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“Unidos Podemos tem de ter a coragem de dizer: sim, queremos e podemos governar"

O esquerda.net entrevistou Manuel Garí, economista do Podemos, sobre o acordo com a Esquerda Unida e as eleições. Garí defendeu que "a coligação Unidos Podemos tem de se apresentar como candidato a presidir o governo" e tem de ter "a coragem de dizer “sim, queremos governar, podemos governar, vamos fazê-lo de outra maneira e vamos enfrentar todos os riscos que isso inclui”.
Manuel Garí.

Depois de nas eleições de 20 de dezembro nenhum partido ter conseguido formar governo, o Podemos criou uma coligação eleitoral com a Esquerda Unida para as eleições de 26 de junho. As últimas sondagens dão ao Unidos Podemos, 24,4%, colocando-o diretamente atrás do PP, que está à frente com 29,8% dos votos. O PSOE fica-se pelos 20,4% e o Ciudadanos não chega aos 15%. O esquerda.net entrevistou Manuel Garí, economista do Podemos e parte do conselho de redação do Viento Sur, sobre o acordo com a Esquerda Unida e as eleições.

Como surgiu o acordo entre o Podemos e a Esquerda Unida?

Depois do desencontro eleitoral, não foi possível a unidade eleitoral a 20 de dezembro entre a Esquerda Unida e o Podemos. Um grupo de pessoas, artistas, académicos, etc, lançaram então um manifesto exigindo a unidade eleitoral de ambas as organizações.

Não digo que esse manifesto tenha sido a causa, mas foi o detonador de um processo de aproximação e de conversações entre ambas as organizações. Em parte, por necessidade, em parte, porque havia um setor amplíssimo do eleitorado e da militância de ambas as organizações que exigiu que se pusessem de acordo porque senão, era impossível alcançar o Partido Popular (PP). Porque o objetivo não é ultrapassar o Partido Socialista (PSOE), é ultrapassar o PP. 

Havia um setor amplíssimo do eleitorado e da militância do Podemos e da Esquerda Unida que exigiu que se pusessem de acordo porque senão, era impossível alcançar o Partido Popular (PP). Porque o objetivo não é ultrapassar o Partido Socialista (PSOE), é ultrapassar o PP. 

Isso criou um clima que permite conversações nas quais há um debate programático e um debate sobre o peso de cada organização nas listas eleitorais. Como sempre, este tema é muito controverso, mas penso que se chegou a uma fórmula em que a Esquerda Unida vai ter, enquanto força minoritária, reconhecimento suficiente tanto no parlamento como no senado, pelos lugares que ocupa nas listas. 

Por outro lado, o Podemos reconhece a Esquerda Unida enquanto força necessária e também fez, na minha opinião, a autocrítica no que diz respeito a posições que tinha tido antes, na sua relação com a Esquerda Unida. 

O resultado, em termos de opinião pública, é que ambas as formações políticas vão crescer e, porque se aproveitam melhor os votos, ambas obterão melhores resultados em termos de mandatos. Atualmente, a última sondagem dá ao Unidos Podemos ou Unidas Podemos (há uma campanha importante para que se utilize também o nome de Unidas Podemos) um avanço suficiente para que tenha mais mandatos, provavelmente mais mandatos que o PSOE e a aproximar-se muito do PP. 

Quais são os principais pontos do programa eleitoral? 

O novo programa é o denominador comum a que chegaram ambas organizações, é aquilo a que se conseguiu chegar em muito poucos dias. Foi preciso apresentar logo as listas e há 52 circunscrições eleitorais, multiplicadas por duas eleições (uma ao parlamento e outra ao senado), o debate em ambas formações foi muito complexo. O programa em que acordaram é um programa não conflitivo, ou seja, tem alguns problemas, além das suas virtudes, e vou assinalar alguns deles. Por exemplo, é um programa suficientemente feminista e suficientemente ecologista, embora pudesse ser melhorado em ambos os campos. 

O novo programa é o denominador comum a que chegaram ambas organizações, aquilo a que se conseguiu chegar em muito poucos dias. Foi preciso apresentar logo as listas e há 52 circunscrições eleitorais, multiplicadas por duas eleições, o debate em ambas formações foi muito complexo. O programa em que acordaram é um programa não conflitivo, ou seja, tem alguns problemas, além das suas virtudes.

Em relação à União Europeia, é verdade que exprime um descontentamento com o modelo do seu funcionamento e o euro, mas desenvolve muito pouco quais seriam as alternativas, tanto em relação ao euro como em relação a outro modelo de construção da União Europeia. É crítico e pouco construtivo, diria eu nesse terreno. E as poucas propostas que faz são muito genéricas, do tipo de “uma conferência que situe o problema da dívida”, “um conferência que situe o problema do déficit ou o plano de estabilidade”, mas o que vai defender a conferência? Supõe-se, claro, que vai defender um postura menos austeritária. 

O problema mais importante, na minha opinião, é que coloca mal a questão da dívida. Não se coloca seriamente um modelo de reestruturação concreto. Fala de dívida, fala de reestruturação, mas fala pouco da dívida e pouco de reestruturação, demasiado sucintamente. Esse vai ser o nó górdio imediato, assim que se forme o governo, tanto se se formar um governo de esquerda, como se se formar um governo de “grande coligação” [do PSOE com o PP]. Se se formar um governo de “grande coligação”, porque vamos ter de estabelecer uma política sistemática de oposição. Se se formar um governo de esquerda, porque vai ser a primeira linha de ataque. 

O programa do Unidos Podemos centra-se mais na questão do déficit, em parte com a esperança, tal como já vimos em Varoufakis e em Tsipras, que alguns bons negociadores podem atrasar os prazos e pôr-se em dia em termos do déficit fiscal. Mas a questão não é um problema de boa negociação, é um problema das medidas vais tomar no caso de agressões da troika e, em particular, por parte do Banco Central e da Comissão Europeia. Esse Plano B não está claro no programa e creio que é um dos seus calcanhares de Aquiles. 

Por último, o programa social, de habitação, sobre a necessidade de um novo modelo de relações laborais, o aumento dos salários, etc, está correto. Podemos pensar que lhe faltam ou sobram coisas, mas globalmente está bom.

As sondagens apontam para uma vitória do Unidos Podemos sobre o PSOE, num cenário em que não há maioria absoluta, mas vence o PP. Se assim for, como se comportarão Unidos Podemos e o PSOE?

A primeira grande questão é que nestas sondagens há um nível de abstenção muito grande. Todos os peritos dizem que a abstenção irá castigar fundamentalmente a esquerda, a lealdade dos votantes de direita é maior para 26 de junho. 

Um das primeira tarefas, penso que seja mobilizar o eleitorado, mas para o fazer, tem de haver novas motivações, novas esperanças em relação ao que se ofereceu a 20 de dezembro [últimas eleições legislativas, a 20 de dezembro de 2015, em que nenhum partido conseguiu formar governo]. E acho que esse é o objetivo fundamental da campanha, que as pessoas não vejam o Unidos Podemos como os de sempre, com as mesmas caras e exatamente as mesmas propostas. É preciso encontrar dois ou três temas que interessem, que mobilizem. 

A segunda questão é a mais importante na minha opinião, é que o movimento social está na expetativa. Há uma espécie de atentismo eleitoral, à espera do que vai acontecer. Claro, isso não favorece a esquerda e não favorece Unidas Podemos, porque a coligação bebe, é filha e produto das mobilizações.

Agora, é possível que a situação de Unidas Podemos não só cumpra as perspetivas que há agora, mas que as melhore. Pode acontecer, porque é o fator novo, introduzimos o fator da nova esperança. É o que nos diferencia de 20 de dezembro, em todo o espectro eleitoral das quatro grandes ofertas.

A coligação Unidos Podemos tem de se apresentar como candidato a presidir o governo. Tem de ter, perante o povo espanhol, a arrogância ou a coragem de dizer “sim, queremos governar, podemos governar, vamos fazê-lo de outra maneira e vamos enfrentar todos os riscos que isso inclui”.

No caso do Unidos Podemos formar governo, ou tentar formar governo, creio que o PSOE tem um grande problema. O PSOE está em crise há muito tempo, está débil, com muitas diferenças internas, as suas bases eleitorais estão a fugir em direção ao Podemos de forma crescente, e tem pouca base nos votantes jovens. O seu eleitorado consiste fundamentalmente de votantes idosos, que são muitos porque o país envelheceu muito, realmente é um dos piores momentos que já vi do PSOE, mas o partido não está morto. 

Há uma vinculação do PSOE ao regime de 78, à Constituição de 1978, que faz com que tenha interesse de Estado na manutenção do status quo, e já nem falo do sistema capitalista. Além disso, tem uma conceção sobre a União Europeia muito diferente da do Podemos, e, com todas as suas ambiguidades, muito diferente da da coligação Unidas Podemos e muito próxima, apesar de tudo, à do PP. Ou seja, nos grandes temas, o PSOE está de acordo com o PP, no plano de estabilidade, Maastricht, etc. Pode ter uma visão mais social, mas também não foi impedimento para o apoio da política anti humanitária de imigração, ou de refugiados. Estamos perante um PSOE que tem mais em comum, em termo de programa, com a direita, apesar de dividir bases sociais e eleitorais comuns com a Unidas Podemos. 

O mais provável é que se crie uma pressão muito forte de parte das grandes multinacionais e empresas espanholas, do grande capital dos grande meios de comunicação, que, aliás, já começaram as suas campanhas em favor de uma grande coligação. Prefiro não apostar que vai haver uma grande coligação porque seria renunciar a batalha, mas o risco está aí e há que o dizer claramente. 

A alternativa é complicada, mas acho que Unidas Podemos tem de se apresentar como candidato a presidir o governo. Tem de ter, perante o povo espanhol, a arrogância ou a coragem de dizer “sim, queremos governar, podemos governar, vamos fazê-lo de outra maneira e vamos enfrentar todos os riscos que isso inclui”.

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