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Vacinar 70% da população africana: uma meta irrealista?

A OMS reafirmou que vacinar 70% da população mundial contra a Covid-19 é "essencial para combater a Ómicron". No continente africano, profissionais de saúde questionam se os objetivos "desenhados no Norte" são adequados às realidades locais.
Foto Anna.psiaki, Wikimedia.

Muitos países da África Subsariana, como a República Democrática do Congo, Etiópia e Nigéria, estão ainda a tentar alcançar 5% das vacinas. Neste contexto, o Mediapart questionou profissionais de saúde do continente - médicos, epidemiologistas, dirigentes associativos ou responsáveis pelas políticas públicas de saúde -, sobre se a meta indicada pela OMS é realizável, e também sobre se é desejável afetar um investimento adicional de dezenas de milhares de milhões de euros para tentar vir a alcançar os 70%. Isto embora a Covid tenha feito, em comparação com outros continentes, e com exceção da África do Sul, relativamente poucas mortes.

Vários dos inquiridos criticaram os objetivos "desenhados no Norte", defendendo que eles são inadequados face às realidades locais.

“Estou a participar na campanha de vacinação [da covid-19], mas isso não me impede de dizer com franqueza: estamos a fazer muito. Acho que a meta de 70% é irrelevante para os nossos países", apontou Solange Koné, diretora da Federação Nacional de Organizações de Saúde da Costa do Marfim (Fenosci).

Muitos dos profissionais ouvidos pelo Mediapart consideram que os recursos financeiros e humanos afetos à vacinação contra a Covid-19 são desproporcionais. E que, inclusive, essa concentração de recursos afetaria negativamente a resposta a outras patologias, como a malária, tuberculose ou HIV.

“Sempre dissemos ao Ministro da Saúde: o que estamos a fazer contra a covid-19 é muito bom. Mas se a Covid não nos matar, outras doenças matar-nos-ão. Estamos a morrer de outras doenças, porque não temos mais os mesmos serviços de antes para pacientes com tuberculose, malária, cancro...”, explica Solange Koné.

A Fenosci conduziu um estudo sobre o impacto da epidemia de Covid-19 nos serviços de saúde materno-infantil da Costa do Marfim, que revela que, durante os primeiros meses da epidemia, o número de consultas em ginecologia, obstetrícia e pediatria caiu cerca de 30% nas estruturas de saúde em Abidjan, capital económica do país.

Solange Koné receia que as campanhas massivas de vacinação continuem a mobilizar recursos à custa de outras causas importantes: “Nos últimos anos, temos feito trajetórias positivas no combate à malária, tuberculose, HIV... Esses importantes resultados correm o risco de ser reduzidos se não mantivermos os níveis de vigilância, educação e fornecimento de retrovirais, de antimaláricos…", adverte.

Médicos e investigadores que trabalham na África Ocidental e Central também partilham da mesma opinião: “No Níger, todos estão focados na vacina Covid, mas entretanto é um desastre em termos de epidemia de sarampo, cólera e situação nutricional. No leste da República Democrática do Congo, quando chegaram as vacinas Covid, as autoridades começaram a falar em fechar estruturas de saúde nos finais de semana para poder vacinar enquanto, ao mesmo tempo, havia ébola, sarampo e cólera...” , avança Natalie Roberts, diretora de estudos do Centro de Reflexão sobre Ação Humanitária e Conhecimento (Crash) dos Médicos sem Fronteiras (MSF).

A representante da OMS no Níger, Blanche Anya, admite que “tem havido um impacto nos serviços de saúde” e explica que, em 2020, foi ver o Ministro da Saúde para o alertar de que era necessário começar a trabalhar novamente no combate a outras patologias, por forma a não pôr em causa os avanços já conquistados. Mas alega que, depois desses primeiros meses, as autoridades reagiram e a situação melhorou.

Para Natalie Roberts, a meta global de 70% de vacinados não é menos questionável: “Acho irreal e não faz sentido”, vinca a diretora de estudos do Crash. “Essas vacinas são muito boas, não é esse o problema. Elas são úteis contra formas graves”, continua, defendendo que é preciso priorizar os recursos, garantindo o acesso à vacinação por parte das pessoas com maior risco de desenvolver formas graves.

Yap Boum, virologista da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), advoga que “as vacinas devem estar acessíveis e disponíveis para as pessoas com maior risco de desenvolver formas graves, mas que não representam 70% da população dos países africanos. Este objetivo da OMS não é suficientemente contextualizado. É preciso que cada país determine as suas prioridades”.

“Devemos devolver o poder aos países, dizer que cabe a eles decidir os seus alvos e prioridades, e apoiá-los nessas escolhas. A lógica que prevalece para os países ricos e para os países do Norte, que foram muito afetados pela crise, com muitas mortes, não se aplica necessariamente a outros países, e em particular, não ao continente africano ”, refere Nathalie Ernoult, investigadora no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) e responsável pela defesa da campanha de MSF pelo acesso a medicamentos essenciais.

Profissionais da África Central também colocam dúvidas relativamente a esta meta: “Este objetivo não é realista dada a situação na República Democrática do Congo”, explica Dirk Shaka, médico clínico em Kinshasa.

“Parece complicado globalizar a resposta enquanto as realidades de cada país são tão diferentes”, acrescenta o médico, que teme os possíveis efeitos de uma obrigação de vacinar: “Uma obrigação pode ter efeitos muito contraproducentes na opinião pública”, funcionando como um “vetor de resistência e desconfiança".

Recusa de um "padrão duplo"

Por outro lado, alguns profissionais africanos, embora também alertem para os riscos associados ao foco excessivo na Covid, ainda acreditam que os objetivos da OMS têm virtudes.

“Não acho que devemos rever por baixo a meta de 70% porque a África é menos afetada em termos de saúde. Ser vacinado amplamente também significa reduzir a vulnerabilidade económica dos países africanos", disse Daouda Diouf, diretora da ONG Enda Santé, sediada no Senegal e ativa em 12 países da África Ocidental.

“Ser menos vacinado também significa menos movimento [de mercadorias e pessoas] e, em particular, menos turismo”, visto que os turistas tendem a evitar países com baixas taxas de vacinação por medo de serem infetados.

A ativista repudia o que considera ser um 'padrão duplo': “Se alguns especialistas acham que é bom ter 70% de vacinação, não vejo porque aceitaríamos menos para a África".

No Burkina Faso, com 333 mortes registadas e menos de 4% das pessoas totalmente vacinadas, "as pessoas não se sentem muito preocupadas", reconhece o professor Youssouphou Joseph Drabo, chefe do departamento de medicina interna do CHU Yalgado-Ouedraogo de Ouagadougou.

Ainda assim, o investigador especializado em diabetes e HIV considera que a OMS cumpre o seu papel ao estabelecer metas ambiciosas: “Lembro-me de quando o HIV estava a explodir no continente, todos viam a meta de tratar 3 milhões de pessoas até 2005 como algo inatingível. No entanto, permitiu mobilizar recursos humanos e financeiros e ajudou a desbloquear a situação", sublinha.

Blanche Anya esclarece que esta meta é mais um incentivo do que propriamente uma realidade de saúde precisa e alcançável: “Em todas as áreas da saúde pública, a OMS estabelece metas globais. É bom que existam para ter incentivos, caso contrário, vamos arrastar para baixo a cobertura global de imunização”, afirma.

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