Trump admite envolvimento de príncipe saudita na morte de Khashoggi

24 de October 2018 - 12:53

Arábia Saudita já assume que Khashoggi foi assassinado dentro do consulado, mas recusa o acesso da polícia turca aos jardins do mesmo. Conselho Europeu sugere que Europa se mantenha “à margem” de quaisquer jogos políticos.

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Trump admite envolvimento de príncipe saudita na morte de Jamal Khashoggi
Foto de POMED/Wikipedia.

Donald Trump voltou a falar sobre o homicídio do jornalista saudita Jamal Khashoggi, no que parece ser uma mudança de posição face às declarações públicas feitas desde que a Turquia anunciou o assassinato. Trump disse ontem pela primeira vez que o príncipe saudita Mohammed bin Salman poderá estar envolvido na operação que conduziu à morte do jornalista dissidente.

Jamal Khashoggi, um jornalista saudita exilado nos Estados Unidos da América, deslocou-se no passado dia 2 de outubro ao consulado da Arábia Saudita em Istambul para tratar de papéis relacionados com o seu divórcio e futuro casamento. Sabe-se agora que Khashoggi foi barbaramente torturado e assassinado por um grupo de homens que o esperavam dentro do consulado, estando o cadáver desaparecido desde então. As autoridades sauditas afirmaram durante 18 dias que o jornalista tinha saído vivo do consulado, numa versão contrária à do regime de Erdogan.

No sábado passado, Riade mudou a sua versão sobre o caso e reconheceu o homicídio, sustentando que foi cometido durante "uma operação não-autorizada", uma explicação recebida com ceticismo no estrangeiro.

Anteriormente, Donald Trump parecia subscrever as justificações apresentadas pelos sauditas quanto ao não envolvimento do monarca no processo. O presidente dos EUA dava o benefício da dúvida ao Rei Salman, mas não necessariamente ao seu filho.

“O príncipe governa as coisas para aqueles lados. Ele governa e, por isso, a ser alguém [envolvido], seria ele”, disse.

Estas declarações surgiram após um jornal turco pró-Governo ter feito saber que Gina Haspel, diretora da CIA, teve acesso às provas em áudio e vídeo da tortura e homicídio de Khashoggi. O Governo turco há muito que indicou ter estas provas em sua posse, nunca tendo porém explicado como as obteve, nem como sabe todos os passos dos 15 homens sauditas que terão viajado até Istambul apenas para assassinar o jornalista.

Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, comentou o caso na passada terça-feira, instando os Estados para se “manterem à margem” de qualquer jogo político.

“Foi um crime tão horrendo que até o mínimo rasto de hipocrisia nos envergonharia. Não é o meu papel revelar quem quer proteger os interesses de quem, mas sei uma coisa: o único interesse europeu é que todos os detalhes deste caso sejam revelados, independentemente de quem seja responsável por ele”, defendeu.

A posição do Governo turco está a ser olhada com desconfiança por alguns quadrantes políticos, incluindo dissidentes turcos.

"Soa muito suspeita em Erdogan toda esta preocupação com um jornalista e direitos humanos. É preciso lembrar que de acordo com as contabilidades conhecidas a Turquia é o país com mais jornalistas presos no mundo. Consegue ultrapassar a China. O Estado de Direito foi praticamente abolido há pelo menos dois anos e a Turquia não é um país democrático. A razão pela qual o presidente está a fazer isto não é de certeza por querer fazer da Turquia um lugar seguro para jornalistas e para livres pensadores. Só quer provar que tem importância, que é um player indispensável na arena internacional. A morte de Khashoggi foi uma oportunidade de ouro para ele, uma ótima carta para a mesa de poker”, comentou ao DN Utku Baladan, um professor universitário de Sociologia demitido há dois anos após a tentativa de golpe de Estado no país.