Ucrânia: vitória de comediante numas eleições que não são para rir

01 de April 2019 - 18:16

Num país a viver uma guerra de baixa intensidade com a potência vizinha, e no meio de acusações generalizadas de corrupção, o protagonista de uma série cómica ganhou a primeira volta das eleições presidenciais. O atual presidente tem três semanas para tentar uma reviravolta improvável.

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Foto de wikicommons/ Ярослав Бурдовицин

Volodymyr Zelenskiy é estreante nas lides eleitorais. O ator de 41 anos é protagonista de uma série cómica chamada “Servidor do povo”, que conta a história de um professor que se torna presidente depois de um vídeo em que atacava a corrupção do sistema se tornar viral. Da representação televisiva para a política, Zelenskiy quis parecer-se ao seu personagem e conseguiu capitalizar a sua popularidade. Na primeira volta das eleições presidenciais, realizadas este domingo, venceu destacado com cerca de 30%.

Não é de estranhar, pois, que a corrupção seja o principal foco deste candidato. Da sua plataforma eleitoral destaca-se a proposta de banir perpetuamente de cargos público quem seja condenado por esta razão. Outro ponto importante é o cessar-fogo e a abertura de negociações diretas com a Rússia para tentar acabar com o conflito no leste do país que, desde 2014, causou cerca de 13 mil vítimas.

As eleições tiveram um gosto doce-amargo para o atual presidente e magnata dos chocolates Petro Poroshenko, que teve apenas 16% mas que, dentro de três semanas, tem ainda a possibilidade de recuperar a distância que o separa da reeleição. Ainda assim, a passagem à segunda volta por pequena margem permite-lhe pelo menos adiar uma derrota. Poroshenko, de 53 anos, optou por um tom de “modéstia”, declarando que percebeu “criticamente e com sobriedade o sinal que a sociedade transmitiu”, jurando “trabalho sério para corrigir erros” e insistindo nas promessas de derrotar os rebeldes pró-russos e de recuperar pela força a Crimeia.

Ainda que melhore a sua performance, não se espera que o candidato do lema exército, língua, fé” consiga apagar de um momento para o outro a imagem de corrupção que lhe é associada: viu responsáveis próximos de si envolvidos num esquema de contrabando de armas russas, vendidas ao exército por quatro vezes o seu valor de mercado.

A sua campanha tem seguido a linha de fazer passar o seu principal rival por incompetente — portanto, incapaz de lidar com Putin — e também por envolvê-lo na teia dos interesses dominantes,  acusando-o de ser um testa-de-ferro de Igor Kolomoysky, outro dos magnatas que disputam o poder no país. Kolomoysky vive em Israel e é dono do canal que passa a série do candidato favorito. Poroshenko queixa-se que, com esta candidatura, Kolomoysky se tenta vingar do facto do atual presidente ter nacionalizado o seu banco em 2016.

A grande perdedora parece ser a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko que com 13% fica excluída da segunda volta. Tymoshenko, de 58 anos, deve a sua fortuna ao gás, e a sua queda e prisão à assinatura de um contrato público no setor que beneficiava a Rússia. Ao colocar uma redução da tarifa do gás entre as suas principais propostas, quis jogar mais uma vez a cartada-gás, para além das propostas sociais.

A “princesa do gás” reclama, contudo, que ficou em segundo lugar no voto popular, contestando os resultados eleitorais.

Ainda antes dos resultados terem sido anunciados, já havia queixas de compra de votos. Segundo a Associated Press, a polícia ucraniana recebeu mais de 2100 queixas no dia da votação, a somar-se a centenas nos dias anteriores. Fraudes, votos duplicados, subornos e roubo de boletins de voto são as acusações. Só que Tymoshenko é tanto acusadora como acusada. As acusações de fraude, secundadas pelo ministro do Interior Arsen Avakov, que tinha prometido uma investigação aos subornos, estavam segundo este divididas em 60% contra Poroshenko, o resto contra Tymoshenko. Contudo, a Comissão Central Eleitoral negou que tenham existido “violações sistemáticas” da lei eleitoral nas eleições do passado domingo.

Longe da possibilidade de eleição ficaram os candidatos pró-russos, Iouri Boïko (ex-vice-primeiro-Ministro) e Aleksandr Vilkul, ambos pertencentes ao antigo “Partido das Regiões”.