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Um em cada três professores está “exausto” e “desiludido”

O estudo “As Preocupações e as Motivações dos Professores Portugueses” destaca que 31% dos profissionais não estão motivados para ensinar e que 64% dos docentes considera que a educação em Portugal se deteriorou na última década.
Foto de Paulete Matos.

No estudo “As Preocupações e as Motivações dos Professores Portugueses”, desenvolvido pela Fundação Manuel Leão a partir de um inquérito respondido por mais de 2900 profissionais de escolas públicas e privadas, 32,3% dos docentes afirmam-se “exaustos” e “desiludidos”.

O inquérito, lançado em maio, junho e julho em 130 escolas ou agrupamentos de todos os níveis de ensino não superior, assinala ainda que, segundo 91% dos docentes, o prestígio da profissão diminuiu devido à informação veiculada pela comunicação social. 85% dos inquiridos considera que o Ministério não valoriza o trabalho dos professores. O mesmo acontece com a sociedade em geral.

76% dos inquiridos refere que aumentou o controlo sobre o seu trabalho e 80% diz que perdeu, nos últimos anos, autonomia e poder de decisão.

No inquérito coordenado por Joaquim Azevedo, ex-secretário de Estado do Ensino e membro do Conselho Nacional de Educação, 98,8% dos inquiridos afirma que o volume de trabalho aumentou e 87% assinala que diminui o tempo e as condições para refletir sobre as práticas de ensino. 94,3% considera que a exigência da prestação pública de contas aumentou.

Ainda que a esmagadora maioria (92%) dos inquiridos tenha escolhido a profissão por razões vocacionais, o estudo destaca que 31% dos professores não estão motivados para ensinar: 13,5% gostariam de aposentar-se antecipadamente, se possível; 8,9% preferiam trabalhar noutra atividade não docente e 8,1% disseram que só continuam a dar aulas por “não ter outra alternativa”.

“Estamos a falar de 40 mil profissionais que, por uma razão ou outra, sentem esse mal-estar, que é muito alargado. Isto é grave porque a nossa expectativa quando colocamos um filho na escola é que tenham ali profissionais competentes, mas também motivados e disponíveis. Não estava à espera destes valores, que envolvem tantos docentes”, alerta Joaquim Azevedo nas conclusões do estudo.

De acordo com os resultados obtidos, o que causa mais insatisfação aos professores é a falta de reconhecimento profissional (57%), a indisciplina na sala de aula (52%) e a extensão dos programas (30%).

60% dos inquiridos assinala que os alunos também “estão mais desmotivados”. 74% dos professores sentem-se insatisfeitos com os pais por “não se preocuparem com a educação dos filhos”, enquanto 64% considera que a educação em Portugal se deteriorou na última década.

Mediante o notório desinvestimento na Escola Pública a que assistimos nos últimos anos, os professores do ensino privado têm uma relação mais positiva com o trabalho do que os professores do ensino público, estando também menos exaustos e desiludidos. A diferença é de quase 15 pontos percentuais.

No inquérito, foram os professores com mais de 10 anos de serviço aqueles que acusaram maior cansaço e desilusão.

No comentário final aos dados do inquérito, Joaquim Azevedo sublinha o envelhecimento do corpo docente e acrescenta outros fatores de desgaste acrescido, entre os quais os cortes nos vencimentos, o congelamento das carreiras, o aumento da idade da reforma, do número de alunos por turma e do número de horas letivas.

“Nunca houve, desde o 25 de Abril, qualquer momento em que os professores tivessem sido alvo preferencial de políticas governamentais, com medidas articuladas e profundas de dignificação e valorização pública da sua atividade profissional. Isto apesar de muitos reconhecerem que os professores são um elemento chave da evolução da sociedade portuguesa, mais ainda quando a escolaridade obrigatória passou a ter 12 anos de duração. Este facto traduz, a meu ver, um evidente desinteresse por parte da elite dirigente, com o futuro do país e com a qualidade na educação da sua população”, sublinha.

Joaquim Azevedo assinala que “devemos procurar ir um pouco mais fundo na análise destes resultados, que se repetem ao longo dos anos, evidenciando uma degradação crescente das condições em que se está a processar o exercício profissional dos professores”. 

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