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A solidão da patrulha, na multidão de feirantes

29 de Abril. É dia de mercado, o tempo continua primaveril. Vamos às compras. Saint-Denis é mais do que um mercado. Por Liberato Fernandes.
“La foire du Lendit", anónimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França, na BnF (departamento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264). http://cidademedieval.blogspot.pt/

“As verdadeiras feiras são aquelas para as quais a cidade inteira abre as suas portas(…). Paris domina as suas, reduz-las à dimensão de grandes mercados. Por exemplo a antiga feira de Lendit tem lugar em Saint-Denis, fora das muralhas. Há dados de sua realização desde o reinado de Carlos Calvo” no Século IX”
Fernand Braudel1

29 de Abril. É dia de mercado, o tempo continua primaveril. Vamos às compras. Saint-Denis é mais do que um mercado. Três dias por semana, os negócios tomam conta do centro da cidade e o mercado torna-se feira. Ao sair de casa, damo-nos conta da diferença: maior movimento tendo como o destino principal a feira. Os toldos tomaram conta das ruas, os grupos, tornam-se multidão. A nossa guia vai encontrar-se com uma amiga, pelo que decidimos marcar encontro num café próximo do mercado.

Feirantes, vendedores e compradores são, na esmagadora maioria, de origem afro-magrebina, portugueses, espanhóis e da Europa de Leste. “Os Jogos das Trocas”, uma das minhas leituras de viagem, descreve o papel das feiras na formação das cidades, e do capitalismo, na Europa. Imagino como seriam as feiras de Saint Denis, na idade média. Diz-nos Braudel, e confirma-nos qualquer historiador, que as feiras eram espaços cosmopolitas, de liberdade e de participação popular. Os mercadores medievais viajavam dumas feiras para as outras. A grande feira de Paris, de Saint Germain, realizava-se no atual centro histórico, era o ponto de encontro, para representações teatrais.

A propaganda política na feira

Próximo do café encontram-se a distribuir comunicados dois grupos: o primeiro é, afinal, um isolado: mais de 50 anos, aparentemente, de origem europeia. Entrega-me, além do comunicado, um cartão com identificação completa: a edição é do Collectif Defense. Tem endereço postal e e-mail. O impresso que me dá para preencher faz-me perceber que se trata dum grupo que pretende legalizar-se como partido. Explico-lhe que estou de passagem e não sou cidadão francês. O comunicado tem como título, “As Presidenciais: um obstáculo maior contra as reivindicações dos trabalhadores” é, também, extenso no conteúdo. Identifica o grupo como organização operária, revolucionária e marxista e, afirma-se contra a proposta da lei do trabalho de Khomri2. O “Coletivo” critica em todas as frentes: a Frente Nacional, os Gaullistas, o Partido Comunista Francês, o reformismo dos sindicatos... com tanta crítica terá dificuldade em obter apoio para passar a partido. Das poucas pessoas que recebem o folheto parte, deitam-no fora.

O outro grupo é um sucesso: duas mulheres jovens (30/40 anos), bem aparentadas e apresentadas (roupas que realçam a beleza, sem exibicionismo...), e um homem que, em Portugal, seria identificado como cabo-verdiano, com as mesmas caraterísticas das colegas. Também bem apresentado. Começam por abordar as pessoas, cumprimentando e convidando a participar num encontro que se realizará nas Portas de Saint Dénis. Só entregam o folheto a quem pede. O texto está escrito apenas num dos lados, metade do espaço é título e convite para o encontro... pouco entendido em francês leio-o facilmente. Trata-se de um bom exemplo de eficácia na comunicação:

Non à la guerre” “Non à l'état d'urgence”, e “Non aux racismes”

O Non, é único para as três palavras de ordem. Quem o recebe, guarda-o. Eu, como outros, peço mais um folheto. As distribuidoras, e o distribuidor,estão “como peixe na água”. Com o grupo está sempre alguém a conversar. Em síntese, o texto diz:

O estado-francês faz parte do grupo de estados envolvidos, e implicados, nas guerras que destroem o médio oriente (Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Palestina) e, em África (Mali, Costa do Ouro, República Centro Africana e Tchad);”
“Esta guerra que afeta o estado francês no exterior afeta também, no interior do seu próprio território, nomeadamente a população dos bairros populares: violências policiais, invasão de residências, ameaças de retirada de cidadania, destruição de serviços públicos e a prática de crimes securitários e racistas”;
“As populações oriundas das antigas colónias continuam estigmatizadas, vítimas da discriminação islamofóbica, negrofóbica e romofóbica
3 (…) causando incalculável dano nos direitos humanos.”

Regressando ao café observo o aproximar duma patrulha militar de armas prontas a disparar. A patrulha passa próximo do grupo de propaganda contra a guerra, mas os militares olham a multidão sem, aparentemente, “ver” o grupo agitador, que irradia segurança e simpatia e, também a ignora.

Vamos ao mercado. É um mercado pequeno, para a dimensão do lugar, a importância deve-se ao fato de servir de base à feira. É um mercado para pobres, com talhos, peixarias e bancas especializadas em servir pobres. Nas bancas das aves, abundam as miudezas (o frango é caro!). Nas bancas das carnes, abundam os ossos. Uma pequena multidão cercava um local de venda de iogurtes, no último dia do prazo: 18 iogurtes, 1 euro!... Na rua, abundam vendedores furtivos, homens e mulheres, oferecendo aos potenciais clientes pequenas espetadas de carne grelhada, pastéis, ervas aromáticas. Percebe-se a inquietação porque se tratam de vendedores “sem papeis”. Pelo mercado-feira de Saint Denis dá para perceber como sobrevivem nas grandes cidades da Europa milhões de desempregados, emigrantes e refugiados.

A ida à feira permite ver os diversos medos: o medo dos vendedores sem papéis; o medo da patrulha militar, solitária, que apesar de fortemente armada, não se sente segura ao atravessar uma multidão hostil. Um medo que contrasta com o à vontade do grupo que faz propaganda contra a guerra, o estado de emergência e o racismo.

Há milhões de trabalhadores e desempregados que receiam passar à situação de descartáveis, a que se soma a tragédia da guerra. Em todas estas situações o estado francês, e a União Europeia, têm responsabilidades. O medo e a insegurança vai para além do medo ao bombismo e está a pôr em causa a ordem, e o sistema injusto, em que assenta o estado francês.

Artigo de Liberato Fernandes, publicado a 28 de junho no “Diário dos Açores”.


1 Fernand Braudel, historiador, em “Os Jogos das Trocas: Civilização Material, Economia e Capitalismo” entre os séculos XV e XVII.

2 Miriam El Khomri é ministra do governo de Hollande, autora do projeto de lei laboral que radicalizou as lutas sindicais e estudantis em França. Conseguiu unir todos contra ela, menos a direita e a extrema direita que quer que o governo aprove a lei, sem que eles se machuquem...

3 Romii: população de etnia cigana, que vive em Saint Denis, com origem na Europa de leste.

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