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Todos querem a Syngenta – a geopolítica dos transgénicos

O que se esconde por detrás da bilionária proposta de aquisição feita pela Chemchina à Syngenta? Artigo de Daniel Araujo.
Foto agriflanders/Flickr

Ainda no final de 2015 a norte-americana Monsanto apresentou ao conselho administrativo da suíça Syngenta uma oferta não-amigável de aquisição superior a US$ 46 mil milhões. Caso concluída, a compra significaria o ápice da concentração do mercado de agroquímicos e sementes, em curso acelerado à partir dos anos noventa. Desde a sua fundação em 1901, como uma fabricante de adoçantes e aditivos alimentares, a Monsanto já adquiriu um sem-número de empresas rivais, com destaque para a criadora do tomate transgénico Agracetus e a rival Delta-Pine, especializada no melhoramento de sementes de Algodão.

A hoje denominada Monsanto Company lidera com folga o segmento de variedades transgénicas chegando a concentrar entre 70 a 100% do mercado para algumas culturas agrícolas, como soja, canola e milho, possuindo também um pé no mercado de agrotóxicos, destaque para o herbicida Glifosato, comercializado em conjunto com a Soja RoundupReady, possuidora do gene bacteriano que lhe confere resistência aos efeitos do agrotóxico supracitado. A combinação entre o veneno sistémico altamente eficaz contra plantas daninhas e a semente de Soja resistente é um exemplo da eficácia da companhia em criar procura para seus produtos.

Por seu lado a Syngenta – originada da fusão das gigantes europeias AstraZeneca e Novartis em 2000 – ocupa o terceiro lugar no mercado de transgénicos e é líder mundial na comercialização de agrotóxicos, especialmente no mercado Europeu, com agricultores altamente qualificados e a receberem fortes subsídios do Estado. Adquirindo a rival Suíça, a empresa norte-americana sediada em Saint Louis tornar-se-ia, simultaneamente, líder incontestada no ramo de sementes modificadas e diversificaria sua atuação no agronegócio mundial com as venda de agrotóxicos, grande parte deles compatíveis com suas variedades transgénicas.

Para além disso, a Monsanto contornaria, ainda que parcialmente, uma barreira cada vez mais incómoda: a resistência crescente dos consumidores aos cultivos transgénicos, transformada em leis progressivamente mais restritivas ao cultivo e comercialização de sementes modificadas em diversos países. Atualmente mais de 64 países exigem a rotulagem de produtos transgénicos e investigações apontam para um consumidor cada vez mais preocupado com a origem dos alimentos que consome, o que inclui a presença de resíduos de agrotóxicos e também de genes inseridos artificialmente.

Depois do boom dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM) em meados da década de 1990, puxado pelo mercado norte-americano e pelos países em desenvolvimento (leia-se Brasil e Argentina), as autorizações de transgénicos nos principais países produtores reduziu o seu ritmo, porém ainda assim o mercado permanecia favorável pelo bom momento das matérias-primas mundialmente que elevava a procura pelas sementes modificadas.

Hoje o cenário é o inverso: puxados para baixo pelo barril de petróleo, o mercado de matérias-primas enfrenta uma crise que impacta diretamente na venda de insumos, o que inclui além dos agrotóxicos, máquinas agrícolas, tomada de crédito rural, preço de terras e obviamente as sementes. O segundo semestre de 2015 ainda trouxe o banimento dos transgénicos de países europeus, como Alemanha, Irlanda, Bulgária e Escócia, agravando a situação. Nos últimos doze meses os resultados das ações da Monsanto na bolsa de Nova Iorque cairam mais de 20%[1] e está cada vez mais difícil aprovar novos cultivos OGM, como demonstram recentes reclamações sobre a proibição do algodão transgénico na Índia.

Quais os reais interesses da Índia em barrar sucessivamente o cultivo do algodão OGM da Monsanto? Afinal, ainda em 2014 vazou a informação de que a física e ecofeminista Vandana Shiva estava na mira da polícia secreta indiana justamente por causa de sua militância contra os transgénicos, apontados como responsáveis pelo aumento da taxa de suicídio dos agricultores familiares, pressionados cada vez mais pelas dívidas originadas do monopólio das sementes no país.

O caso do algodão indiano também parece apontar para mais do que uma simples ressalva técnica dos órgãos reguladores locais frente à Monsanto. Mesmo após a execução de uma dezena de testes envolvendo as variedades modificadas, o país ainda não aprovou nenhum cultivo do algodão OGM para fins comerciais, o que gerou reclamações por parte da transnacional americana: “Ver um país com o potencial e a capacidade intelectual para ser líder nesses avanços tecnológicos ser bloqueado politicamente, acho uma tragédia”, afirmou R. Farley, diretor de tecnologia da companhia[2]. A artilharia da Monsanto para conquistar terreno na Índia inclui além dos think-tanks habituais, um possível apoio do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg e seu plano de levar internet gratuita até aos rincões mais afastados por meio da rede Free Basics e seu conteúdo dirigido aos camponeses[3].

Quais os reais interesses da Índia em barrar sucessivamente o cultivo do algodão OGM da Monsanto? Afinal, ainda em 2014 vazou a informação de que a física e ecofeminista Vandana Shiva estava na mira da polícia secreta indiana justamente por causa de sua militância contra os transgénicos, apontados como responsáveis pelo aumento da taxa de suicídio dos agricultores familiares, pressionados cada vez mais pelas dívidas originadas do monopólio das sementes no país.

A resposta esteja talvez na ascensão de uma outra gigante do mercado mundial de químicos, dessa vez no “Império do Meio”. A ChemChina, mega-corporação estatal chinesa, trabalha não só com agrotóxicos, mas também com a produção de reagentes, borracha e derivados do petróleo e, a exemplo da sua rival Monsanto, teve um início modesto seguido de um crescimento rápido envolvendo aquisição de várias empresas do ramo ao redor do mundo. Fundada em 1984 como Bluestar Company por Ren Jianxin, um empresário local interessado em fabricar solventes, a companhia foi adquirida pelo governo chinês vinte anos depois e hoje figura entre as 500 maiores empresas do mundo de acordo com a Fortune, com um impressionante faturamento na ordem de 40 mil milhões de dólares americanos anuais[4].

Se a ChemChina já havia mostrado o seu cartão de visita ao adquirir a francesa Rhodia (químicos) e a italiana Pirelli (borracha), assombrou todos quando teve sua oferta de US$ 43 mil milhões aceite pelo conselho administrador da Syngenta, em fevereiro último – percebam que o valor é inferior aos US$ 46 mil milhões oferecidos pela Monsanto no ano anterior. A aquisição, ainda que esteja condicionada à aprovação por diversos órgãos de regulação económica, representa um passo importante na intrincada disputa entre Estados Unidos X Europa X BRICS (no caso dos Brics considerando mais o triunvirato nuclear/industrializado Rússia-China-Índia do que os periféricos Brasil e África do Sul).

Se por um lado os europeus da Syngenta não pretendem ver a quase totalidade do património genético vegetal nas mãos dos americanos, a China parece cada vez mais preocupada com a segurança alimentar de sua população, investindo pesadamente nos últimos anos em aquisições no mercado de produção de alimentos, indústria e tecnologia agroalimentar.

Se por um lado os europeus da Syngenta não pretendem ver a quase totalidade do património genético vegetal nas mãos dos americanos, a China parece cada vez mais preocupada com a segurança alimentar de sua população, investindo pesadamente nos últimos anos em aquisições no mercado de produção de alimentos, indústria e tecnologia agroalimentar. A explicação para isso não é tão complexa assim: Vejamos, hoje a alimentação do mundo resume-se a basicamente quatro espécies vegetais: arroz, milho, trigo e batata, com destaque para o arroz no caso dos asiáticos. Num cenário de mudanças climáticas dramáticas, capazes de frustrar a colheita de safras inteiras e dizimar stocks públicos de cereais, a soberania alimentar ganha centralidade no debate geopolítico. É interesse da China, assim como da Índia – os dois países mais populosos do mundo, dominar toda o pacote tecnológico do agronegócio, desde máquinas, insumos, fertilizantes até chegar ao mais importante: as sementes.

Aqui chegamos ao ponto-chave, que é a propriedade intelectual sobre as sementes e o melhoramento genético que elas contém. Se nos primórdios da chamada “revolução verde” nos Estados Unidos, as novas variedades eram desenvolvidas nas universidades e disponibilizadas gratuitamente aos produtores, em 2015, apenas três empresas controlavam mais da metade (53%) do mercado de sementes no mundo: a Monsanto (26%), a DuPont Pioneer (18,2%) e a Syngenta (9,2%)[5]. Além dos elevados royalties cobrados pelas fabricantes, as sementes melhoradas não podem ser reproduzidas pelos agricultores, fazendo com que ano após ano tenham que ser adquiridas às mesmas empresas que dominam também o comércio de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Dessa forma, num eventual conflito entre países, seria plenamente possível “fechar as torneiras” e interromper o fornecimento de insumos que possibilitam a produção de alimentos essenciais ao consumo humano.

Talvez essa seja uma explicação para China, Índia e Rússia possuírem grandes barreiras ao cultivo e comércio de transgénicos. Longe de significar uma preocupação com a contaminação dos agroecossistemas pelos transgénicos ou uma decisão favorável aos pequenos agricultores familiares, o veto aos OGM aponta para a tentativa de manter em aberto a possibilidade de garantir o abastecimento da população frente à uma eventual crise geopolítica. Assim que companhias como a ChemChina dominarem toda a cadeia produtiva do agronegócio, esses países não estarão dependendo de norte-americanos ou europeus mas sim de tecnologias circunscritas aos aliados estratégicos e vizinhos dos “BRICS”. A disputa em torno do assunto ganha contornos cinematográficos com notícias recentes de agentes chineses que se declararam culpados por espionagem industrial ao roubarem sementes modificadas dos Estados Unidos[6].

É discutível essa estratégia: no longo prazo as monoculturas em larga escala, altamente dependente de combustíveis fósseis, serão cada vez mais suscetíveis à intempéries climáticas, e pragas e doenças que tinham o seu nível de dano contido pela biodiversidade agora causam pesadas baixas na produção. Investigações recentes apontam para o contrário: a chave para garantir a alimentação humana e simultaneamente travar o aquecimento global repousa na pequena agricultura, diversificada e de base ecológica. A aquisição da Syngenta pelos chineses já é considerada uma tragédia entre ambientalistas, movimentos de agricultores e investigadores, que projetam a agricultura chinesa – responsável por suprir 20% da população mundial – cada vez mais dependentes de insumos químicos e agrotóxicos[7].

O Brasil hoje é o segundo principal produtor de transgénicos, apenas atrás dos Estados Unidos. A maior parte desses cultivos é destinada não ao consumo da população, mas ao mercado externo. Se por um lado a China, Rússia e Índia garantem um mínimo de autonomia com a proibição de cultivos transgénicos estamos em uma posição muito mais desfavorável, com uma economia totalmente dependente de insumos externos e mesmo possuindo uma das maiores áreas agricultáveis do mundo, o Brasil já convive com o fantasma da escassez de alimentos: o início de 2016 marcou o esgotamento dos estoques de arroz e feijão do país [8]. O “arroz com feijão” base da alimentação do brasileiro dependeu de importação, com os preços do bushel negociados na bolsa de Chicago.


Daniel Araujo é engenheiro agrónomo. Artigo publicado no blogue de Insurgência, tendência que integra o PSOL brasileiro.

Notas:

[1] http://www.nasdaq.com/symbol/mon

[2] Cultivo de alimentos transgênicos da Monsanto enfrenta barreiras na Índia

[3] A Profunda Ligação entre a Monsanto e o Facebook.

[4] http://fortune.com/global500/chemchina-265/

[5] 10 empresas dominam 75% do mercado mundial de sementes

[6] Chinese-American Pleads Guilty to Stealing Genetically-Engineered Seeds

[7] Grain – Open letter to the people of China

[8] País deve ter escassez de arroz e feijão

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