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Uma velha ideia nova: uma moeda para substituir as moedas, o bitcoin

Se já ouviu falar do bitcoin, então já sabe tudo. A promessa de uma nova moeda criada pelos próprios utilizadores, sem banco central, parece um manifesto libertário e entusiasma os fanáticos do mercado. Artigo publicado no blogue Inflexão.

Parece que tem o melhor de todos os mundos: o seu valor pode crescer depressa, e os investidores chineses acotovelam-se à porta; não reconhece nenhuma autoridade, e todos participam na formação do programa de software encriptado em chave aberta, num modelo que mobiliza mais capacidade computacional do que a resultaria da combinação dos quinhentos computadores mais rápidos do mundo. Os pagamentos fazem-se sem custos. O que é que quer mais?

Ainda por cima, o valor da moeda pode subir rapidamente. Em janeiro de 2013 era de 15 dólares por bitcoin, no final do ano ultrapassou os 1000. Jogadores de casino, especuladores, ladrões, amantes do lucro rápido, simples navegantes da internet, gente com dívidas, a todos o bitcoin promete o melhor uso do dinheiro.

E parece a sério: a Alemanha já reconheceu esta moeda como unidade de conta, o ex-governador da Reserva Federal dos EUA, Ben Bernanke, elogiou-a, a China entusiasma-se com ela.

A coisa começou em 2008, quando um tal Satoshi Nakamoto, que ninguém conhece, criou o sistema. Não será ele quem nos esclarecerá sobre o que pretendia, porque desapareceu de cena em 2010. Mas fixou as regras: haverá um lento crescimento do total anual de bitcoins, até atingir o valor máximo perpétuo de 21 milhões de moedas. Assim, se tudo correr bem, a moeda continuará a valorizar-se e os preços em bitcoins tenderão a descer (o que é uma desvantagem).

Ora, se isto permite uma bolha especulativa com lucros rápidos, desde que a moeda continue a ser aceite em pagamentos efetivos, o sistema coloca no entanto alguns problemas graves. O primeiro é que, apesar das proteções (para o usar, o utilizador tem de ter no seu computador 11 gigas de instruções que constituem a cadeia de acesso à moeda), este sistema é vulnerável: há pouco, desapareceu uma empresa chinesa, a GBL, que tinha 4,1 milhões de dólares de depósitos em bitcoins. Mas o segundo problema é que falta o banco central, para ter a responsabilidade e para poder intervir quanto é necessário. Por tudo isso, a moeda serve agora para especular, pelo menos enquanto durar a bolha, mas dificilmente servirá como meio de pagamento ou mesmo como unidade de conta, visto que o seu valor cambial é tão volátil. Assim sendo, também não serve para reserva de valor: um dia a casa vem abaixo.

O que parece uma ideia simpática e século XXI torna-se por isso um pesadelo, sem defesas e sem responsabilidade.

Poderemos ter uma nova moeda ou um novo sistema monetário no futuro? Talvez. Será ele baseado na internet? Pode ser. Desde que tenha uma autoridade que responda por ele, porque o bem público que é o sistema monetário não pode nem ser privatizado nem ser desaparecer na poeira dos bits.

 


Artigo publicado em http://inflexaoblog.blogspot.pt/2014/02/uma-velha-ideia-nova-uma-moeda-para.html#more

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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