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Uma gota de sangue

Foram precisos mais de 40 anos para eu voltar a recordar esse momento e dessa vez com toda a nitidez. Até o sabor a sangue me veio à boca. Uma gota de sangue no meio da escuridão e do silêncio! Tinha 16 anos acabados de fazer no Verão. Por António Cândido Franco.
Foto da ficha de António Cândido Franco na PIDE. Tinha 16 anos.
Foto da ficha de António Cândido Franco na PIDE. Tinha 16 anos.

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Uma gota de sangue

Fui a preso ao princípio da tarde de 14 de Outubro de 1972, numa das ruas do Bairro de Santos, quando me dirigia em grupo para o cemitério da Ajuda, no funeral do estudante José António Ribeiro dos Santos, assassinado a tiro pela polícia política dois dias antes. Ficámos encurralados numa rua fechada, com a PSP a avançar de ambos os lados. Para nos refugiarmos entrámos num prédio. Num patamar da escada, uma senhora idosa, que parecia viver sozinha, abriu-nos a porta. A casa era minúscula – um cubículo com o quarto e a cozinha ao fundo.

Três agentes subiram atrás de nós. No meio do grupo, alguém disse – «Tenho de me esconder. Estou com pena suspensa e se me apanham mandam-me para a guerra.» A senhora não se afligiu. Pegou no rapaz e meteu-o no guarda-fato de pinho do quarto, disfarçando-o com as roupas. A polícia bateu duro e com pressa. A dona da casa perguntou quem batia e só após a resposta abriu. Nós estávamos à mercê, em grupo, expostos no minúsculo vão da entrada. Deram-nos ordem de saída e quando passei o umbral da porta lembrei-me do tipo que estava arrumado entre as roupas, no guarda-fato. A polícia nada percebera. Num grupo de meia dúzia como o nosso, um a menos passava. Iluminou-se-me o rosto. Sorri. Admirável sentimento humano que em tais momentos se cria!

Meteram-nos num velho furgão prisional e fomos despejados no governo civil de Lisboa. Fomos encaminhados para um buraco escuro, sem luz natural ou eléctrica, com um grande estrado de madeira carcomida e lustrosa, que depressa percebi que servia para nos sentarmos e nos deitarmos. A única luz que nos chegava era a do corredor, um livor acinzentado e bolorento que se coava pelas grades de ferro da porta. Ao lado esquerdo da entrada, num canto, estava um ralo, que servia para urinar e cagar, e ao lado um balde de zinco com uma torneira por cima. Além de escura, a sala era infecta. Um odor castigado, velho de muitas décadas, a urina, a vómito e a desinfectante, pairava no ar. Nas horas seguintes foi chegando gente, muita gente – tudo gente laçada na concentração da tarde e no que se seguira. Ao princípio da noite éramos uma pequena multidão, que se acotovelava, quase sem espaço.

Meteram-nos de novo num furgão prisional e fomos para Caxias. Aí reuniram-nos numa grande sala, em círculo. Éramos cerca de 20 ou 30 jovens. No meio estavam dois homens novos, trajados à civil, bem barbeados, cabelo cortado, que falavam alto, estalavam os dedos, barafustavam, davam ordens. Percebia-se que estavam habituados a comandar homens e a ser obedecidos. Outros dois, também trajados à civil, guardavam a porta. Um rapaz macilento, de óculos de massa preta, grenha espessa e comprida, berrou de repente com fúria: «assassinos, assassinos!» Ninguém piou. Ficámos todos em silêncio, debaixo da alta voltagem das lâmpadas eléctricas. Lá fora a noite mais escura do mundo metia pavor. Os dois homens deitaram mão ao rapaz e puxaram-no para o meio do círculo. Cada vez mais raivoso, ele continuava a gritar «assassinos». Com uma rasteira, estatelou-se desamparado com as costas no chão. Pisaram-no, pontapearam-no, insultaram-no. Sem óculos, ele continuou a berrar até que se calou, estendido no chão, com a cara ensanguentada. Ao lado tinha os óculos espezinhados. Ninguém mexia um cabelo. Tudo estava suspenso daquele corpo inanimado. Do outro lado da janela a noite pareceu-me ainda mais pavorosa.

Fui levado através dum corredor metálico para uma cela. Estava escuro mas divisei dum lado um beliche e do outro uma mesa presa na parede com dois bancos. Ao fundo uma porta que dava para uma sanita e um lavatório e uma janela com grades que dava para a escuridão. Abeirei-me da janela. Só via escuridão, camadas e camadas de escuro, que se repercutiam até ao infinito. Nunca me apercebera assim da realidade da escuridão. Nunca vira um negro tão negro. O mesmo para o silêncio – um silêncio aterrador num casarão que me parecia imenso e que não tinha um único barulho. Assim passei a noite. Encostado na cama, não sabia onde estava, não sabia para onde ia, não sabia o que me esperava.

De madrugada um toque seco no metal da porta despertou-me. Pelo postigo, entrou um braço com uma marmita de alumínio. Pão e café. O mesmo ao almoço – pão, prato e sopa. Entretanto a luz do dia permitiu-me explorar melhor a cela – um rectângulo onde se podiam dar 10 passos por três. Tentei perceber o que havia no exterior e para surpresa minha mesmo à luz do dia a impressão de escuro não se desvaneceu. Nada se via a não ser a escuridão. Eu devia estar nas caves do edifício, ou no rés-do-chão, um rés-do-chão sombrio, e por isso abaixo do nível do solo. Só via a terra barrenta e escura, a terra de Outubro, que não se diferenciava das camadas espessas da escuridão da noite.

Só via a terra barrenta e escura, a terra de Outubro, que não se diferenciava das camadas espessas da escuridão da noite.

Depois de almoço, a porta da cela abriu-se e um homem jovem foi empurrado para dentro. Quando me viu, sobressaltou-se – mas eu animei-me com a companhia. Perguntei-lhe se também fora preso no funeral do Ribeiro Santos. Olhou desconfiado para mim e disse-me que nada tinha a ver com política. Estava empregado e os seus tempos livres eram passados no Moulin Rouge e noutros cafés da Avenida João XXI e da Avenida de Roma. Tinha sido preso de madrugada, no Terreiro do Paço, por engano. Sentou-se e disse-me que preferia ficar com a cama de baixo. Evitou depois falar comigo e sempre que o fez foi para me afirmar que nada tinha a ver com política e que tudo o queria era conviver com uns rapazes e umas raparigas que gostavam de discos e de dançar. Regressou assim o silêncio e a escuridão, de dia e de noite, com o meu companheiro de cela sempre fechado em si e estirado na cama, de olhos cerrados.

Nessa tarde alguém me veio buscar. Revisitei o corredor de metal e fui metido numa sala onde me cortaram rente o cabelo e me fizeram a ficha prisional. Passaram-se talvez dois ou três dias. Comecei a perder a noção do tempo. Acordava a meio da noite e não percebia onde estava e o que fazia ali. Dava-me apenas conta do silêncio e da escuridão que me rodeava. Procurava captar um barulho mas nada ouvia. O meu companheiro era a imobilidade em pessoa. Sempre de olhos fechados e quieto na cama. Custava-me a diferenciar o dia da noite. As únicas referências concretas que me situavam eram as horas das refeições em que um braço entrava na cela para depositar e recolher uma marmita. O resto era sempre igual. Nada pode ser tão destabilizador como a monotonia e o fechamento num espaço minúsculo.

Por fim vieram-me buscar. Desta vez encontrei-me na presença dos dois homens que nos haviam recebido na noite de sábado. Estavam sentados à mesa e com um lugar entre eles e que me era destinado. Sentei-me, obedecendo à indicação de um deles. A primeira frase que ouvi foi: – «Ouve lá, então tu acabas de sair do Colégio Militar… e já estás esquecido do que lá te ensinaram?» Mal estas palavras estavam a acabar, um deles puxou de trás um bofetão que me acertou em cheio na boca. Levei a língua aos lábios, engoli saliva espessa, salgada e com sabor a sangue. Era verdade. Eu acabara de sair nesse final de ano lectivo do Colégio Militar. Mal sabiam porém aqueles dois que entre os alunos mais velhos e até entre os oficiais que prestavam serviço no Colégio se lia Juan Clemente Zamora e Che Guevara. Quem disser que o 25 de Abril foi feito por razões corporativas de carreira, mente!

Regressei à cela depois dum demorado interrogatório. Queriam nomes. Quem me passara a notícia da concentração? Com quem fora? Quem eram os meus amigos? Naquela escuridão inventei como pude uma história qualquer, com muitos nomes inventados. No dia seguinte, foi o meu companheiro de cela que foi levado. Passou lá a tarde e só regressou ao princípio da noite. Repetia sempre a mesma história, desta vez aos soluços: «Não tenho nada a ver com política.» E fechou-se de novo no mesmo mutismo, estirado na cama, de olhos fechados, que só abria para comer, ainda assim sentado nos lençóis.

Não demorei a ser libertado. Ao todo passei sete dias em Caxias – mas que me pareceram sem fim. Foi a semana mais longa da minha vida – a mais escura e a mais esquecida. Foram precisos mais de 40 anos para eu voltar a recordar esse momento e dessa vez com toda a nitidez. Até o sabor a sangue me veio à boca. Uma gota de sangue no meio da escuridão e do silêncio! Em 2013 fui à Torre Tombo conhecer o processo político de Agostinho da Silva, sobre quem andava a escrever uma biografia. Quase sem dar por isso dei com a minha ficha. Fiquei estupefacto a olhar para a fotografia que lá estava. Não me reconheci. Não era eu por certo – embora tivesse o mesmo nome. Era um miúdo imberbe, uma criança que acabara há pouco de largar calção e berlinde. Tinha 16 anos acabados de fazer no Verão.

Dedico esta memória do cárcere aos presos anarco-sindicalistas, que morreram no Tarrafal e passaram longos anos nas masmorras da ditadura e cuja memória não tem sido lembrada nem honrada como merece. E ainda aos meus colegas do sexto ano do Liceu Gil Vicente, que então frequentava, especialmente o Rui Martinho, o Jaime Pinho, o Jorge Martins e o Fernando Costa.

António Cândido Franco

11 Maio de 2020

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