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Ucrânia: entre máfias e expansionismo militar

Crimeia: base ucraniana cercada por tropas russas – Foto de Alberto Sicilia publicada em @pmarsupia

A crise na Ucrânia pode desembocar numa luta armada de terríveis consequências. Mesmo que não estale uma guerra, o conflito na Ucrânia e na Crimeia marcará de maneira decisiva as relações internacionais e as perceções europeias, norte-americanas e russas durante os próximos lustros. Por Alejandro Nadal

 

As raízes desta crise constituem uma teia complexa e por isso há que desconfiar das narrativas simplificadoras (provenientes de Moscovo ou de Washington). Entre as causas que levam ao conflito atual encontra-se a expansão do militarismo norte-americano que nunca abandonou as suas obsessões da guerra fria. Também se encontra a voracidade do capital financeiro que procura consolidar o neoliberalismo na Ucrânia.

As máfias no poder na Rússia e em Kiev são o complemento perfeito para detonar o conflito. Para o povo ucraniano as opções têm sido permanecer sob o domínio de máfias que simpatizam com Moscovo, ou entregar-se a máfias inclinadas à aproximação com a União Europeia e com Washington. O pano de fundo deste cocktail explosivo é a longa história de nacionalismos e movimentos separatistas.

Sem dúvida que para muitos leitores soa exagerado falar de expansão do militarismo norte-americano. Mas há que considerar os seguintes elementos. Em 1949, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). A sua missão era clara: contrabalançar as forças que a União Soviética tinha estacionadas no seu território e nos países da Europa de Leste. A URSS replicou criando o seu próprio bloco, com o Tratado de Varsóvia.

A NATO parecia ter perdido a sua razão de ser com o fim da URSS. Os arsenais nucleares dos Estados Unidos e da Rússia foram objeto de vários tratados de redução de armas estratégicas e em termos gerais gerou-se uma atmosfera de certa distensão. Mas as correntes mais conservadoras nos Estados Unidos não resistiram à tentação de aproveitar o momento para procurar a expansão da NATO e deslocar a linha divisória da antiga guerra fria até a fronteira com a Rússia.

A NATO não só não desapareceu, como cultivou as suas ambições estratégicas no que tinha sido o espaço soviético durante a guerra fria. Essa expansão iniciou-se com Clinton e prosseguiu com Bush. Para alguns analistas isto é acompanhado pelos sonhos do Pentágono de ver um dia a frota norte-americana fundear em Sebastopol e Balaclava, os principais portos da Crimeia. Mas o que é um sonho para o Pentágono é um pesadelo para o nacionalismo russo.

Em 1999, Polónia, Hungria e a República Checa ingressaram na NATO, no meio de um feroz debate e da oposição da Rússia. Em 2004 foi a vez das repúblicas bálticas (Estónia, Letónia e Lituânia), além de Eslovénia, Bulgária e Roménia. Muito poucos analistas se detiveram a pensar como a Rússia interpretaria este processo.

George F. Kennan, provavelmente o mais perspicaz e experimentado artífice da política externa norte-americana, advertiu em 1997 que a expansão da NATO constituía o erro mais grave e ominoso dos Estados Unidos na história do pós-guerra. Para Kennan este ato inflamaria o militarismo russo, afogaria a democracia e, em general, porque impulsaria a política externa russa para objetivos que não seriam do nosso agrado.

Ninguém o escutou, e em 2008 George W. Bush propôs planos para que a Geórgia e a Ucrânia se convertessem em membros da NATO. Por isso o comunicado do encontro da NATO em abril desse ano assinala que a Geórgia e a Ucrânia serão membros da NATO, ainda que sem especificar a data. O conflito entre a Rússia e a Geórgia em 2008 alertou os europeus para o risco de prosseguir por esta via e isso travou os planos de outorgar à Ucrânia um nível de parceria, o primeiro passo para aceder à NATO. A leitura russa de todo este processo foi imediata: Washington e os seus aliados não tinham abandonado as suas prioridades da guerra fria e a sua estratégia continuava a ser rodear a Rússia por todos os seus flancos.

Depois do colapso da URSS, a Ucrânia converteu-se no terceiro estado em quantidade de armas nucleares (após os Estados Unidos e a Rússia). Mas, em 1996, todo o seu armamento nuclear tinha sido entregue à Rússia e a Ucrânia converteu-se num estado livre de armas nucleares. Apesar de o exército ucraniano não poder deter uma ofensiva russa, também não estamos em presença de uma força desprezível e qualquer conflito armado teria consequências desastrosas. A economia mundial, e em especial a europeia, não estão em condições de enfrentar o castigo de uma espetacular subida do preço de petróleo, queda dos mercados de valores e volatilidade sem paralelo nas principais divisas.

Para conseguir uma maior integração económica com a Ucrânia, a União Europeia procurou negociar um pacto que daria a Kiev um estatuto comercial e financeiro privilegiado. Bruxelas ofereceu além disso um tratamento especial em matéria de vistos e outros incentivos, mas sem outorgar a adesão. O verdadeiro objetivo da UE é reduzir a influência russa, em especial após a iniciativa de Putin na Síria (que esfriou os planos mais intervencionistas dos Estados Unidos) e o outorgamento de asilo a Snowden (facto que Washington não perdoa).

O pacote oferecido pela UE incluía as típicas medidas de austeridade que puseram de joelhos a Grécia e tanto dano têm causado na Europa. Mas o mais importante é que o tratado com a UE incluía cláusulas de conteúdo militar que obrigariam a Ucrânia a seguir os alinhamentos estratégicos da NATO. Para Moscovo isto era o cúmulo e por isso intensificou a pressão sobre o corrupto presidente ucraniano Yanukovich. A 9 de novembro passado Putin reuniu em segredo com o seu homólogo ucraniano para assinar um tratado alternativo entre Kiev e Moscovo. Na reta final, além de acesso ao mercado russo Putin ofereceu o perdão de parte importante da dívida ucraniana e vários milhares de milhões de euros em créditos.

O anúncio gerou uma onda de protestos que acabou por derrubar Yanukovich. Moscovo sentiu que perdia a oportunidade de travar as pretensões de expansão dos norte-americanos e dos europeus. A intervenção na Crimeia é uma resposta, arbitrária, perigosa e plena de ilegalidade. Desgraçadamente nenhuma das potências que hoje pretendem dar lições de civismo a Moscovo tem as mãos limpas. A hipocrisia de Washington é grande, mas não consegue ocultar o seu desprezo pelo direito internacional. Os exemplos da invasão do Iraque e do Afeganistão (antes do Conselho de Segurança autorizar uma intervenção) ainda estão frescos na memória.

Fica pouco tempo para desativar a crise. Se não se aproveitar tomar-se-á o caminho que conduz ao conflito armado. Moscovo poderá retirar as suas tropas da Crimeia em troca de regressar ao status quo ex ante (leis de estrangeiros e do idioma russo). Mas o tom belicoso e a ameaça de sanções provenientes de Washington e Bruxelas não vão acalmar os ânimos.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano La Jornada em 5 de março de 2014

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Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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