TTIP quer baixar padrões e aumentar lucros de multinacionais

04 de March 2016 - 18:51

Declarações de John Hilary, diretor da ONG "War on Want", que luta contra o TTIP, ao esquerda.net. O texto lido em baixo, tal como o vídeo da entrevista.

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John Hilary é o diretor da "War on Want", uma ONG britânica que está à frente da luta contra o TTIP, cronista e autor do livro of "The poverty of capitalism: economic meltdown and the struggle for what comes next" ["A pobreza do capitalismo: crise económica e a luta por o que vem depois"], de 2013. John Hilary foi entrevistado para o esquerda.net sobre o ponto atual da luta contra o TTIP e possíveis alternativas na conferência "Um Plano B para a Europa", em Madrid.

"Estamos muito felizes porque o movimento contra o TTIP e também contra o tratado entre o Canadá e a União Europeia, o CETA, tornou-se um movimento de massas, não só no Reino Unido, mas em toda a Europa. 

Em 28 estados membros da UE há milhões e milhões de cidadãos que fizeram ações contra o TTIP e contra o CETA e contra esta nova geração de acordos de comércio livre. O que é muito bom para nós é que todos os sindicatos no Reino Unido estão 100% contra o tratado. 

Todas as indústrias de pequena escala também começam a acordar para isso, por isso temos um novo site chamado "Comércio contra o TTIP" e os dirigentes dos comércios começam a dizer que também estão contra este acordo. Temos os estudantes contra o TTIP, os artistas contra o TTIP, o que está a juntar muitas celebridades. Celebridades como o Jamie Oliver, que o denunciou por achar que o TTIP é uma verdadeira ameaça aos padrões de alimentação no futuro.

No Reino Unido exportamos 150 mil toneladas de carne de porco a cada ano. E importamos 150 mil toneladas de carne de porco a cada ano. Qualquer pessoa vê que é uma loucura, mas pela lógica do capitalismo, é fantástico.

Em todos estes campos temos um grande movimento de massas, mas agora precisamos de transformar isso em poder político. Se a Comissão Europeia tivesse alguma legitimidade democrática, eles ouviriam este movimento de massas e diriam que não, não podemos continuar com as negociações do TTIP ou do CETA. 

O problema, claro, é que a UE é uma instituição fundamentalmente antidemocrátca e o que vemos é a continuação das negociações totalmente contra a vontade do povo. E isso significa que temos um grande problema porque só conseguimos encontrar formas alternativas de parar o acordo. Uma destas formas, que é a mais importante, é no Parlamento Europeu. Temos trabalhado arduamente para convencer os deputados europeus que o TTIP não é algo que possa ser assinado e em julho de 2015 houve um voto no Parlamento Europeu e conseguimos convencer os deputados social democratas britânicos do Partido Trabalhista a votarem contra a resolução pró TTIP. Infelizmente, os alemães, italianos e outros sociais democratas votaram a favor da resolução que foi aprovada.

Precisamos de dar força à resistência no plano europeu, mas também precisamos de dar força à resistência no plano nacional, com campanhas nacionais. Está claro que vamos derrotar o TTIP. Acho que não há qualquer dúvida a esse respeito. A questão é onde o vamos derrotar e, logo, onde continuar a criar pressão. 

Precisamos de dar força à resistência no plano europeu, mas também precisamos de dar força à resistência no plano nacional, com campanhas nacionais. Está claro que vamos derrotar o TTIP. Acho que não há qualquer dúvida a esse respeito. A questão é onde o vamos derrotar e, logo, onde continuar a criar pressão. 

Seria possível ter um tratado completamente diferente entre a UE e os Estados Unidos, que partisse de diferentes premissas e tivesse objetivos ambientais e sociais. A primeira coisa que seria dita se quiséssemos negociar esse tratado seria perguntar que nível de comércio e de investimento é bom. Que tipo de comércio e de investimento é bom. Porque de momento temos um sistema que diz que todo o comércio é bom, que todo o investimento e que precisamos de tudo quanto consigamos ter.

Para um TTIP social e ambientalmente justo, deveríamos dizer quanto comércio queremos para o benefício do planeta. Que tipo de comércio queremos? Por ex, no Reino Unido exportamos 150 mil toneladas de carne de porco a cada ano. E importamos 150 mil toneladas de carne de porco a cada ano. Qualquer pessoa vê que é uma loucura, mas pela lógica do capitalismo, é fantástico e nós inverteríamos essa lógica e diríamos que precisamos de ter o comércio ao serviço das pessoas, precisamos de ter comércio que seja bom para o ambiente.

Precisamos que todas as convenções da Organização Internacional do Trabalho, as convenções da OIT sejam ratificadas por ambos os lados, os EUA e a UE, e isso poderia ser uma base para aumentar os padrões em todo o Atlântico. O TTIP é sobre baixar os padrões e remover as barreiras ao comércio. Nós dizemos que os padrões devem ser aumentados porque são mais importantes que aumentar os lucros das empresas multinacionais que negociam ao longo do Atlântico.

Então começaríamos de uma premissa diferente, teríamos um método de negociar  totalmente diferente, totalmente aberto, transparente, e um resultado completamente diferente. É o tipo de tratado de comércio em que as pessoas na Europa, e que as pessoas dos EUA, conseguiriam acreditar e que estabeleceria um modelo genuinamente positivo para todos os tratados de comércio no mundo."