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Ucrânia: que vitória?

Cerca de 80 mortos na praça Maidan, tornados mártires do povo inteiro revoltado, fizeram abalar uma parte importante do aparelho político e policial do presidente Ianukovich, que se declararam “do lado do povo”. Trata-se de uma saída para a crise? Por Catherine Samary
A partição do país não está excluída num futuro muito afastado das aspirações populares. Foto de Mstyslav Chernov/Unframe/http://www.unframe.com/

O parlamento votou sexta-feira 21 de fevereiro o regresso à Constituição de 2004, contra a evolução presidencialista do regime, depois decidiu a libertação da opositora liberal Iulia Timochenko, presa há dois anos. Denunciando um “golpe de Estado”, Victor Ianukovich abandonou Kiev e teria sido impedido de fugir para a Rússia pelos guarda-fronteiras, no seu próprio bastião do Donetsk. Os deputados declararam a sua incapacidade de exercer o poder.

O novo presidente do parlamento (próximo de Iulia Timochenko) Oleksandr Turtchinov, assumiu legalmente as funções de presidente interino, enquanto não se realizarem as eleições marcadas para 25 de maio. Um governo “de união nacional” será nomeado em breve.

Trata-se do fim da crise aberta em novembro?

Regresso de uma crise multifacetada

Apesar de desencadeada pela recusa do presidente ucraniano de assinar um acordo de associação com a União Europeia, a crise esteve longe de opor dois campos ou programas claramente delimitados – “pró-russo” contra “pró-UE”. De um lado, os interesses económicos por trás das etiquetas dos partidos estão misturados: o Partido das Regiões (do presidente) tinha feito campanha pelo acordo com a UE – e a “liberal” Iulia Timotchenko, nativa de Dniepropetrovsk, no leste russófono, é respeitada por Putin e não deixou de fazer negócios com a Rússia.

Além disso, o país – apesar das suas divisões regionais linguísticas, religiosas, históricas e políticas reais – é globalmente apegado às suas conquistas democráticas e à sua independência nacional, incluindo na parte russófona. Enfim, ao contrário da “Revolução Laranja” de 2004, a mobilização popular desafia hoje todos os partidos políticos parlamentares. Ora a mobilização cresceu em dezembro de 2013 em reação à violência da Berkut (forças de segurança), exprimindo a inquietação em relação ao regime cada vez mais presidencialista onde reina uma “Família” oligárquica, e o temor que uma aproximação com Moscovo não agravasse ainda mais estes rasgos.

Ilustração de uma situação confusa: a aprovação das leis repressivas em janeiro numa grande desordem parlamentar – seguida da sua retirada – coexistia com os apelos à intervenção do Exército e à “firmeza” contra as ocupações dos edifícios públicos; mas estes foram muitas vezes ocupados sem conflitos, e em muitas cidades da província contando eventualmente com o apoio de forças de segurança do regime...

Finalmente, na ausência de alternativa de esquerda credível – reforçada pelas divisões quanto à atitude a adotar em relação a este movimento – o peso da extrema-direita (sobretudo no ocidente e no centro do país) baralhou ainda mais as cartas de uma mobilização popular ampla que exprimia uma simpatia concreta pela coragem dos jovens que afrontavam os detestados Berkut.

Saída da crise ou riscos acrescidos de divisão?

A semana de violência sangrenta impôs o ponto de vista dos manifestantes a favor da saída imediata do presidente Ianukovich e de modificações constitucionais. Esta é em primeiro lugar a vitória deles, na confusão dos desafios e portanto dos amanhãs.

A Ucrânia está à beira da interrupção de pagamentos. As suas reservas de divisas representam dois meses de importações. A “ajuda” do FMI seria socialmente explosiva. O empréstimo russo de 11 mil milhões de euros e a promessa de redução do preço do gás estão congelados até à formação de um governo – com ameaças de proteção russa contra as importações ucranianas em caso de ser assinado um acordo entre Kiev e a UE. Os Estados Unidos e as diplomacias europeias dizem querer associar a Rússia à busca de soluções – esta intenção teria mudado desde novembro?

A integração do Svoboda – cujo nacionalismo étnico glorifica a Ucrânia “europeia” contra a não-Ucrânia “asiática” russófona – no “governo de união”, agrava dramaticamente os riscos de confrontos no leste do país, até à Crimeia: os tártaros expulsos noutros tempos por Estaline, apoiavam Maidan contra os russos (60% da população) numa quase ilha que é também uma base militar de Moscovo. A partição do país não está excluída num futuro muito afastado das aspirações populares.

24 fevereiro de 2014

Publicado em Europe Solidaire Sans Frontières

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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