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Vidas suspensas pela lei de imigração

A realidade da vida de três imigrantes que se viram envolvidos nas teias da lei de imigração e não conseguem realizar as suas expetativas em Portugal.

Ninguém me diz nada”

Pedro Gomes tem 35 anos e é natural da Guiné-Bissau. Veio para Portugal há 10 anos para trabalhar na construção civil. Tinha como objetivo melhorar as suas condições de vida, algo que se afigurava muito difícil no seu país.

Pediu a renovação do título de residência em janeiro passado mas até agora não obteve qualquer resposta. Pretende que a mulher e a duas filhas venham também para o nosso país mas tal não é possível devido ao facto de não ter a sua situação regularizada. Depois de ter contornado muitos problemas como o desemprego está agora a fazer alguns trabalhos esporádicos. Pequenos trabalhos como lhe chama. Sem os papéis em ordem vai ser difícil encontrar uma situação mais estável. Perante a situação que está a viver manifesta a sua perplexidade com um encolher de ombros e uma simples frase: “não sei qual é o problema porque ninguém me diz nada”.

O processo está parado e eu não sei porquê”

Muhammad Imran Sarwar tem 31 anos é natural do Paquistão. Está em Portugal há dois anos e trabalha numa feira ambulante de diversões. Não tem título de residência mas afirma não ter sentido ainda problemas por essa razão. Manifesta no entanto a sua estupefação pelo facto de o seu processo estar parado, uma lentidão como lhe chama, que não compreende.

A partir do seu telemóvel mostra fotografias de aves com cores exóticas e também de outras espécies. No seu país trabalhou num parque de animais, uma paixão que assume e a que gostaria de continuar ligado em Portugal. Mas não pode, pelo menos para já. Muhammad Sarwar diz que se sente bem no nosso país e pensa que aqui terá mais oportunidades. Confessa que pretende trazer a sua namorada que ficou no Paquistão para se casar e constituir família. Mas tal não é ainda possível porque os atrasos motivados pela burocracia do SEF não o permitem.

A lei está sempre a mudar”

Braima Cassamá tem 48 anos e é natural da Guiné-Bissau. Transporta uma pasta com vários documentos da Segurança Social, das Finanças e do SEF. Atrapalha-se com tanto papel e exigências supreendentes para quem já reside em Portugal desde 1989. No pingue-pongue das mudanças da lei, já teve a sua situação legalizada algo que o obrigava a deslocar-se ao SEF de três em três meses para lhe colocarem um carimbo no documento. Foi assim desde 2000 até que em 2007 a legislação mudou e disseram-lhe que a partir daquela altura só podia renovar a autorização se tivesse um contrato de trabalho. Mas nessa altura Braima estava desempregado e só encontrou trabalho em 2012. Mas voltou a cair no desemprego, ficou novamente numa situação irregular e por essa razão não pode requerer o subsídio de desemprego. Atualmente vive com o irmão e precisa de resolver a sua situação porque se não o conseguir não pode voltar a trabalhar. Eis uma história com contornos dramáticos porque a sobrevivência do imigrante guineense está dependente de carimbos e papéis que alimentam uma teia legislativa que parece não ter fim.

Depoimentos recolhidos por Pedro Ferreira

 

guineense

"guineense", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/guineense [consultado em 14-10-2016].está dependente de um papel, de um carimbo, instrumentos de uma teia legislativa que parece não ter fim.Depoimentos recolhidos por Pedro Ferreira
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