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Sucedem-se as denúncias sobre manipulações da FCT

Depois do júri do painel de sociologia, é agora o do painel de Antropologia e Geografia que manifesta “estupefação” perante a alteração dos resultados posterior à sua decisão. Há críticas por parte de outros júris. No parlamento, Nuno Crato ignora o próprio Orçamento de Estado e afirma que o “financiamento efetivo” na ciência aumentou.
“Estamos perante um ultraje a juntar à drástica redução de bolsas que julgamos produzir efeitos irreversíveis no desenvolvimento da ciência no país”, diz a antropóloga Susana de Matos Viegas

A antropóloga Susana de Matos Viegas, do júri do painel de Antropologia e Geografia, enviou uma carta ao presidente da direção da Associação Portuguesa de Antropologia (APA) em que afirma que “sem qualquer consulta aos membros do júri, os resultados da avaliação [do concurso de bolsas individuais] foram alterados por funcionários administrativos da FCT”. A carta, publicada no portal da APA, revela que a Fundação para a Ciência e Tecnologia alegou no dia 21 de janeiro que as alterações se destinavam a ‘resolver erros’ que, alegadamente, os avaliadores teriam cometido. “Como se sabe, eventuais ‘erros administrativos’, sempre plausíveis em concursos com elevado número de candidaturas, sempre foram resolvidos, em anteriores concursos da FCT, em audiência prévia e com a consulta dos avaliadores e nunca unilateralmente e à sua revelia”, assinala a antropóloga.

“Em resposta a esta situação, no dia 21 de Janeiro foi enviada uma carta do Painel de Antropologia e Geografia ao Diretor da FCT, subscrita por todos, manifestando a nossa 'estupefação' com esta atuação 'administrativa' que se sobrepõe ao princípio soberano da avaliação por pares – aquilo que caracteriza o conhecimento científico”, conclui a carta da investigadora e professora, cuja opinião é que “estamos perante um ultraje a juntar à drástica redução de bolsas que julgamos produzir efeitos irreversíveis no desenvolvimento da ciência no país”

Os resultados publicados há uma semana pela Fundação para a Ciência e Tecnologia mostram que, face a 2012, houve um corte de 900 bolsas individuais de doutoramento e de 444 bolsas de pós-doutoramento.

Também o coordenador do painel de avaliação das Ciências da Educação, José Pacheco, diz que a FCT tinha prometido que 10% dos candidatos iriam receber bolsa, o que não foi cumprido, pelo que o júri enviou também uma carta à direção da FCT.

O desencontro de Crato com os números

Esta sexta, no Parlamento, o ministro da Educação, Nuno Crato, afirmou que o governo não desinvestiu na ciência e chegou ao ponto de dizer que o “financiamento efetivo” na ciência aumentou. “Não confundamos um concurso de bolsas individuais com todas as bolsas”, disse Crato, que se refugiou numa vaga promessa de que haverá fundos da União Europeia a ser canalizados para bolsas individuais.

Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, disse que basta ver a execução orçamental para comprovar o desinvestimento. O deputado sublinhou que o ministro nada disse sobre a chuva de denúncias de irregularidades nos concursos e, sobretudo, não deu qualquer saída aos milhares de investigadores que ficam sem alternativas. “E não conseguiu aqui dizer qual é o seu novo paradigma, porque não é nenhum”.

Recorde-se que não é a primeira vez que Nuno Crato, professor de matemática, manipula números para procurar negar a realidade. Em setembro de 2012, por exemplo, Crato comparou estatísticas de um ano de expansão das Novas Oportunidades com outro onde o programa estava a acabar para concluir que havia menos 200 mil alunos no ensino básico e secundário, atribuindo essa suposta realidade a causas demográficas. Com isso queria justificar a redução de professores.

O desencontro de Crato com os números é tal que no último dia 14 meia centena de professores e investigadores do Ensino superior levaram uma calculadora ao ministério da Educação, pedindo a Nuno Crato que faça bem as contas e que reponha o que foi cortado aos orçamentos das Universidades e institutos Politécnicos.

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