetou uma conversa telefónica entre Jaime Gomes, amigo e antigo sócio do ex-ministro Miguel Macedo, com Marques Mendes, durante a qual o ex-líder do PSD refere-se ao facto de a empresa Intelligent Life Solutions (ILS), liderada por Paulo Lalanda e Castro, patrão de José Sócrates na Octapharma, ter sido beneficiada em sede de IVA pela Autoridade Tributária.

Em causa estava um negócio de tratamento de feridos líbios em hospitais privados portugueses, que rendia à ILS perto de 50 mil euros por cada doente. Este perdão por parte das Finanças, respeitante a dois contratos de 2013 e de 2014, traduziu-se num prejuízo para o erário público de mais de 1,8 milhões de euros, e valeu a Miguel Macedo uma acusação por crimes de tráfico de influência e prevaricação. A empresa JMF – Projects & Business, que tinha como sócios Marques Mendes, Miguel Macedo, Jaime Gomes e Ana Luísa Figueiredo, filha do presidente do Instituto dos Registos e Notariado, foi contratada pela ILS para ajudar no processo de obtenção de vistos.

Em julho de 2014, quatro meses antes de o escândalo Vistos Gold vir a público, Marques Mendes telefonou a Jaime Gomes para saber novidades sobre o processo, ao que o empresário respondeu ter uma “boa” e uma “má” notícia. Se, por um lado, as Finanças tinham dado “um parecer favorável” no que respeita à questão do IVA, por outro, os feridos ainda não tinham saído da Líbia, já que andavam “aos tiros no aeroporto” de Trípoli.

Ambos concordaram que, “quanto mais feridos houver, mais oportunidades existem”, sendo que Marques Mendes salientou que só convinha era que “os gajos” não morressem, sendo que, se ficassem um pouco “tortos”, isso até daria “jeito”.

Macedo deu a negócio a necessária “cobertura política”

Jaime Gomes procurou garantir junto de Miguel Macedo e do então diretor nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Manuel Palos, que a emissão dos vistos necessários ao negócio da ILS seria facilitada. Segundo Jaime Gomes deu conta a Nélson Pereira, outro sócio da Intelligent Life Solutions, Macedo iria dar ao negócio a necessária “cobertura política”.

As pressões para que o ex ministro da Administração Interna abrisse as portas ao negócio da ILS partiram ainda do presidente da Associação Industrial do Minho (AIMinho). António Marques foi abordado por Teófilo Leite, presidente da Associação Portuguesa da Hospitalização Privada, para obter a garantia de que quem viesse fazer fisioterapia ficasse hospedado “no hotel”.

“Ele fala-me em milhões, já recebeu não sei quantos milhões”, afirmou o presidente da AIMinho durante uma conversa com Miguel Macedo que estava a ser ouvida no âmbito de outro processo que investiga suspeitas de fraude na AIMinho, uma das maiores associações empresariais do País, no que concerne a projetos cofinanciados pelo orçamento do Estado ou pela União Europeia. O então ministro confirmou que eram “muitos milhões”, referiu que “facilitavam” por ser um negócio e ajudar as empresas, alertando, contudo, que era necessário cuidado para não se meterem num “31 qualquer”, na medida em que podiam existir infiltrados naquelas zonas de conflito.

A revista Visão faz ainda referência a dois telefonemas de julho e novembro de 2014.

A 4 de julho de 2014, Paulo Lalanda e Castro procura garantias por parte de Jaime Gomes de que o negócio da Líbia iria avante. O empresário sossegou-o, afirmando que, se fosse necessário, envolveria “a cavalaria toda”.

O patrão da Octapharma deixou, por sua vez, um convite a Jaime Gomes, desafiando-o a reservar o dia 10 de setembro para uma viagem à Argélia num avião privado para visitar presidentes e ministros e angariar novos negócios. Nesta viagem participariam ainda Nélson Pereira, José Sócrates e Cunha Ribeiro, ex-responsável da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.

Já a 12 de novembro, é Jaime Gomes que telefona a Paulo Lalanda e Castro para o informar que estava num jantar com um investidor chinês interessado nos terrenos da Feira Popular. O empresário questionou o líder da Octapharma se este não podia pedir ao seu “subordinado” José Sócrates para interceder junto de António Costa, então presidente da Câmara de Lisboa, para que este o recebesse.

Lalanda e Castro respondeu que iria jantar com Costa e Sócrates mas sublinhou que quem ele conhecia muito bem é o arquiteto Manuel Salgado, vereador de urbanismo da autarquia, que é quem, de facto, mandava agora ali.

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