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Um terço das escolas do 3º ciclo segregam alunos de origem imigrante

Um estudo que será divulgado na próxima quinta-feira aponta que existem concelhos e escolas onde a regra passa por segregar alunos imigrantes ou cujo pai e/ou mãe tenham naturalidade estrangeira. A concentração destes alunos numa mesma turma acaba por vir a perpetuar desigualdades.
Foto de Paulete Matos.

As conclusões são do estudo “Inclusão ou discriminação? Da análise dos resultados escolares às estratégias para o sucesso dos alunos com origem imigrante”, desenvolvido por uma equipa constituída pelos Professores Doutores Sílvia de Almeida (CICS.NOVA) e Luís Catela Nunes (Nova SBE) e promovido pelo Associação EPIS – Empresários Pela Inclusão Social.

No documento, citado pelo jornal Expresso, é analisada a distribuição dos alunos de escolas do 3º ciclo (7º ao 9º) em cujo registo escolar consta a indicação de naturalidade estrangeira para calcular o índice de segregação por concelho e por escola.

No que respeita à distribuição de alunos de origem imigrante entre escolas de um mesmo concelho, os investigadores concluíram que, em 23% dos 93 concelhos em análise, existem valores “elevados de segregação”. Esta realidade é registada com particular incidência na Região Metropolitana de Lisboa. Contudo, o mesmo acontece em zonas dispersas pelo país, como Fafe, Silves, Castelo Branco ou Santiago do Cacém.

No que concerne à segregação por escola, os investigadores assinalam que, num universo de 404 estabelecimentos de ensino, um terço apresentava turmas com sobrerrepresentação de outras naturalidades. Mais uma vez, o fenómeno é mais frequente na região metropolitana de Lisboa.

“Esta concentração de alunos não nativos na mesma turma não é fruto do acaso ou da organização territorial, mas de decisões tomadas a nível de escola. Este estudo não vai à procura das razões por trás destas práticas, mas constata uma realidade que existe em alguns locais e que deve ser combatida pois é contrária à inclusão. Ainda por cima, a sua resolução não custa dinheiro, depende de organização e liderança da escola”, frisa Diogo Simões Pereira, diretor-geral da EPIS.

Já o investigador Luís Catela destaca que, “olhando para os dados desta investigação, mas também de um estudo anterior que revelou que a maior segregação dentro das escolas ocorria por via do desempenho escolar e não tanto pelo rendimento ou naturalidade, o que parece acontecer nestas escolas é que alunos com mais dificuldades são colocados ao lado de outros com iguais problemas, perpetuando a segregação”.

O estudo põe em evidência as diferenças de resultados escolares entre alunos de origem imigrante comparativamente com os restantes. Numa escala de 0 a 100, os alunos naturais de PALOP têm, em média, menos 20 pontos no exame de Matemática do 9º ano e menos 6 a Português. Já os alunos naturais do Brasil, registam notas inferiores em 16 e 4 pontos, respetivamente. Os investigadores procederam ainda à comparação dos resultados de alunos nativos e não nativos com as mesmas condições socioeconómicas. Neste caso, as diferenças são menos expressivas, mas continuam a existir.

Foi ainda sujeito a análise o percurso escolar ao longo de 11 anos de um grupo de 98 mil alunos que entraram no 1º ano em 2006/07. As conclusões são claras: estudantes de naturalidade brasileira e dos PALOP apresentam taxas inferiores de sucesso.

“Muitos alunos com origem imigrante não alteram os seus resultados, agravam nalguns casos, pelo que podemos concluir que a escola não está a ser inclusiva para estes jovens que precisavam de outras estratégias pedagógicas para a sua recuperação”, defende a investigadora da FCSH e coordenadora do estudo Sílvia Almeida.

No 3º ciclo, 15% dos alunos têm origem imigrante. No ano letivo 2016/17 eram 41.611, a maioria nascidos em Portugal. Destes, apenas 35% dos alunos naturais dos PALOP (que entraram no sistema educativo em 2016/17) chegaram ao 10º ano sem retenções. Conforme sublinha o Expresso, o valor é de 47% para o grupo dos naturais do Brasil e 65% para alunos de naturalidade portuguesa. Se 50% dos alunos de naturalidade portuguesa têm positiva no exame de Matemática do 9º ano, menos 20% dos naturais dos PALOP obtêm idêntico resultado.

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