You are here

Venezuela: Dançando no fio da navalha

Estreita-se o espaço para uma saída não traumática da crise integral que a Venezuela vive. O jogo já entrou no tempo suplementar. E ainda que, por agora, continue travado, o desenlace aproxima-se e será dramático, se a dinâmica da crise não for detida. Por Carlos Carcione.
Escassez na Venezuela (3 rolos de papel higiénico por pessoa) - Foto de wikimedia
Escassez na Venezuela (3 rolos de papel higiénico por pessoa) - Foto de wikimedia

Na semana passada dois factos ocorreram com horas de diferença. O primeiro: o acordo da delegação da Venezuela na OEA à proposta apresentada pela Argentina com o aval de Estados Unidos, México, Honduras, Barbados e Peru, que abre um espaço de tempo à negociação de cúpula, adiando, por agora, a aberta ingerência que significaria a promulgação da Carta Democrática.

O segundo: a reação violenta de cidadãos desesperados em pleno centro de Caracas, em busca de alimentos que foram desviados do comércio para a rede informal de distribuição do governo conhecida como CLAP, que não funciona e o pouco que faz é claramente insuficiente.

Duas fotografias de uma crise que não tem limites. Que evolui num cenário de hiperinflação, escassez aguda de remédios e alimentos e de aumento crescente da crispação social. Duas fotografias que juntas a outras imagens quotidianas, mostram o filme que leva, passo a passo, a uma crise humanitária que, apesar de não anunciada, não será menos trágica.

O acordo que o Conselho Permanente da OEA propõe e o governo venezuelano aceitou, dificilmente ajuda a solucionar a crise. Representa em qualquer caso, oxigénio momentâneo para o governo do presidente Maduro e tempo para o desenvolvimento mais em profundidade da política de ingerência dos Estados Unidos e dos seus sócios continentais como Macri. Os três pontos que este diálogo propõe às cúpulas políticas que disputam o poder e a gestão do rendimento no país, não ajudam, nem na ordem de prioridades, nem na credibilidade dos protagonistas.

À crise de abastecimento em alimentos e remédios soma-se a desagregação nos serviços públicos elementares

O sofrimento da população não preocupa nem o PSUV-Governo nem a Assembleia-MUD. Por isso o primeiro ponto do seu “diálogo” é a data da realização do referendo revogatório, o segundo a liberdade dos supostos presos políticos da direita e apenas o terceiro é a crise económica, mas esta última encarada como pressão para uma saída abertamente neoliberal.

Num jogo macabro, enquanto estas cúpulas se preparam para falar destes temas numa mesa que ainda não existe, os seus principais porta-vozes tornam a situação ainda mais tensa com declarações irresponsáveis. Aumentam o tom ameaçador do discurso à procura de culpados no outro bando e deixam desprotegido um povo que está à beira da fome e do desespero.

As imagens revoltantes de supermercados cheios de mercadorias nas urbanizações dos milionários, ou as fotos de altos cargos do governo fazendo açambarcamento de alimentos ou comprando remédios em Aruba e em dólares, apenas juntam material combustível a um fogo que já começou a atingir o centro de Caracas.

A passagem à solução democrática da crise política e contra as ameaças totalitárias e/ou de ingerência que se estão a desenvolver, deve e pode partir da cidadania

À crise de abastecimento em alimentos e remédios soma-se a desagregação nos serviços públicos elementares. Em zonas populosas do oeste de Caracas, o corte de água anuncia-se de 82 horas contínuas semanais para os que têm sorte. Entretanto, algumas urbanizações estão já há 15 dias seguidos sem água. Enquanto nos estados do interior do país, mais desprotegidos e abandonados que o distrito capital, os cortes de energia elétrica atingem em alguns casos as 8 horas diárias. A água chega muito de vez em quando e até o serviço de comunicações está em colapso.

Dezenas de protestos percorrem o país diariamente, ocultados pelos media públicos e privados, num afã de invisibilizar o estreito limite que separa a situação conflitual atual da explosão social generalizada. Isto que é o mais evidente, não pode ocultar no entanto, as limitações de tipo corralito (congelamento de depósitos) clandestino que o sistema bancário está a impor em silêncio. E menos ainda a carestia impiedosa dos poucos produtos básicos que só se conseguem à custa de prolongadas e esgotantes filas.

O cinismo do discurso das cúpulas e a sua busca de um pacto espúrio de partilha da renda e do controle do estado rentista e do seu mafioso padrão de acumulação, desenvolve-se sob o olhar cúmplice das direções sindicais nacionais e a confusão extrema do movimento popular .

São necessários três pontos para construir um acordo social realista e necessário, pôr um travão à decomposição que atravessa o país e ao sofrimento angustiante da população mais desprotegida

Por isso, a passagem à solução democrática da crise política e contra as ameaças totalitárias e/ou de ingerência que se estão a desenvolver, deve e pode partir da cidadania, que, aplicando os seus reflexos solidários e humanitários, ponha como objetivo prioritário parar a dinâmica perversa da crise.

Uma prova de que isto é possível, é a criação da Plataforma pela nulidade do Arco Mineiro. Que em tempo recorde, de maneira autónoma e deixando de lado diferencias pontuais, pôs em pé um movimento que dia a dia adquire mais força e protagonismo na defesa de bens irrecuperáveis do país, do ambiente, da soberania e da vida.

São necessários três pontos para construir um acordo social realista e necessário, pôr um travão à decomposição que atravessa o país e ao sofrimento angustiante da população mais desprotegida:

1. Declaração de emergência humanitária e pedido de solidariedade latino-americana

Não se pode continuar a esconder a realidade. A situação atual leva em via reta à crise humanitária. A declaração da emergência humanitária tem o objetivo de realizar um dramático apelo à solidariedade dos povos e governos da América Latina e às instâncias que a partir da Venezuela ajudaram a criar a UNASUR.

A solidariedade da América Latina não só é possível como é imprescindível. Países com desenvolvimento médio ou com grande produção de alimentos, como Brasil e Argentina, têm a possibilidade de ajudar solidariamente o nosso povo. E, por que não dizer, a obrigação.

Atingir o patamar básico de abastecimento em alimentos e medicamentos imprescindíveis para a subsistência é a única garantia de conseguir uma saída democrática e não sangrenta da crise política que o país vive.

2. Imposto especial de emergência para os capitais venezuelanos depositados no Exterior

É um facto reconhecido por instituições financeiras internacionais, principais porta-vozes do governo como o presidente Maduro e até porta-vozes da oposição, a existência de 300.000 milhões de dólares de venezuelanos depositados no exterior.

Para além do direito a investigar a sua legitimidade. Um imposto de emergência sobre esses capitais de uns irrisórios 10% por ano, enquanto durar a crise, contribuiria com o montante necessário para alimentar e cuidar da saúde do nosso povo.

3. Suspensão temporária dos pagamentos da Dívida Externa

Outro reconhecimento do presidente Maduro é o pagamento em pouco mais de um ano, de um total de 30.000 milhões de dólares da dívida externa. A suspensão desses pagamentos permitiria pôr em marcha a economia nacional e impulsionar a produção local.

Não se pode continuar a pagar uma dívida suspeita de ilegítima, enquanto o povo venezuelano não consegue os bens elementares para sobreviver.

Enquanto as cúpulas políticas continuam a dançar abraçadas no fio da navalha de uma crise paga pelo povo com angústia e sofrimento, o desafio é pela sensibilização, a iniciativa autónoma e solidária de organizações e personalidades para impulsionar a coordenação e ação cidadã para evitar que a situação atual degenere em desastre humanitário.

Artigo de Carlos Carcione, coordenador da Equipa de Investigação da Maré Socialista, publicado em aporrea.org. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Termos relacionados Crise na Venezuela, Internacional
Comentários (1)