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Uma noite em Bashiqa

O Estado Islâmico foi corrido da cidade. Ficou a destruição. Desolação absoluta. Não há gaz nem electridade, a população abandonou a cidade. Por José Manuel Rosendo, publicado no blogue meu Mundo, minha Aldeia.

Às seis da tarde tenho de interromper o trabalho. O Comandante chama para o jantar e não é possível tentar retardar com um “já vou” ou “são só dois minutos”. Estou no posto de comando Peshmerga de Bashiqa. Acaba por ser um regresso porque estive por aqui em Outubro do ano passado.

A mesa não chega para todos. É comer e andar, para dar o lugar a quem espera. Cada um tem direito a um tabuleiro com arroz de tomate, pão, rodelas de tomate e de pepino e há uns pratos com ovos estrelados. Cada um tira o que lhe está destinado. Depois há chá, quente e muito doce.

O jantar cedo está relacionado com o dia duro e com a noite que cai muito cedo. Fecham-se as cancelas e os portões. Depois do jantar os mais velhos e de posto mais elevado juntam-se para dois dedos de conversa. Ouve-se o som de uma televisão algures neste posto de comando que parece ter ocupado um centro de saúde ou algo parecido. Pelo menos há material médico e de enfermagem. As conversas são suaves.

Os Peshmerga conseguem aliar a experiência de guerrilha à disciplina de uma força militar tradicional. Tudo parece mal organizado, mas tudo funciona.

O Estado Islâmico foi corrido da cidade. Ficou a destruição. Desolação absoluta. Não há gaz nem electridade, a população abandonou a cidade. Talvez metade das casas estejam destruídas, muitas outras danificadas. Ruas esburacadas. Minas assinaladas com bandeiras vermelhas, explosivos à beira da estrada. De vez em quando o ronco de um avião. De vez em quando o som abafado de uma explosão, ao longe. É a guerra. A lua está grande e amarela. Estou cansado. Hoje não dá para mais.

Iraque - Bashiqa, 15 de Novembro de 2016

José Manuel Rosendo

Publicado no blogue meu Mundo, minha Aldeia.

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