Shulamith Firestone: a relevância atual da feminista radical que queria abolir a gravidez

15 de August 2019 - 14:49

Shulamith Firestone, feminista de segunda vaga, foi alvo de escárnio ao defender no seu manifesto de 1970 úteros artificiais, mas os seus argumentos sobre a exploração do trabalho reprodutivo mantêm muita relevância hoje. Por Victoria Margree/The Conversation.

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Shulamithy Firestone numa entrevista em 1969. Fonte: Hezakia Newz/babyradfem_tv/YouTube.
Shulamithy Firestone numa entrevista em 1969. Fonte: Hezakia Newz/babyradfem_tv/YouTube.

Quando a escritora Shulamith Firestone publicou o seu manifesto feminista A Dialética do Sexo: Razões para a Revolução Feminista em 1970 (NT: traduzido em Portugal pela editora Meridiano em 1977), tornou-se numa sensação editorial. Meio século depois, recorda-se sobretudo o seu nome, amiúde em tom de escárnio, pelo apelo que fez ao desenvolvimento de úteros artificiais.

No entanto, com os direitos ao aborto e às tecnologias reprodutivas a revelarem-se temas prementes hoje, os seus argumentos sobre a exploração do trabalho reprodutivo das mulheres mantêm grande relevância.

Nascida no Canadá, Firestone foi estudante de artes e figura destacada do emergente movimento de libertação das mulheres em Chicago e Nova Iorque, altura em que publicou o seu manifesto. É considerada uma feminista de segunda vaga, parte da vanguarda de mulheres que se organizaram nas décadas de 1960 e 1970 para uma regeneração do movimento feminista que começara em fins do século XIX. O seu livro teve grandes vendas e gerou tanto elogios como críticas de comentadores do mainstream e também de outras feministas.

Razão da controvérsia foi a afirmação de Firestone de que "a gravidez é bárbara”, identificando o papel da mulher no cuidado das crianças como a fonte central da opressão feminina. Num esforço de imaginar um futuro utópico que resolvesse o problema da desigualdade de género, propôs que a reprodução biológica fosse substituída pela ectogénese — o desenvolvimento de embriões em úteros artificiais — para libertar as mulheres da "tirania da reprodução".

Capa da primeira edição da Dialética do Sexo, com retrato de mulher anónima por Edgar Degas. Fonte: Wikimedia Commons.
Capa da primeira edição da Dialética do Sexo, com retrato de mulher anónima por Edgar Degas. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1970, era fácil descartar as propostas de Firestone como matéria de ficção científica. Em 2017, no entanto, os cientistas já conseguiram fazer uma "bioplacenta" que gerou um feto de cordeiro durante várias semanas. Estamos apenas no início da reflexão sobre as implicações éticas e políticas de uma potencial ectogénese humana. A possibilidade de úteros artificiais poderia por exemplo mudar radicalmente os termos do debate sobre o aborto.

Firestone viu estas questões como uma oportunidade para melhorar a escolha reprodutiva e a autonomia das mulheres. Mas também é possível, por outro lado, que estas tecnologias sirvam para justificar novas formas de controle sobre os corpos das pessoas grávidas, permitindo a militantes anti-aborto argumentar que o aborto já não é necessário se os fetos podem ser transferidos para uma gestação artificial.

Opressão e tecnologia

Firestone acreditava que as origens históricas da opressão das mulheres residiam na sua falta de controlo sobre a gestação, sob a qual penaram até ao momento em que se generalizou uma contraceção eficaz. O facto de a maioria das mulheres em idade fértil ficar presa a um ciclo constante de gravidez, parto e amamentação, tornava-as dependentes dos homens para garantir comida e abrigo, e excluía-as de outras funções sociais. Assim se criou a primeira divisão de classe entre os seres humanos — produtores masculinos, reprodutoras femininas.

A ideia de Firestone era que esta realidade podia transformar-se. Os desenvolvimentos das tecnologias reprodutivas, através de métodos de contraceção fiável, de aborto seguro, de técnicas emergentes de fertilização in vitro, criavam o potencial para as mulheres ganharem controlo sobre as suas capacidades reprodutivas. Poderiam escolher a maternidade, ou não, de acordo com os seus desejos e projetos.

O problema era que em 1970 as tecnologias que prometiam essa autonomia estavam sob controlo de forças patriarcais e conservadoras, que negavam o aborto às mulheres ou permitiam o acesso à contraceção apenas para mulheres casadas. Inspirando-se em Karl Marx, Firestone apelava às mulheres para "tomar o controle da fertilidade humana", apropriarem para si mesmas as tecnologias adequadas de reprodução, tal como o proletariado deveria tomar os meios de produção. Com isso, pretendia dizer que deveriam ser as próprias mulheres a ter controlo sobre o aborto e a fertilização in vitro, não depender de instituições políticas e médicas dominadas por homens.

Com as mulheres livres dos papéis tradicionais de reprodução, Firestone acreditava que poderia surgir um tipo diferente de parentalidade. A família nuclear, que via como um símbolo do poder masculino, poderia ser abolida e substituída por uma estrutura difusa de parentalidade onde as crianças seriam criadas por grupos de adultos, designados "domicílios". A partilha de responsabilidades parentais permitiria às mulheres tornar-se mães sem ter de sacrificar as suas ocupações e identidades anteriores. As crianças seriam beneficiadas por ter relações de afeto com vários adultos, e ao mesmo tempo a criação de filhos tornar-se-ia possível para pessoas incapazes de ter crianças biologicamente.

Reler Firestone hoje

A evolução da teoria feminista desde a segunda vaga revelou falhas importantes no trabalho de Firestone, entre elas a cegueira perante o abuso histórico das capacidades reprodutivas das mulheres negras, e um medo do corpo que levava a um foco unilateral nos desafios físicos da gravidez. Firestone comparou por exemplo o parto a "cagar uma abóbora".

Não obstante, hoje há feministas a retornar ao seu manifesto. Isso deve-se em parte ao eco do seu trabalho nos princípios do movimento pela justiça reprodutiva, que exige o direito não apenas de terminar uma gravidez indesejada, mas também de cuidar das crianças em condições que permitam tanto a filhos como a pais florescer.

O nome de Firestone é também crescentemente citado como influência pelas xenofeministas, que defendem o "hacking" da tecnologia para fins progressistas, e por aqueles e aquelas que tentam repensar o parentesco e o cuidado das crianças para além da família biológica, como os teóricos queer ou Sophie Lewis, defensora da "gestação de substituição total".

Pouco tempo após publicar a Dialética do Sexo, Firestone retirou-se do movimento feminista e da exposição pública. Do que se sabe, concentrou-se numa carreira como artista visual, e combateu surtos da doença psiquiátrica recorrente de que padecia, tendo sido internada algumas vezes. Morreu em 2012 em Nova Iorque.

Apesar do apelo a úteros artificiais ser a curiosidade mais lembrada sobre Firestone, a sua visão de uma sociedade progressista foi sempre muito mais rica que o desejo de abolir a gravidez, e incluía reconhecer que muitas pessoas quereriam continuar a reproduzir-se à "maneira antiga" biológica. O mais importante para ela era que "a decisão de não ter filhos, ou tê-los por meios artificiais" fosse "tão legítima como a gravidez tradicional".

O que torna o seu livro digno de releitura é o reconhecimento, central e incontornável, de que a capacidade de engravidar é a base a partir da qual ainda hoje muita exploração e desigualdade funcionam, e enfrentá-lo exigirá à sociedade pensar de forma radical.

Victoria Margree é professora de humanidades na Universidade de Brighton.

Artigo original em The Conversation. Tradução para esquerda.net de José Borges Reis.