Uruguai: ministro da Defesa demitido por encobrir crime da ditadura

03 de April 2019 - 21:59

Um ex-oficial do exército confessou que, durante a ditadura militar, lançou o corpo de um oposicionista ao rio. A confissão feita em tribunal militar há um ano não teve consequências. Agora, o presidente do país demitiu o ministro da Defesa, o chefe do Exército e outros militares que pertenciam ao tribunal.

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Roberto Gomensoro. Foto wikimedia commons

José Nino Gavazzo tinha reconhecido o ano passado perante o Tribunal de Honra do Exército que em 1973 lançou o corpo de Roberto Gomensoro, guerrilheiro dos Tupamaro, ao rio. Gavazzo foi um dos torturadores da ditadura militar no Uruguai e é responsável por 28 homicídios. Não reconheceu na ocasião ter sido ele a assassinar Gomensoro. Porém, no mesmo julgamento um outro militar, Jorge Silveira, acusou-o de ter sido também o autor deste e de outros assassinatos para além daqueles pelos quais já tinha sido processado.

Esta sua confissão só foi agora revelada pelo jornal uruguaio El Observador. O que traz uma nova luz à decisão do tribunal que concluíra que os seus atos “não representaram uma afronta à honra” do Exército. E, pior, esta decisão foi homologada pelo poder político. Assim, a assinatura do próprio presidente da República, Tabaré Vázquez, consta das atas finais deste tribunal.

O presidente do Uruguai reagiu dizendo que não tinha conhecimento da confissão e lançou as culpas da omissão para o Ministro da Defesa, Jorge Menéndez, e para o vice-ministro, Daniel Montiel. Foram ambos demitidos esta segunda-feira, junto com outras figuras da elite militar que faziam parte do Tribunal de Honra: o chefe do Exército, José González, e os generais Gustavo Fajardo e Alfredo Erramún.

Tabaré Vázquez, o sucessor de José Mujica na chefia de Estado, foi eleito com o apoio da coligação de esquerda, a Frente Ampla, e este não é o primeiro caso em que choca com as cúpulas militares. Aliás, o chefe do exército agora demitido, tinha substituído há bem pouco tempo Guido Ríos demitido por criticar decisões da justiça contra militares culpados de violações dos direitos humanos.

O Ministério Público do país abriu uma investigação ao caso.

Roberto Gomensoro, conhecido como Tito, desapareceu a 12 de março de 1973 aos 24 anos. Era estudante e professor assistente de Agronomia, dirigente da Federação de Estudantes Universitários uruguaios. Acusado de pertencer ao Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, foi detido pelas forças militares. O seu corpo será encontrado mais tarde atado com cabos e pedras e com a cabeça separada. Tinha sido espancado, castrado em vida, mutilado em várias partes do corpo e deixado a sangrar.