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Uma Casa Branca socialista?

Em Wall Street, nos grandes meios de comunicação e, evidentemente, na cúpula política dos Estados Unidos, acenderam-se os alarmes devido ao crescente apoio à campanha do senador Bernie Sanders, o socialista democrático que inesperadamente empatou com Hillary Clinton nas primárias de Iowa e venceu em New Hampshire. Por David Brooks, La Jornada
Bernie Sanders tem o apoio esmagador dos jovens. Foto de Michael Vadon
Bernie Sanders tem o apoio esmagador dos jovens. Foto de Michael Vadon

“Os Estados Unidos estão preparados para um presidente socialista?”: este era o principal título da edição dos EUA de The Guardian este fim de semana. Ataques e gritos de representantes e assessores do establishment, políticos nacionais de ambos partidos, comentadores tidos como muito sofisticados e das páginas editoriais do Washington Post e de outros jornais só serviram para comprovar que o socialista se está a tornar numa ameaça real para eles. Talvez o mais revelador, nesse sentido, tenha sido que um dos generais mais poderosos de Wall Street considere o surgimento deste socialista como um momento perigoso na história do país.

Ainda que o La Jornada tenha informado desde o início acerca do pré-candidato presidencial democrata Bernie Sanders, que se identifica como socialista democrático, e do seu crescente impacto no processo eleitoral dos EUA, e de termos recordado que o socialismo não é um bicho estranho nem alheio à história deste país, ainda é difícil digerir que algo assim esteja a ocorrer no país mais poderoso e campeão histórico, até histérico, na luta contra o socialismo no mundo.

Ainda é difícil digerir que algo assim esteja a ocorrer no país mais poderoso e campeão histórico, até histérico, na luta contra o socialismo no mundo.

Não é menos difícil para os proclamados especialistas institucionais da realidade dos EUA aqui. Desde há meses que afirmam que um aspirante presidencial socialista nos Estados Unidos não tem probabilidades de chegar nem perto da Casa Branca. Mas dia após dia continuam a surpreender-se, sobretudo a rainha do Partido Democrata Hillary Clinton, a sua equipa de profissionais e os seus circuitos tão extensos dentro do poder. Nenhum destes o previu e muito menos se preparou para esta conjuntura, que simplesmente não cabia nos seus planos.

A cada dia assustam-se mais. Assessores da campanha de Clinton intensificam os seus esforços para etiquetar Sanders como "radical" e portanto "inelegível", e aliados já começam a ter tons macartistas, alimentando o debate de que o senador é mais parecido a um comunista, e que as suas ideias estão fora do aceitável para este país.

Sanders é o que em qualquer outro país seria um social-democrata e não um socialista marxista, apesar de gostar de convocar uma "revolução política" para que o povo recupere a democracia que está agora nas mãos da "classe milionária e multimilionária" e de Wall Street que "controla a vida económica e política deste país”. Assinala que partilha uma ideologia do tipo de Franklin D. Roosevelt, e o seu modelo são os países escandinavos e o Canadá.

Mas os que cada vez mais se assustam com ele procuram atacá-lo à moda antiga, como nos tempos da Guerra Fria, ao vinculá-lo, na imaginação popular, ao antigo bloco socialista. E cada vez que o fazem, os seus simpatizantes multiplicam-se, sobretudo entre os jovens que estão esmagadoramente a seu favor (ganhou 84 por cento do voto jovem em Iowa; nas sondagens antes das primárias em New Hampshire, 87 por cento dos jovens diziam que iriam votar nele, contra só 13 por cento em Clinton).

Vale sublinhar que este fenómeno não se pode reduzir a um indivíduo como Sanders, mas sim que é a manifestação de uma corrente política potencialmente poderosa dentro deste país, que primeiro se expressou em lutas recentes, desde o Ocuppy Wall Street ao Black Lives Matter e aos Dreamers, e antes nos movimentos altermundistas.

Este fenómeno não se pode reduzir a um indivíduo como Sanders, é a manifestação de uma corrente política, potencialmente poderosa, que primeiro se expressou em lutas recentes, como o Ocuppy Wall Street. 

Lloyd Blankfein, o executivo em chefe do Goldman Sachs, em comentários num programa de televisão de CNBC, na semana passada, disse que o fenómeno de Sanders tem o "potencial de ser um momento perigoso". Lamentou que aparentemente o pré-candidato não deseje fazer "concessões" a Wall Street, e tanto ele quanto as suas entrevistadores da CNBC ironizaram os seus simpatizantes, convidando-os a ir para Cuba se tanto gostam do socialismo. Nunca reconheceu que a ira dos simpatizantes de Sanders provém do que ele e os seus amigos fizeram na fraude financeira maior da história, que destruiu milhões de empregos, atingiu mais de 4 milhões de lares e levou à intensificação da concentração da riqueza, e do poder neste país.

"Já basta" (Enough is enough) é o slogan com que culminam os discursos de Sanders ao falar sobre a extrema desigualdade de rendimentos e de riqueza no país, e como o 1% se apoderou de tudo, incluído o processo político dos Estados Unidos.

É esta mensagem que gera um apoio cada vez mais amplo, pelo menos uma nova sondagem nacional regista que a diferença entre ele e Clinton a nível nacional reduziu-se de mais de 30 pontos há uns meses, a só dois hoje em dia (ainda que seja só uma, e a média de todas as sondagens continue a mostrar Clinton com vantagem de 14 pontos, ainda assim bem mais reduzida que no início, quando a diferença era de quase 40 pontos).

E Sanders fez tudo isto a partir da base, com a máquina do partido e a cúpula política e económica contra si, com o apoio de mais de um milhão de doadores individuais, mais um crescente exército de jovens que apoia o pré-candidato mais velho (74 anos).

Diante da grande surpresa dos guardiões da velha ordem, furiosos diante deste desafio, fica claro que, ganhe ou não o socialista, algo está a mudar na política dos EUA.

Não se sabe se conseguirá instalar uma presidência socialista na Casa Branca, ou se é algo talvez ainda mais amplo: o início de uma rebelião popular diante do modelo neoliberal imposto nos Estados Unidos durante os últimos 30 anos.

Publicado no La Jornada

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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