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Utentes consideram campanha da Carris e Metro "absurda" e "provocativa"

Campanha da Carris e Metro de Lisboa, que culpa utentes por degradação e encarecimento dos transportes, encorajando-os a vigiarem-se e denunciarem-se uns aos outros, “induz à velha prática pidesca da denúncia”, avança o Movimento de Utentes do Metro.

“Abra os olhos e combata a fraude” – este é o mote da campanhalançada pela Carris e pelo Metro de Lisboa no dia 25 de fevereiro. Nos suportes de propaganda espalhados pelos serviços de ambas as empresas é deixado um alerta aos utentes: “A falta de validação pode sair-lhe caro: menos carreiras, menos comboios, maior tempo de espera, degradação dos serviços”.

A Carris e o Metropolitano de Lisboa alertam ainda os utentes para a “necessidade de todos serem detentores de um título de transporte válido, bem como para a utilização correta do sistema de bilhética, como forma de garantir a sustentabilidade do seu transporte público”, encorajando os utentes a vigiarem-se e denunciarem-se uns aos outros.

Governo “obrigou” empresas de transportes a endividarem-se

Segundo a Plataforma de Utentes da Carris, esta campanha é “absurda” porque “responsabilizar os problemas que existem de alguma utilização abusiva dos transportes públicos por parte dos utentes, nomeadamente numa situação de crise (…) é uma coisa que não se admite”.

Carlos Moura, um dos representantes desta plataforma, lembrou ainda, em declarações à agência Lusa, que o Governo “obrigou” as empresas de transporte a recorrerem ao endividamento para poderem assegurar a manutenção e aquisição de equipamento “e agora diz que essa responsabilidade é de alguns passageiros que os utilizam abusivamente”.

O facto de as empresas estarem a apelar aos utentes que “se denunciem uns aos outros” é, igualmente, motivo de crítica.

“Uma enorme provocação”

O Movimento de Utentes do Metro de Lisboa, considera, por sua vez, que a campanha é “uma enorme provocação”.

“O infeliz ‘outdoor’ responsabiliza os cidadãos que se furtam, de maneiras várias, a pagar o transporte, pela degradação do serviço e, em sintonia com o Governo, induz à velha prática pidesca da denúncia”, avança o movimento num comunicado enviado à agência Lusa.

Sublinhando que quem compra o seu bilhete para andar de metro “não pode, obviamente, concordar e apoiar os que andam de borla”, o movimento dos utentes defende que “há que distinguir os que o fazem por marginalidade e os que o fazem pela pobreza que tem aumentado assustadoramente nos últimos anos”.

Na sua página de facebook, o movimento ativista Exército de Dumbledore também tem criticado a campanha, apelando aos passageiros para fazerem boicote à utilização dos passes no metro em protesto.

Juros da dívida justificam endividamento

No Relatório preliminar do grupo técnico da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida (IAC): “Conhecer a Dívida para sair das armadilhas”, que analisa os resultados da Carris, STCP, Metropolitano de Lisboa, Metropolitano do Porto, Transtejo/Soflusa, REFER e CP, no período contido entre 2002 e 2011, o pagamento de juros da dívida é identificado como o principal motivo para o aumento constante do endividamento destas empresas.

“Concluímos que o crescimento da dívida das empresas de transportes públicos de 8 mil milhões em 2002 para 20,5 mil milhões de euros em 2011 se deve em um terço ao pagamento de juros aos credores”, refere a IAC, que sublinha que, "desde 2006, os encargos financeiros destas empresas ultrapassam o resultado negativo das restantes atividades".

No final de 2011, estas empresas tinham uma dívida de 20.507,9 milhões de euros (12% do PIB), crescendo a um ritmo anual de 1,4 mil milhões de euros.

Nesse mesmo ano, os juros da dívida equivaliam a 83,86% dos prejuízos das empresas de transportes públicos. Os restantes 16,14% foram atribuídos aos resultados da atividade operacional das empresas.

“O peso dos juros da dívida nas contas das empresas tem vindo a aumentar e assim continuará”, garante a IAC.

Empresas de transportes públicos são instrumentos de desorçamentação

No relatório, é frisado que “as empresas de transportes públicos têm sido utilizadas pelos sucessivos governos como instrumentos de desorçamentação”.

“No total, vemos que foram investidos pela REFER, Metro de Lisboa e Metro do Porto, empresas detentoras de infraestruturas, 16.430,8 milhões de euros em infraestruturas de longa duração, dos quais apenas 5.573,7 milhões de euros foram cobertos pelo Estado, ficando a taxa de cobertura dos investimentos pelo Estado nos 35%”, lê-se no documento.

“Ou seja, há 10.857,1 milhões de euros que acrescem ao passivo das empresas públicas de transportes que se devem à construção de infraestruturas a pedido do Estado, mas que não foram pagas pelo acionista Estado”, acrescenta o grupo técnico que elaborou o relatório.

Encargos financeiros equivalem a 189% da despesa com salários

O governo tem seguido, tal como refere a IAC, uma estratégia de redução de custos e de aumento das receitas, mediante, nomeadamente, a redução do número de trabalhadores, que caiu 38% nos últimos dez anos, o equivalente a 8.752 pessoas.

Ironicamente, muitos desses trabalhadores pertencem à área da fiscalização, aquela que o governo deveria privilegiar, dado o seu empenho em combater a fraude.

Convém ainda enfatizar que os encargos financeiros equivalem a 189% da despesa com salários.

Redução de passageiros deve-se a políticas de austeridade

Nos últimos dez anos, as empresas de transportes públicos perderam 17% dos seus passageiros. Esta realidade deve-se ao aumento das tarifas praticadas, acima da inflação, à deterioração dos serviços prestados à população e à diminuição do rendimento disponível das famílias, resultante da imposição de drásticas medidas de austeridade, que passam pelo corte de salários, pensões e prestações sociais, pelo aumento do custo de vida e pelo agravamento fiscal.

Esta perda de passageiros reflete-se, inevitavelmente, numa perda de receitas.

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