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Terrorismo de extrema-direita não é só quem aperta o gatilho

Ao atentado supremacista branco em Buffalo respondeu-se com a psicologização das suas motivações e com o menorizar da responsabilidade de quem à direita segue as teorias “conspiranóicas” da Grande Substituição. Mas o “lobo solitário” é apenas um elo numa cadeia de ódio que precisamos de compreender e combater. Por Miguel Urbán.
Manifestantes contra o discurso de ódio à porta da Fox News esta quarta-feira. Foto de SARAH YENESEL/EPA/Lusa.
Manifestantes contra o discurso de ódio à porta da Fox News esta quarta-feira. Foto de SARAH YENESEL/EPA/Lusa.

No passado domingo, Payton Gendron, um adolescente de apenas 18 anos, protagonizou um tiroteio num supermercado em Buffalo (Nova Iorque), deixando o terrível saldo de dez pessoas mortas e outras três feridas. Segundo as autoridades, Gendron planeou pormenorizada o atentado ao Tops Friendly Market, situado num bairro predominantemente negro, a uns cinco quilómetros do centro de Buffalo. O ataque, transmitido ao vivo pelo Twitch, tem uma motivação claramente racista e soma-se à larga lista de atentados de extrema-direita nos Estados Unidos. Porque, não nos equivoquemos, não estamos face a um caso isolado ou a um trágico desvario de um doente mental.

Os dados da ameaça do terrorismo de extrema-direita nos Estados Unidos falam por si só. Um estudo do US Extremist Crime Database de 2017 assinala que, entre 12 de setembro de 2001 (dia posterior aos atentados de 11 de setembro) e 31 de dezembro de 2016, 74% dos ataques terroristas levados a cabo em solo norte-americano foram obra de radicais de extrema-direita. No ano de 2017, segundo uma investigação da Anti-Defamation League (ADL), 71% das mortes causadas por terrorismo foram obra de ataques de extremistas de direita. Finalmente, em 2018, ainda segundo a ADL, nada menos que 98% das mortes causadas por ataques terroristas se deveram a atentados de radicais de direita. Desde o 11 de setembro, a principal amenaça terrorista em termos domésticos foi, portanto, o extremismo direitista e não o jihadismo.

O último grande atentado do racismo supremacista branco tinha sido o de El Paso (no Texas), em 2019, que deixou 23 vítimas mortais. Neste atentado, como no de Buffalo da semana passada, os padrões repetem-se. Em certa medida, poderíamos dizer que a tendência atual do terrorismo de extrema-direita foi marcada por Anders Breivik, que em julho de 2011 matou 77 pessoas num duplo atentado em Oslo e num acampamento da juventude trabalhista. Convertendo-se assim, ao mesmo tempo no precursor e na referência desta nova onda de violência de extrema-direita. O próprio assassino de Buffalo tinha uma referência ao norueguês na sua arma. Assim, o padrão que Breivik marcou foi-se reproduzindo: um terrorista que atua solitariamente; atentados perpetrados por homens muito jovens radicalizados em fóruns da Internet de extrema-direita como o 8chan, ou no Discord e Gab; e que deixam um manifesto, em forma de carta ou de vídeo, onde desfiam as suas motivações e visão do mundo.

A investigação sobre a origem e funcionamento dos terroristas de extrema-direita indica que muitos deles se radicalizaram através da Internet, que se coordenam em fóruns de debate online e que utilizam as redes sociais para publicitar os seus atentados, incluindo com transmissões em direto como no caso deste último atentado.

De facto, ainda que possa parecer surpreendente, estamos a assistir a muitos elementos em comum entre o terrorismo jihadista e o de extrema-direita. Isso mesmo é defendido por diferentes investigadores como Moussa Bourakba, que constata “uma semelhança surpreendente nas técnicas de propaganda que utilizam ambos para recrutamento. Tal como as organizações jihadistas, a extrema-direita violenta recruta através das redes sociais, bem como em fóruns e plataformas de vídeojogos."

Apesar do auge do terrorismo de extrema-direita e das suas semelhanças com o fenómeno do jihadismo, continuamos sem assumir esta ameaça com a seriedade que merece e também a não aplicar o mesmo tipo de análise nos dois casos. Tal como assinala Daniel Poohl, diretor da revista sueca Expo, no caso de um "ataque islamista sempre tendemos a vê-lo como parte de um padrão mais amplo. Entendemos que faz parte da estratégia de uma ideologia política malévola. Com a extrema-direita, ao invés, esquecemo-nos deste padrão e tentamos entender o indivíduo por detrás do ataque”. Tal como ocorre com outros tipos de violência, individualizar o ato terrorista é uma maneira de neutralizar a necessária resposta social que é preciso desencadear. Assim, poder-se-ia dizer que a maioria dos partidos e instituições preferem “psiquiatrizar” as motivações e os próprios atos terroristas de extrema-direita a enfrentar a dura tarefa de analisar as motivações políticas do fenómeno e responder de forma consequente a partir das suas competências e responsabilidades.

O elemento mais claro que mostra o nexo de ligação entre o terrorismo de extrema-direita e os discursos de ódio que os partidos de extrema-direita propagam é a referência às teorias da conspiração da “Grande Substituição” ou “Plano de Kalergi”. De Breivik a Gendron, os manifestos que publicaram na Internet pouco antes de cometerem os seus respetivos atentados faziam referência a este suposto plano para substituir a população branca através da imigração massiva com o objetivo de criar uma população “inferior facilmente governável e sem caráter”, falando-se inclusivamente de “genocídio” programado. Estas teorias da conspiração têm sido amplamente difundidas pelos principais líderes e partidos da extrema-direita europeia e norte-americana como a própria Le Pen, Matteo Salvini, Santiago Abascal e o VOX, Viktor Orban ou a youtuber norte-americana da alt-right Lauren Southern.

A “conspiranóia” da Grande Substituição opera como a quinta-essência da xenofobia. Mas para a extrema-direita estas teorias são um forma de pescar votos. Com elas, buscam o apoio desses eleitores desencantados com o sistema, dizendo-lhes que os seus piores pesadelos sobre esse sistema são realidade. Desta forma, o porta-voz do Vox e eurodeputado Jorge Buxadé utiliza habitualmente a tribuna do Parlamento Europeu para difundir sem vergonha estas teorias, afirmando que “as elites do Parlamento Europeu, a Comissão e alguns governos europeus preferem optar pela substituição populacional que lutar pela Europa” (…) Existe uma vontade real em Bruxelas de implementar uma substituição populacional na Europa". Neste mesmo sentido se manifestou também o próprio líder, Santiago Abascal, e a conta oficial do Vox no Twitter que chegou a publicar: “A substituição populacional é uma teoria de loucos? A mafia socialista continua com o seu plano de votos: documentos grátis para 15.000 menas [menores estrangeiros não acompanhados]. Se antes havia um efeito de apelo, agora é um anúncio gritado para que milhares de africanos continuem a invadir as nossas fronteiras.”

Para além da responsabilidade da classe política e institucional na hora de banalizar as causas da violência de extrema-direita, psicologizando as suas motivações, não podemos de forma alguma ignorar o papel que os partidos e organizações de extrema-direita desempenharam, estando há anos a lançar gasolina ideológica sobre o ódio ao “estrangeiro”, ao “diferente”, fomentando assim uma imagem estigmatizada e estigmatizante da migração como “invasão” e “deliquência”. E, ao mesmo tempo, dando combustível a estas teorias conspiranóicas e xenófobas da “Grande Substituição” ou do "Plano de Kalergi".

Este aumento dos atentados de extrema-direita direita está também a acontecer em paralelo com o auge eleitoral recente de partidos de extrema-direita, mas também com a difusão e normalização das suas ideias e propostas. Há muitos responsáveis neste processo generalizado de “lepenização dos espíritos”. Dando cabimento a argumentos supremacistas ou exclusores como se se tratasse de uma qualquer outra opção política, está-se a abrir a porta a normalizar os projetos que defendem estas propostas, sejam de formações políticas, de fóruns na Internet ou de iniciativas terroristas. Se não compreendemos as ligações e unimos os pontos até chegar aos seus responsáveis últimos, apenas ficamos com a imagem de quem aperta o gatilho com o seu perfil psicológico violento, doente e isolado. Mas o lobo solitário supremacista é apenas um elo necessário numa cadeia de horror e de ódio que precisamos de compreender e combater para pôr fim ao terrorismo ultradireitista e à extrema-direita em todas as suas formas.


Miguel Urbán é eurodeputado e membro do Conselho Assessor do Viento Sur.

Artigo publicado no Viento Sur. Traduzido para o Esquerda.net por Carlos Carujo.

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