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Trump envia agentes federais para Portland, manifestações ganham força

O presidente norte-americano desrespeitou as autoridades locais e colocou no terreno agentes não identificados que são acusados de fazerem detenções sem causa provável e de usarem violência indiscriminadamente. Trump procura capitalizar politicamente. Mas enfrenta um adversário inesperado, as mães de Portland.
Grupo das "mães de Portland" à frente de uma manifestação. Julho de 2020. Foto de @jonhouse_/Twitter.
Grupo das "mães de Portland" à frente de uma manifestação. Julho de 2020. Foto de @jonhouse_/Twitter.

Em Portland, um “muro de mães” tenta proteger os manifestantes pacíficos dos abusos perpetrados por agentes federais. Trump enviou-os para procurar travar os protestos que continuam, cerca de dois meses depois do início do movimento de contestação às injustiças raciais nos EUA despoletado pelo assassinato de George Floyd.

Estas centenas de mulheres, primeiro vestidas de branco e depois de amarelo na linha da frente, pretendem, com a sua presença, dissuadir a violência e as detenções arbitrárias que estão a ser efetuadas por agentes federais não identificados da U.S. Customs and Border Protection, do U.S. Marshals Service, do Departamento de Justiça e do Departamento de Segurança Interna.

As mães de Portland nasceram nas redes sociais. Zangada com a violência a que assistia, Bev Barnum, uma mulher de 35 anos, criou um evento no Facebook no sábado em que apelava às mães que são “frequentemente subestimadas” mas que são “mais fortes” do que é reconhecido para se interporem entre manifestantes e polícia “sem o uso da violência”. Da primeira vez, 40 mulheres responderam à chamada.

Desde então são cada vez mais. Já foram atacadas de várias maneiras, até com gás lacrimogéneo, mas não desistem. E dão aos manifestantes uma cara bem diferente da imagem que Trump, com a retórica que lhe é costumeira, tenta passar. Na sua conta de Twitter, fala em “anarquistas e agitadores” e ameaça enviar o mesmo tipo de força para outras zonas que sejam governadas pelos Democratas porque estas são “geridas estupidamente”.

Os Democratas respondem. As imagens e os inúmeros relatos de abuso da força policial levaram a sua bancada na Câmara dos Representantes a pedir uma investigação, num documento em que diziam que o governo “lançou uma força policial secreta, não para investigar crimes mas para intimidar indivíduos que vê como adversários políticos”.

Também a governadora do Oregon, Kate Brown, e o presidente de Câmara de Portland, Ted Wheeler, ambos democratas, criticam fortemente o que se está a passar. Brown declarou: “isto é uma democracia, não uma ditadura. Não podemos ter uma polícia secreta raptando pessoas em veículos não identificados.” Já Wheeler chama a estas forças federais “exército pessoal de Trump”. Acusa-as de estarem a “escalar profundamente a situação”. E acusa o presidente norte-americano de ter emitido esta ordem executiva de forma a tentar contornar as sondagens que lhe têm sido desfavoráveis. Ambos exigem a retirada destas forças.

A batalha não é apenas política. Tornou-se também judicial e constitucional. Esta terça-feira, o Western States Center, uma organização não governamental de defesa dos direitos civis e de organização das comunidades mais desfavorecidas, apresentou queixa por considerar que o governo está a violar a 10ª emenda à Constituição dos EUA, uma vez que retira poderes que deveriam ser dos estados.

Aliás, a intenção declarada de Trump de generalizar este tipo de intervenção “policial”, com Chicago a ser muito provavelmente a cidade a seguir na lista, para onde está previsto o envio de cerca de 150 agentes do Departamento de Segurança Interna, sob pretexto de uma onda de criminalidade, é lida por muitos como sendo o presidente a testar os limites do que lhe é permitido fazer.

O estado do Oregon também processou as agências federais envolvidas, mas por outras razões. Ellen Rosenblum, procuradora geral do Oregon, coloca em causa a legitimidade dos agentes federais mascarados prenderem pessoas sem “causa provável” e as deterem em carros não identificados. Questiona assim a narrativa oficial de que os agentes agem de forma a proteger edifícios federais ameaçados. Esta é propagada de várias maneiras. Através do Twitter, o Departamento de Segurança Interna declarou que “Portland está pejada de anarquistas violentos assaltando agentes e edifícios federais”. “Isto não é uma multidão pacífica. Isto são crimes federais.”

O que as imagens quotidianas dos protestos mais mostram são, porém, multidões pacíficas. Os manifestantes de Portland têm sido, como o conjunto do movimento Black Lives Matter, esmagadoramente pacíficos, com alguns grupos esporadicamente a atacar edifícios federais, ateando pequenos fogos ou lançando pedras.

A violência policial, essa, não tem olhado a quem. A 11 de julho, as imagens de um manifestante pacífico a ser atingido na cabeça por um agente federal aumentaram ainda mais a revolta. O homem foi hospitalizado com lesões graves no crânio. Não teve qualquer postura agressiva e a sua única “arma” era o megafone que trazia nas mãos.

Este fim de semana, a indignação voltou a fazer-se sentir. Mais uma vez pela divulgação de filmagens. Nelas, um destes agentes espancava repetidamente com um bastão um homem, enquanto outro lhe lançava gás pimenta diretamente para a cara. Só que, em vez de um “perigoso anarquista”, a pessoa em causa era um militar veterano da marinha norte-americana.

Na segunda-feira à noite, em frente ao tribunal federal em Portland e ao centro de justiça, o protesto diário foi outra vez dispersado pelo lançamento de granadas de atordoamento.

Este tipo de armas tem sido mais utilizado desde que um tribunal federal baniu o uso de gás lacrimogéneo sem que seja declarado um “tumulto”. Contudo, várias fontes têm documentado o uso de gás lacrimogéneo por parte dos agentes enviados por Trump.

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