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Trump soma derrotas e acumula investigações

O ex-presidente é acusado de mentir a bancos e seguradoras para lucrar milhões, perdeu a tentativa de bloquear o acesso a documentos sobre o assalto ao Capitólio e está sob investigação por ter pressionado um governante da Georgia a arranjar votos para reverter a derrota. A última notícia é que a sua campanha tentou empossar grandes eleitores falsos.
Donald Trump. Foto de Gage Skidmore/Flickr.
Donald Trump. Foto de Gage Skidmore/Flickr.

Letitia James, a procuradora-geral do estado de Nova Iorque, tem investigado desde 2019 os negócios de Donald Trump, nomeadamente os realizados através da Trump Organization. Esta terça-feira publicou um relatório de 160 páginas onde revela “provas significativas” de discrepâncias entre a situação económica real das empresas de Trump, as suas propriedades e o declarado ao Departamento da Receita Fiscal, o IRS, mas também a seguradoras e outras entidades financeiras.

A procuradora nova-iorquina pretende levar o ex-presidente às barras dos tribunais, junto com os dois filhos, Trump Júnior e Ivanka, mas este tem procurado esquivar-se alegando perseguição política. Letitia James entregou ao mesmo tempo do relatório uma moção em tribunal para os obrigar a comparecer.

Com este novo documento pretende-se provar que Donald Trump inflacionou fraudulentamente ativos para enganar bancos e seguradoras. A investigação surgiu, aliás, de declarações do antigo advogado de Trump que declarou precisamente que este exagerava deliberadamente nos valores para tentar obter melhores condições de empréstimos e seguros. Detalham-se agora as diferenças entre o que se informava para fora e os documentos contabilísticos internos, o que são consideradas práticas “fraudulentas ou enganosas”.

No dia seguinte, o ex-presidente sofreu outra má notícia. O Supremo Tribunal, de maioria conservadora, rejeitou a sua tentativa de impedir o acesso da comissão do Congresso que investiga o assalto ao Capitólio aos documentos presidenciais que são guardados no Arquivo Nacional dos EUA.

O caso tinha já percorrido as instâncias inferiores, onde Trump tinha perdido. Só que em dezembro, o tribunal federal de recurso tinha mantido estas decisões mas proibido a entrega ao Congresso até que o Supremo decidisse.

Não é conhecido o tipo exato dos mais de 700 documentos a que os investigadores vão ter acesso mas supõe-se que, entre eles, estejam registos de chamadas e de visitas, mensagens de correio eletrónico e até notas e memorandos de alguns dos seus mais destacados assistentes. Os investigadores do Congresso procurarão neles não só compreender o papel de Trump na preparação do assalto ao Capitólio e nos momentos decisivos deste mas também obter informações sobre como o círculo mais chegado do ex-presidente tentou alterar o resultado saído das urnas.

"Reuniões secretas" na véspera do ataque ao Capitólio

Já esta sexta-feira, o Guardian revelou que a ex-secretária de imprensa da Casa Branca e chefe de gabinete de Melania Trump, Stephanie Grisham, terá indicado a esta comissão de investigação que Trump organizou “reuniões secretas” antes do dia do ataque ao Capitólio, data em que se demitiu das suas funções. O responsável por estas reuniões não oficiais e desconhecidas por grande parte do pessoal de Trump seria Mark Meadows e Grisham terá indicado outros participantes.

As fontes do jornal consideram que as informações por ela prestadas são “mais significativas do que o esperado” e aguçam ainda mais o apetite pelos documentos a que os investigadores terão acesso, já que terá declarado que estes resolveriam “o mistério” acerca da promessa de Trump de acompanhar os seus apoiantes até ao Capitólio.

A frase de Trump “We are going to walk down Pennsylvania Avenue”, “vamos descer a Avenida Pensilvânia”, não é vista como inocente, sendo considerada uma das motivações que levaram os seus apoiantes a irromper violentamente pela sede do poder legislativo norte-americano e, por isso, pretende-se elucidar se foi proferida no intuito de apelar a um ato violento contra as instituições do país. Antes, a Reuters noticiara que Trump tinha sido desencorajado de “descer a Avenida” pelos serviços secretos, que disseram que não conseguiriam garantir a sua segurança nessa eventualidade.

O comité de investigação, entretanto, aponta baterias a Ivanka Trump. A filha do ex-presidente, que tal como o seu marido, estava contratada como “Conselheira Especial”, esteve presente nos momentos decisivos do dia 6 de janeiro do ano passado, terá testemunhado a pressão do seu pai para que Mike Pence não desse posse a Biden e pedido várias a intervenção de Donald Trump quando os seus apoiantes invadiram o Capitólio. Será igualmente questionada sobre o que sabe acerca dos atrasos em colocar a Guarda Nacional a proteger o edifício.

O plano frustrado para substituir "grandes eleitores" de vários estados por apoiantes de Trump

Os revezes para Trump não pararam aqui e mais duas notícias colocam-no em causa noutra frente: as suas iniciativas para interferir com o processo de escrutínio e para alterar o resultado saído das urnas. Por um lado, Fani Willis, procuradora do maior condado da Georgia, requereu a constituição de um grande júri especial com poder de intimar para fazer avançar a investigação a Trump, que é acusado de conspiração para cometer fraude e interferência intencional na certificação do resultado eleitoral deste estado chave para a sua derrota. Em causa está sobretudo o telefonema do então presidente ao Secretário de Estado da Georgia, Brad Raffensperger, no dia 2 de janeiro em que aquele dizia que “apenas” queria “encontrar 11.780 votos”, a quantidade necessária para reverter a sua derrota no estado.

Por outro lado, a CNN noticia que os dirigentes da campanha presidencial de Trump, liderados pelo seu advogado Rudy Giuliani, coordenaram, em dezembro, esforços para enviar certificados eleitorais falsos para os Arquivos Nacionais dos EUA. A tentativa era substituir os “grandes eleitores” efetivamente eleitos nos estados da Georgia, Arizona, Michigan, Wisconsin, Nevada, Pensilvânia e Novo México, pelos apoiantes de Trump. Recorde-se que as eleições presidenciais nos EUA funcionam através da eleição, em cada estado, de um número determinado de “grandes eleitores” e que são estes que, em último caso, procedem à eleição final do presidente. Nos últimos dois deste grupo de estados, os documentos enviados atestavam que estes seriam “eleitores em espera”, ou seja que seriam designados depois das contestações legais que Trump fizera das eleições, mas nos restantes cinco afirmava-se que seriam desde logo os representantes legítimos. O plano requeria ainda que o vice-presidente Mike Pence reconhecesse estes falsos eleitores para que pudessem votar e alterar o desfecho das eleições.

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