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Socialismo 2017: Mobilizar contra Trump, a guerra e a extrema-direita

Na abertura do Fórum Socialismo 2017, a ativista norte-americana Winnie Wong falou da esperança aberta pelos movimentos sociais nascidos na campanha Sanders. Luís Fazenda apelou à constituição de uma “frente anti-guerra” e Marisa Matias acusou o PSD de se apropriar do discurso da extrema-direita.
Luís Fazenda, Winnie Wong e Marisa Matias. Foto Paulete Matos

Winnie Wong, que liderou a estratégia de comunicação nas redes sociais da campanha de Bernie Sanders às primárias das presidenciais, foi a convidada internacional da abertura do Fórum Socialismo 2017, que encheu o auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa. O Fórum prossegue durante sábado e domingo, com entrada livre (ver programa)

Na sua intervenção, destacou a mudança política provocada pelo movimento de apoio a Sanders, em particular na juventude. E recordou que segundo recentes inquéritos de opinião, uma grande parte dos menores de 25 anos “identifica-se como socialista, mesmo que não saiba bem o que isso quer dizer”.

“Foi uma campanha histórica, que tornou Bernie Sanders conhecido em todo o mundo. Conseguimos mobilizar os norte-americanos e pô-los a falar de socialismo”, prosseguiu Winnie Wong, após lembrar as décadas de devastação das conquistas sociais e da rede de proteção social dos cidadãos, que hoje “não têm um acesso adequado à saúde nem às pensões”.

O impacto da crise financeira na vida das pessoas teve uma resposta mobilizadora com a experiência do Occupy Wall Street, em que Winnie participou e ajudou a mobilizar desde a primeira hora: Um acontecimento que “não mudou a política, mas fez muita gente começar a falar em capitalismo, o que não acontecia há décadas”.

“Nas presidenciais, Donald Trump ganhou a ‘guerra da narrativa’. Ele mentiu ao usar os pontos levantados por Sanders” na sua campanha, acusou Wong, não poupando críticas quer à candidata Hillary Clinton por ter afastado - e até insultado - o eleitorado operário, quer ao “aparelho corrompido” do Partido Democrata que prejudicou Sanders nas primárias. Muitos ativistas da campanha Sanders que acabaram eleitos nas suas localidades enfrentam agora a mesma hostilidade por parte do Partido Democrata, acrescentou.

“Nos primeiros cem dias de mandato, enquanto o mundo fazia troça dele, Trump formou um governo recheado de abutres e ’capitalistas dos desastres’. Não é apenas um bilionário, são 10 bilionários que mandam no governo”, resumiu Winnie Wong, concluindo que hoje “a esperança está no movimento social que resultou da campanha de Sanders”.

A mobilização das mulheres norte-americanas em resposta à tomada de posse de Trump e o reforço de organizações nascidas no âmbito da campanha Sanders - como o “Our Revolution”, que conta com cerca de 400 grupos locais e já ajudou a eleger mais de 70 candidatos, ou o Democratic Socialists of America - podem ser instrumentos para acelerar a mudança necessária. Estes movimentos promovem uma agenda progressista que enfrenta a máquina do Partido Democrata.

Apesar disso, quanto ao futuro do atual inquilino da Casa Branca, “não estou 100% segura que a situação possa mudar nos próximos três anos: O impeachment ainda é pouco provável e ele é demasiado narcisista para se demitir”, apesar do país estar à beira de uma crise constitucional, acrescentou.

O papel das redes sociais foi naturalmente outro dos temas abordados na sessão, com Winnie Wong a defender que “não podemos ficar para sempre no Facebook e no Twitter, eles não são instrumentos para ganhar eleições, mas para construir consensos globais. Um movimento tem de evoluir, caso contrário estagna”.


Marisa Matias acusa PSD de se apropriar do discurso da Extrema-direita

Foto Paulete Matos

A eurodeputada bloquista introduziu no debate o tema do crescimento da extrema-direita na Europa e a naturalização das suas políticas, abertamente aplicadas por governos no leste europeu. “Habituámo-nos a pensar em Portugal como uma exceção” neste contexto, mas “quando ouvimos André Ventura em Loures e Passos Coelho no Pontal, estamos a assistir a uma apropriação do discurso da extrema-direita por um partido do mainstream: esse partido é o PSD”, apontou Marisa.

“Isto é mais grave do que se passa na Europa. Estamos a entrar num campo muito perigoso que pode fazer a extrema-direita entrar pela porta larga”, alertou Marisa Matias, acrescentando que “o preconceito do PSD e Passos Coelho não é apenas xenófobo, é de classe: ele não teve problema com a imigração dos vistos gold, em que não se sabe a origem do dinheiro. Bastava que as pessoas fossem ricas para que pudessem vir…”

As responsabilidades da União Europeia no crescimento da extrema-direita foram também apontadas por Marisa Matias. Por um lado, a UE “tenta eliminar a participação democrática e provocar o desenraizamento político, ao fazer de alguns países uma espécie de colónias do sistema”, e por outro, “o projeto da UE é um projeto sem comunidade política e com uma política neoliberal levada ao extremo”, resumiu.


Luís Fazenda defende construção de uma “frente anti-guerra”

O dirigente bloquista Luís Fazenda fez uma análise da presidência de Trump no contexto da atual fase do capitalismo global, marcada pelo recuo das democracias e dos direitos sociais e pela multiplicação das formas autoritárias de governo.

“Trump é um senhor da guerra. O facto dele ameaçar todas as semanas pode banalizar a ameaça, mas ela pode acontecer” a dado momento, alertou Fazenda, acrescentando que “a ideia de que o Trump é um idiota é errada. Convém levá-lo a sério e tratá-lo como o chefe de fila de um império”.

“Sendo ele um caleidoscópio de políticas negativas em todas as áreas, devemos concentrar-nos sobre a paz. As forças democráticas progressistas devem começar a convergir numa vasta frente anti-guerra”, propôs Fazenda, apontando a próxima cimeira do “Plano B para a Europa”, que se realiza em outubro em Lisboa, como uma etapa importante para formar essa frente com outras forças políticas e sociais europeias.

Lembrando que “Obama manteve uma guerra permanente no mundo e não interrompeu o curso imperial dos EUA”, Luís Fazenda apontou que “nós hoje estamos a pagar a fatura daqueles que pensaram que o Obama traria a pomba da Paz conjuntamente com o Nobel que teve”.

“No Bloco, sempre entendemos que o problema da globalização é ela estar a ser dirigida pelo império", afirmou Fazenda, concluindo que o combate da esquerda deve ser feito "contra a corrida aos armamentos, contra a NATO e o sistema militar e bélico que está a ser montado pelo império”.

 

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