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Unidade da primeira infância do Hospital da Estefânia tem lista de espera pela primeira vez

Pela primeira vez, em 33 anos, esta unidade tem um tempo de espera de três meses para consulta de bebés e crianças. O pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva afirma: “O que nós estamos a assistir na primeira infância é uma coisa que não pode acontecer”.
Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar de Lisboa Central, foto de Por Juntas - Obra do próprio, Domínio público, https://commons.wikimedia.org
Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar de Lisboa Central, foto de Por Juntas - Obra do próprio, Domínio público, https://commons.wikimedia.org

Em entrevista à agência Lusa, o diretor da Especialidade de Pedopsiquiatria do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC), Pedro Caldeira da Silva, declarou:

“O que nós estamos a assistir na primeira infância é uma coisa que não pode acontecer, é termos bebés, crianças pequenas à espera porque não temos mais meios para dar resposta. Isto é gravíssimo, mais vale não fazer nada”, afirma o pedopsiquiatra.

Pedro Caldeira da Silva, que criou a “consulta dos bebés irritáveis” e a “consulta dos bebés silenciosos”, para apoiar as famílias e promover o diagnóstico precoce na saúde mental, salienta: “Ao longo de 33 anos, gabámo-nos com muita honra de não ter lista de espera, mas desde o verão de 2021, temos três meses de lista de espera”, porque “há bastante mais procura, há uma grande sensibilidade e não há profissionais”.

O pedopsiquiatra refere que uma situação semelhante se passa noutros serviços e exemplifica: “Com todos os colegas que falo as listas de espera estão entre dois e três meses, alguns casos três ou quatro meses e em alguns casos mais”.

Pedro Caldeira da Silva diz que no primeiro confinamento houve uma “diminuição drástica” da procura de serviços, mas, sobretudo a partir do verão de 2021, a situação alterou-se, havendo “um aumento de casos de ansiedade e depressão nos mais velhos e um aumento muito grande da procura por suspeita de casos de perturbação do espectro do autismo nos muito pequeninos".

Muito, muito desfalcados”

Pedro Caldeira da Silva aponta que esta situação “verificou-se não só no nosso serviço como no conjunto de serviços com quem eu tenho falado" e sublinha que os serviços de saúde estão “muito, muito desfalcados”, sobretudo de técnicos, terapeutas e psicólogos.

O pedopsiquiatra diz que médicos e enfermeiros/as vão “havendo sempre”, apesar de “sempre em carência” e critica: "os técnicos, terapeutas, psicólogos, isso ninguém contrata porque pela lógica de financiamento do Serviço Nacional de Saúde esses não dão dinheiro nenhum aos hospitais”.

Efeito perverso”

O pedopsiquiatra alerta para o “efeito perverso” de se chamar “muito a atenção” para a saúde mental infantil.

“É preciso ter muito cuidado porque este efeito de aumentar a sensibilidade e depois não haver resposta é completamente perverso, é muito perigoso”, avisa e alerta para os efeitos de se falar muito do aumento de depressão e ansiedade nos jovens, pois faz subir os casos.

“É como se fosse uma licença para adoecer, para manifestar os seus próprios sentimentos”, explica, comparando a situação com o suicídio, em que se verifica um aumento dos casos quando uma pessoa famosa se suicida.

O parente pobre da saúde mental”

Pedro Caldeira da Silva lamenta que a saúde mental infantil e juvenil seja “o parente pobre da saúde mental” e defende que tem de haver autonmia da saúde mental infantil. “Se se quer falar da saúde mental infantil a sério tem que haver autonomia da saúde mental infantil”, frisa.

Pedro Caldeira da Silva diz que “este modo que temos de viver sob a asa da psiquiatria de adultos não nos beneficia nada, só nos prejudica e ficamos com os restos, dos restos” e salienta “não podemos continuar assim a comer as migalhas ou a achar que são os psiquiatras de adultos que nos vão dar peso específico porque nós somos muito poucos. Isto tem que acabar”.

A concluir, sublinha que a pedopsiquiatria é “uma especialidade autónoma, independente, com metodologias, diagnósticos e intervenções próprias e que tem, ou teria, uma responsabilidade social fundamental na prevenção e na promoção de um crescimento saudável e, portanto, na diminuição das doenças na idade adulta”.

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