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“A vergonha de Cabo Delgado é vergonha de Moçambique e do mundo todo”

O bispo Alberto Arejula, presidente da Comissão Episcopal de Justiça e Paz, deixa “um olhar crítico aos projetos de gás e petróleo” e frisa que a atuação do Governo leva a crer “que a primazia do Estado é defender os lucros e bem-estar para um pequeno punhado de gente já abastada”.
D. Alberto Vera Arejula. Foto publicada em Vatican News.

Fazendo eco da declaração dos Bispos Católicos de Moçambique, datada de 16 de abril, a Comissão Episcopal de Justiça e Paz (CEJP) de Moçambique emitiu um comunicado em que afirma que “a problemática de Cabo Delgado, tal como a Igreja tem mostrado em diversas ocasiões quando se refere a Cabo Delgado, tem vários rostos: político-militar, económico, cultural, religioso, etc”.

No documento, assinado pelo bispo de Nacala e presidente da CEJP, Dom Alberto Vera Arejula, é defendido que “cada um desses rostos é um grande problema que deve ser tratado à parte, com uma intervenção e solução próprias, mas com vista ao mesmo fim: restituir a paz e tranquilidade a Cago Delgado, restituir o direito de viver às populações”.

"Estamos totalmente inseguros quanto à nossa vida e quanto ao nosso futuro!"

Alberto Arejula lembra as palavras dos bispos na sua Declaração, no sentido de que o “estado de coisas faz crescer e consolidar a perceção de que por de trás deste conflito há interesses de vária natureza e origem, nomeadamente de certos grupos de se apoderarem da nação e dos seus recursos”.

“Vale dizer: estamos totalmente inseguros quanto à nossa vida e quanto ao nosso futuro!”, vinca o bispo de Nacala.

A CEJP alerta que “os impactos da guerra de Cabo Delgado refletem-se bastante na dignidade, qualidade de vida e ambiente de esperança em viver no local que cada moçambicano gostaria e perspetivar o futuro de si próprio e dos descendentes”. E assinala que “o modo como o Governo está a gerir a situação (ausência)” alimenta entre as populações o sentimento de que foram abandonadas pelo Estado.

Alberto Arejula mobiliza novamente as palavras dos bispos, que afirmam que “é fácil aliciar pessoas, cheias de vida e de sonhos, mas sem perspetivas e que se sentem injustiçadas e vítimas de uma cultura de corrupção, a aderirem a propostas de uma nova ordem social imposta com a violência ou a seguir ilusões de fácil enriquecimento que conduzem à ruína”.

“A vergonha de Cabo Delgado é vergonha de Moçambique e do mundo todo”, acrescenta o representante da CEJP.

"Primazia do Estado é defender os lucros e bem-estar para um pequeno punhado de gente já abastada"

Alberto Arejula destaca algumas constatações relevantes, no que respeita, nomeadamente, à “ligação lógica entre uma juventude alienada e as diferentes formas de insurgência, tais como a criminalidade, o terrorismo e o extremismo político e religioso”.

O bispo adverte também que a não resolução definitiva do conflito armado está a acentuar “o nível de pobreza e ofusca o sonho de desenvolvimento, o que cria descontentamento de revolta”. De acordo com Alberto Arejula, “isso pode ser um foco para origem de um outro conflito que dizima a espécie humana que já está a ser reduzida pelos insurgentes”.

Por outro lado, “a maior concentração na defesa do negócio de gás e petróleo em detrimento da defesa de vida de milhares de moçambicanos induz-nos a acreditar que a primazia do Estado é defender os lucros e bem-estar para um pequeno punhado de gente já abastada”, escreve o representante da CEJP.

“Sem vida numa região e sem recursos humanos locais é impossível e absurdo catapultar o desenvolvimento. Nisso, a primeira luta seria de pôr fim ao conflito armado, investir na área de social e de infraestruturas, definir estratégias para uma exploração eficaz e segura dos recursos, onde os lucros se farão sentir na melhoria das condições de vida das pessoas humanas residentes no local”, acrescenta Alberto Arejula.

Neste contexto, “uma aposta na educação dos jovens seria uma aposta estratégica”.

O bispo de Nacala deixa “um olhar crítico aos projetos de gás e petróleo”, sublinhando que “o País não está preparado para gerir a exploração sustentável e humana destas riquezas”. “Portanto, seria necessário, primeiro, se criarem condições para que o País possa explorar estes recursos de forma sustentável e integrada com todos os seus intervenientes”, continua.

"Vitória militar não seria uma resposta à complexidade da situação de Cabo Delgado”

No que respeita a uma intervenção exclusivamente militar, Alberto Arejula realça que “a vitória militar não seria uma resposta à complexidade da situação de Cabo Delgado”. Neste mesmo sentido, refere que “as experiências similares de países como Malí, Nigéria, Somália, República Centro-Africana e Congo, onde o envolvimento militar externo, concretamente da França, dos EUA e de exércitos regulares de países coligados não se conseguiu parar as guerras, devem convencer-nos de que uma alternativa diferente, fora da alternativa militar, faz-se urgente”.

Por outro lado, o presidente da CEJP questiona se é possível colher a experiência do Quénia, que “é o único país que até agora oferece uma experiência de ação militar bem-sucedida ao terminar com uma sublevação deste mesmo tipo”, sendo que, “ao que parece, os seguidores do principal cabecilha de tal movimento são os mesmos que operam no sul da Tanzânia e que têm influência no norte de Moçambique”.

Governo tem de se "fazer presente e atuante, de cumprir o seu papel"

Perante o “agudizar da crise humanitária em Cabo Delgado, uma crise que ameaça alastrar-se a outros pontos do país e da região”, não faz mais sentido “parar e não fazer nada, pois estamos implicados todos”, alerta.

A seu ver, é preciso “explorar e perceber os contornos da crise humanitária que hoje assistimos em Cabo Delgado, e salvarmos o que ainda for possível salvar”.

Em relação ao papel do Governo, Alberto Arejula lembra os “vários apelos que já se têm feito no sentido de se fazer presente e atuante, de cumprir o seu papel".

“O Governo moçambicano poderia percorrer os caminhos que abrem a esperança e que não passam em primeira mão por uma equação militar”, defende.

E o bispo de Nacala dá exemplos concretos, que passam por promover a diplomacia para melhorar a vigilância das fronteiras de Moçambique; oferecer apoio aos deslocados internos erradicando as situações de fome e subnutrição; e “conciliar sinergias entre o Conselho Islâmico de Moçambique, o Conselho Cristão de Moçambique, forças partidárias e sociedade civil para que todos estes, com a Igreja Católica, possam oferecer à população em geral e aos jovens em particular tudo o que possam precisar para que não pensem na possibilidade de filiação aos insurgentes e adesão ao terrorismo”.

É ainda preciso trabalhar afincadamente por um programa geral e global de desenvolvimento e integração social, bem como promover investigações que ajudem a perceber melhor o conflito e garantir um cerco financeiro aos fundos que alimentam os grupos armados.

Neste sentido, dizem os bispos: “apelamos para que todos contribuam para a pacificação, protegendo a população, fechando as vias de financiamento à guerra, isolando e travando indivíduos ou grupos que tiram proveito da tragédia de Cabo Delgado”.

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