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Sophie Djigo, a professora ameaçada pela extrema-direita por causa de uma visita de estudo

A rede “pais vigilantes” ligada a Zemmour lançou uma campanha de ódio contra a professora de Filosofia que queria levar alunos a um centro de ajuda a migrantes para “mostrar factos aos estudantes e aguçar o espírito crítico”. A visita foi anulada por razões de segurança mas relançou o debate sobre intimidação da extrema-direita.
Sophie Djigo. Foto de BeCrazy.
Sophie Djigo. Foto de BeCrazy.

Sophie Djigo, professora de Filosofia no liceu Antoine Watteau de Valenciennes, uma cidade do norte de França, pretendia fazer uma saída de campo com os alunos. No âmbito de um projeto interdisciplinar, denominado “exílio e fronteiras”, iriam, na passada sexta-feira, encontrar-se com os voluntários do Auberge des Migrants, em Calais, uma das associações que presta auxílio aos migrantes.

Iriam porque bastou um comunicado publicado nas redes sociais para desencadear uma torrente de ódio vinda da extrema-direita contra ela que culminou no cancelamento da visita pela direção regional de educação de Lille por razões de segurança. A instituição anunciou também que iria apresentar queixa na justiça e que seria dada proteção policial à docente.

Um movimento de pais de extrema-direita, a rede “pais vigilantes”, uma das novas apostas de Éric Zemmour para ganhar algum protagonismo depois do desastre eleitoral das presidenciais, atacou-a devido à questão dos imigrantes na sua página “protejamos as nossas crianças”. A porta-voz do movimento, Agnès Marion, diz que a saída de campo se tratava de uma “tomada de reféns”.

Os membros do partido do partido de Zemmour, o Reconquista, ajudaram a propagar a mensagem, com o seu responsável departamental, Simon Flahaut, a atacar o “combate ideológico” da professora, o próprio Zemmour a queixar-se por os alunos estarem a ser “instrumentalizados” por uma “grande doutrinação ao serviço da grande substituição”, a sua teoria da conspiração fetiche. E os eleitos da União Nacional de Hauts-de-France juntaram-se contra a “propaganda a favor da imigração”. A onda rapidamente passou deste tipo de críticas para “as ameaças pessoais” e a “difamação” escreve a delegação regional de ensino no comunicado em que lamenta as “reações violentas”.

O assédio da extrema-direita na educação

Zemmour tem insistido no tema da educação. Quer na reentré do seu partido quer no comício deste domingo, que reuniu mais de quatro mil pessoas para comemorar o aniversário do Reconquista, este foi um assunto ao qual dedicou muito tempo. Investe também dinheiro, já que a rede “pais vigilantes” é financiada pelo seu partido e militância nesta campanha.

A cartilha é fácil de intuir. Nas suas palavras, a escola estaria pejada de “manuais escolares inspirados pela extrema-esquerda, ensino da “teoria do género”, intervenções de associações pró-imigrantes e LGBT, wokismo, culpabilização histórica e ódio à França”.

Para além do discurso, o modo de agir da política de intimidação da extrema-direita aos professores também é repetida e já é conhecida no nosso país. Laurence De Cock, ensaísta e historiadora, descreve-a: “a mecânica está rotinada: um militante de extrema-direita apodera-se de um extrato de curso ou de um projeto pedagógico e escala a questão nas redes sociais até criar um “buzz”, ajudado pelos trolls do Twitter e as cadeias de televisão de Vincent Bolloré. O extrato supostamente demonstra o “militantismo” do docente, particularmente quando o curso trate de temáticas ligadas às lutas contra as discriminações. De tweets em tweets (…) o assunto excita os pregadores de ódio profissionais, que acabam por difundir o nome do ou da culpada e o seu local de trabalho. Depois escavam-se as suas possíveis participações sindicais, compromissos políticos e associativos, trabalhos ou artigos científicos para “demonstrar” que a escola está gangrenada pela extrema-esquerda. Durante o processo, o colega acaba por ser alvo de ameaças – sendo que o assassinato de Samuel Paty mostrou que nem sempre se ficam pelo virtual”. Para ela, a rede “pais vigilantes” tornou-se agora “o modelo destas delações abusivas”, inserindo-se na cadeia do ódio, sob o pretexto de enviar queixas às autoridades escolares.

O espírito crítico face ao ódio

Djigo, diz que pretendia “mostrar factos aos estudantes e aguçar o seu espírito crítico”. Mas não se pretende de todo neutra sobre o tema da saída de campo. É, aliás, autora de vários livros sobre o fenómeno das migrações, como Les migrants de Calais - Enquête sur la vie en transit e Aux frontières de la démocratie - De Calais à Londres, sur les traces des migrants.

Doutorada em Filosofia e especialista em Filosofia Moral, é também ativista da solidariedade para com os migrantes. Conta ao La Vie que tudo começou com as viagens de comboio em 2009 quando ensinava em Calais e se cruzava com os migrantes: “no comboio ficava ao lado de migrantes. Não podia afastar o olhar. Eram presenças físicas, corpos, que não podia ignorar. Pouco a pouco comecei a debater com eles, depois trocámos números de telefone. E a seguir fui convida para ir vê-los aos acampamentos. A primeira vez fiquei doente”. A experiência vai inspirá-la para criar o movimento de solidariedade Migraction 59 que tem uma equipa de 15 pessoas e uma rede de 450 membros ativos e 2.800 simpatizantes.

Sobre o que se passou nos últimos dias lamenta, em declarações ao jornal La Voix du Nord, que as pessoas que tanto escreveram sobre o assunto “não tiveram o cuidado de me contactar para conhecer o projeto” que inclui ainda o estudo de pensadores clássicos sobre o tema do Estado-Nação e sobre o exílio, ateliers de teatro, debates, seminários, conferências, uma das quais pelo historiador de arte Jérôme Kennedy intitulada “Ovídio, o desenraizado”.

Tudo isto retomava um projeto parecido ocorrido no ano anterior. Um dos seus alunos desse ano reforça a mensagem: “ela nunca tentou influenciar-nos na nossa reflexão. Havia divergências na classe”. E “durante todo o ano falou de humildade face a um tema, de nunca tirar conclusões precipitadas e de aprofundar”.

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