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Tensão EUA/Irão em suspenso depois da queda de avião ucraniano

Quando Trump respondeu ao ataque a bases militares com presença norte-americana apenas com anúncio de sanções económicas e moderando o discurso bélico, a crise entre EUA e Irão parecia estar a voltar a patamares anteriores. Mas a disputa sobre a responsabilidade pela queda do avião ucraniano em Teerão tornou-se um novo capítulo.
Caixa negra do avião ucraniano que se despenhou em Teerão apresentada em conferência de imprensa da Autoridade da Aviação Civil iraniana. Janeiro de 2020.
Caixa negra do avião ucraniano que se despenhou em Teerão apresentada em conferência de imprensa da Autoridade da Aviação Civil iraniana. Janeiro de 2020. Foto Lusa/Epa/Iran Press.

Às 06.10 da passada quarta-feira, no auge da crise entre EUA e Irão, um avião ucraniano cai perto do aeroporto de Teerão. Todos os seus 176 ocupantes morrem no desastre. Com a tensão ao máximo, as notícias e reações são cautelosas. Em lado algum se associa imediatamente a queda do avião ao ataque iraniano a duas bases militares com presença norte-americana.

Demorou cerca de um dia para essa associação passar a ser feita. Vários meios de comunicação social ocidentais noticiaram em seguida que o Boeing 737 foi abatido por um míssil terra-ar iraniano por engano. A primeira fonte que citaram era anónima e referida como pertencendo aos serviços secretos norte-americanos. Um satélite teria detetado o lançamento de dois mísseis Tor-M1 de fabrico russo.

Já na noite desta quinta-feira, junta-se ao enredo uma imagem de vídeo que, aparentemente, ajuda a sustentar a tese do míssil. O New York Times, que o publicou em primeiro lugar, assegura que se trata de um vídeo verificado mas não revela a sua fonte.

Ainda antes, Trump tinha dito aos jornalistas ter “um mau pressentimento” de que “pode ser que alguém tenha cometido um erro”.

O presidente ucraniano não descarta a possibilidade. Volodymyr Zelenskiy afirmou que “a teoria sobre o míssil não está afastada, mas ainda não foi confirmada” e apelou à partilha internacional de informação.

Já o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, é mais perentório e tem menos pressentimentos. 63 dos passageiros mortos eram do seu país e Trudeau diz ter “informações de fontes múltiplas, particularmente dos nossos aliados e dos nossos próprios serviços” no sentido do avião ter sido destruído “por um míssil terra-ar iraniano”. Também ele junta: “talvez não tenha sido intencional.” Boris Johnson e Scott Morrison, primeiro-ministro australiano, fizeram declarações no mesmo sentido.

A Autoridade da Aviação Civil iraniana responde por sua vez com a certeza de que avião ucraniano não foi abatido por um míssil, apesar de dizer que a recuperação das caixas negras pode demorar um mês e a sua análise um ano.

Segundo esta entidade, o voo 752 saiu do aeroporto com uma hora de atraso porque o piloto mandou retirar parte das bagagens por considerar que havia peso a mais. Os iranianos pediram ainda que EUA e Canadá partilhem dados que tenham sobre esta ocorrência: “se estão realmente seguros, deviam mostrar as suas descobertas ao mundo”, diz o presidente da instituição. Dizem ainda ter convidado Ucrânia e a empresa fabricante do avião para fazerem parte das investigações. A Ucrânia confirma que investigadores seus já puderam investigar alguns dos despojos ao mesmo tempo que, de acordo com o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Vadym Prystaiko, também asseguram que os EUA lhes deram acesso a “dados importantes”.

A memória de 1988: a marinha dos EUA abateu voo civil e matou 290 pessoas

O abate de um avião civil no Irão traz à memória o dia 3 de julho de 1988. Então, a marinha norte-americana abateu o voo 655 da companhia aérea iraniana matando 290 pessoas.

Do lado dos EUA, a ferida simbólica nas relações com o Irão é marcada por outra data: em 1979, a tomada da sua embaixada resulta numa crise prolongada com vários reféns. Um facto tão importante que quando Trump ameaçou destruir sítios culturais importantes para este país determinou que seriam 52, numa referência ao número de reféns.

Do lado iraniano, o momento que não é esquecido é este abate do avião em 1988. Vivia-se então a guerra Irão-Iraque e os Estados Unidos empreenderam uma curta batalha naval no Golfo Pérsico depois de um navio seu ter embatido numa mina e de terem acusado o Irão pelo facto. Nesse dia, o USS Vincennes, em águas iranianas, disparou contra navios deste país. A destruição do Airbus A300 cheio de passageiros civis, alegam os EUA, terá sido por engano. Este avião teria sido confundido com um F-14. A ferida voltou a ser remexida quando ao capitão do navio, William C. Rogers, foi atribuída a Legião de Mérito.

A esta data fatídica, os iranianos somam outra de que não se esquecem. Em 1953, um golpe de Estado apoiado pela CIA depôs o primeiro-ministro do país que pretendeu nacionalizar o petróleo.

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