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Turquia: uma coligação de governo à deriva

Revelações de corrupção, descalabro monetário, parcerias público-privadas ruinosas, gastos militares excessivos: o prazo de validade da coligação de Erdogan parece estar a chegar ao fim. Por Esen Uslu.
T-shirt Anti-Erdogan. Foto do Facebook.
T-shirt Anti-Erdogan. Foto do Facebook.

Um antigo chefe da máfia turca, Sedat Peker, que esteve envolvido em atividades paramilitares de direita desde a sua juventude, tornou-se subitamente o ponto focal da vida política na Turquia e um espinho cravado na carne da coligação governante. O seu canal no YouTube está a bater todos os recordes: anuncia antecipadamente sobre o que será o seu próximo vídeo e estes são esperados por um público cativo, hipnotizado por revelações sobre a corrupção dos políticos, bem como dos altos escalões da burocracia.

Para aqueles que vêm acompanhando a política turca há anos, não há nada de novo ou que não soubessem, mas para a geração mais jovem, que cresceu sob o regime de Recep Tayyip Erdogan, tais revelações são surpreendentes. Sob o regime do Erdoğan, o modelo exemplar proposto à geração mais jovem é o de um nacionalista-islamista-xenófobo-mafioso combatendo infiéis e curdos, um tema que se repete incessantemente nos meios de comunicação social controlados por Erdogan e seus subalternos.

Então, quem é o alvo dos vídeos de Peker? A lista vai de cima para baixo. Ministros, chefes de polícia, membros do parlamento, do judiciário e da imprensa, antigos e atuais; ex-membros das forças especiais, todos envolvidos em negócios obscuros, manipulação de investigações, processos e sentenças, que torturam em esquadras de polícia, assassinam líderes da oposição; e são responsáveis por extorsão, violação e assassinato. A lista continua.

Apenas como exemplo, mencionemos algumas das revelações.

  • Os capangas de Erdogan forneceram milhões de dólares como empréstimo sem garantias ao líder de um grupo de capital financeiro, o que lhe permitiu comprar canais de comunicação social da oposição, incluindo o maior jornal diário. Até hoje, nem um cêntimo foi devolvido e ninguém está a pedir isso.

  • Um ex-ministro do Interior participou da aquisição de uma marina na costa do Egeu a convite de um empresário azerbaijanês. Foi acusado de ser membro do movimento “terrorista” Gülen, mas em troca da entrega da marina recebeu uma sentença curta e foi libertado.

  • O atual Ministério do Interior desempenhou um papel importante ao persuadir o representante de um fundo acionista mórmon com sede em Utah a transferir ações que detinha numa das suas principais holdings para um advogado atuando como testa de ferro para outro grupo. O advogado é um ex-coronel das forças especiais altamente condecorado que desempenhou um papel fundamental na captura do prisioneiro político curdo Abdullah Öcalan em 1999.

  • Ex-oficiais das forças especiais e assassinos da máfia estiveram envolvidos no assassinato de um conhecido jornalista de investigação cipriota turco. Ele estava a investigar uma escavação ilegal num dos mosteiros de Chipre, onde alguns objetos valiosos apreendidos pelos oficiais tinham sido enterrados e estavam à espera para serem recuperados na hora certa.

De facto, este tipo de comportamento tem sido comum no capitalismo turco desde a sua origem no início do século XX. A sua acumulação primitiva foi facilitada pelo massacre e expropriação da população cristã. Mais tarde, no primeiro período da era republicana, uma nova classe capitalista turca surgiu com a ajuda de fundos usurpados do Estado. Ex-burocratas militares e estatais tornaram-se “empresários”, especialmente após o estabelecimento do fundo de assistência mútua das forças armadas no início dos anos 60.

Data de validade

Então, o que há de novo? Simplificando, o prazo de validade da coligação governante de Erdogan já passou. O seu principal parceiro de coligação, o MHP (Partido de Ação Nacionalista, os infames Lobos Cinzentos), está em crise. O seu líder está muito velho e incapaz de dar qualquer contribuição significativa. Mal consegue caminhar até ao palanque para proclamar as suas mensagens ferozes mas rançosas contra a oposição todas as terças-feiras durante a reunião do grupo parlamentar passadas na televisão. A formação do “Bom Partido” infligiu um duro golpe ao MHP, e agora a coligação de governo planeia baixar o limiar de representação parlamentar para 5% do total de votos expressos, cortando os atuais 10%, destinados a impedir que a oposição curda ganhe assentos. Mas o MHP pode não ser capaz também de passar esse limite.

O próprio AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) de Erdoğan também está em crise. A busca dogmática de uma política monetária peculiar, implementada pelo seu genro e pela sua equipa de jovens funcionários, tem sido um desastre. As reservas cambiais acumuladas pelo Banco Central, no valor de 128 mil milhões de dólares, foram desperdiçadas numa tentativa vã de sustentar a taxa de câmbio. O Ministro das Finanças e os gerentes do Banco Central foram sendo rapidamente substituídos um após o outro e as taxas de juro foram aumentadas, mas a lira turca ainda está em colapso.

Os investimentos maciços em infra-estrutura pública dos primeiros anos de Erdoğan, em linguagem turca “cimento por votos”, mal são mantidos através de esquemas de “build-operate-transfer” (BOT), que na verdade dobram ou até triplicam o custo a longo prazo. Rodovias, pontes, depósitos ferroviários e aeroportos construídos sob o BOT não geram o tráfego e a receita necessários, de modo que os pagamentos garantidos às empresas de construção e administração estão a drenar os cofres do Estado.

A receita tributária de empresas e negócios está a cair, apesar de várias tentativas de anulação de penalidades e juros sobre os impostos não pagos. O crédito internacional fácil está a chegar ao fim, e o agravamento das relações internacionais com os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia também travaram a política de “emprestar e gastar” (para não mencionar a atitude de “esperar o melhor”). A Turquia mal consegue importar as vacinas Covid que precisa, enquanto as receitas do turismo internacional estão em queda devido à incapacidade de conter a pandemia.

As aventuras estrangeiras, juntamente com os gastos militares envolvidos, também estão a sufocar a economia. O apoio financeiro recebido dos países do Golfo após a “Primavera Árabe” para criar e manter um exército de mercenários na Síria, Líbia, Azerbaijão, assim como em alguns países africanos, está a diminuir.

O espectro de hordas descontroladas de migrantes fazendo o seu caminho através das portas da Fortaleza Europa ainda serve para manter uma linha de crédito e subsídios da UE, mas colonizar as terras sírias ocupadas custa ainda mais dinheiro. O número de bases, fortificações e tropas que bloqueiam as forças sírias e a força aérea russa na estrada M5 em Idlib para proteger os jihadistas islâmicos está a aumentar mas com retornos cada vez menores.

O espinho curdo na carne da política de “defesa ofensiva” do governo fez dele um prisioneiro das altas patentes do exército, assim como dos jihadistas. A crescente campanha de bombardeamentos aéreos é complementada por ataques de helicópteros por tropas que se movem cada vez mais para dentro do território iraquiano. Bombardeiros antiquados e drones armados caseiros causam um alvoroço na imprensa internacional por causa dos seus efeitos na Líbia e no conflito entre o Azerbaijão e a Arménia, mas a sua eficácia contra os militantes curdos, apesar de toda a propaganda, serve apenas para realizar assassinatos direcionados de alguns poucos quadros visados pela inteligência militar. Cada incursão encontra uma resistência feroz e, apesar de sofrerem pesadas perdas, os combatentes curdos não se moveram.

As montanhas Qandil, onde se acredita que a sede da guerrilha curda PKK está localizada, ainda está fora do seu alcance. No entanto, o Monte Sinjar e o campo de refugiados Makhmour tornaram-se alvos. E o exemplo mais claro de um espinho na carne turca, Kobane e os seus arredores ainda não estão sob controle turco.

As políticas herdadas do Império Otomano ainda estão a ser aplicadas: por exemplo, a criação de uma milícia leal entre os curdos para que “os cães mordam os cães”. Os vários métodos empregados numa tentativa de isolar ou impor o domínio absoluto sobre as áreas controladas pelo movimento de libertação curdo em território iraquiano não tiveram exatamente sucesso, apesar da enorme perda de vidas humanas e muitas mais são esperadas.

Na Turquia, o Partido Democrático dos Povos (HDP) pró-curdo de centro-esquerda foi tornado alvo e os seus quadros dirigentes foram processados e presos, enquanto que cerca de 500 membros das suas fileiras foram proibidos de participar na vida política. Tudo isso na tentativa de reforçar as hipóteses de reeleição de Erdogan. Os votos curdos são cruciais para ambos os lados do espectro político, mas se o HDP for retirado da equação, Erdogan acredita que teria mais hipóteses de ganhar o apoio da população curda, pois os partidos de oposição estão ainda mais atolados em sentimentos e retórica anti-curda.

Enquanto isso, a administração Biden rejeitou até agora todas as tentativas de Erdogan de melhorar as relações com os EUA, após o seu apoio aberto a Donald Trump: a primeira reunião presencial ocorreu na cimeira da NATO da semana passada. Some-se a isso os muitos anos de contaminação do Mar de Mármara, no qual o esgoto de Istambul e todas as outras cidades industrializadas ao longo de suas margens derramaram as suas águas e isso tem tido um efeito devastador. E, enquanto tudo isso acontece, as revelações de Peker estão em curso.

É claro que o regime atual está em crise, mas qual é a alternativa? Onde está a esquerda organizada?


Esen Uslu é um analista político residente em Istambul que publica regularmente nas revistas Sercesme e Sakayak.

Texto originalmente publicado no Weekly Worker, traduzido por Sin Permiso e republicado pelo Observatório Internacional da Fundação Lauro Campos/Marielle Franco. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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